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As regiões de implantação histórica dos açorianos nos EUA
Entrevista com Onésimo Teotónio Almeida
Onésimo Teotónio Almeida é doutorado em filosofia pela universidade de Brown, Providence, Rhode Island, desde 1980, e professor catedrático do departamento de estudos portugueses e brasileiros da mesma universidade. É faculty fellow do Instituto de Estudos Internacionais Watson e professor associado de Estudos de Ciência e Tecnologia da mesma universidade. Foi o fundador da editora Gávea-Brown que publica traduções inglesas de literatura e estudos portugueses. Entre outros, tem como interesses de investigação a emigração açoriana nos Estados Unidos, a identidade nacional portuguesa, estudos e literatura luso-americana. +

 Entrevista realizada em Lisboa, 13 de Maio de 2010, por Filipa Pinho.

 

Observatório da Emigração (à frente OEm) - Começaríamos por pedir-lhe que nos fizesse um resumo de qual foi o seu percurso pessoal e académico que o levou ao estudo da imigração dos portugueses nos Estados Unidos da América.

Onésimo Teotónio Almeida (à frente OTA) – A minha avó paterna nasceu nos EUA, foi para os Açores com os pais quando tinha cinco anos, tenho também outros familiares que foram para os Estados Unidos muito cedo; do lado da minha mãe, o meu avô esteve nos Estados Unidos nos anos 1920, durante três anos, não gostou e não quis voltar para lá, mas uma filha dele casou nos Açores com um açoriano que nasceu nos EUA e para lá foram viver. Ou seja, há uma muito forte ligação da minha família dos Açores aos Estados Unidos. Eu fui o último a ir, sou o mais "português" da minha família. Os Açores são uma pirâmide no meio do Atlântico, cujo vértice, classe alta e média-alta, está voltado para Portugal Continental, enquanto o resto da população está toda voltada para a América - desde o século XVIII a emigração ia toda para a América do Norte, embora hoje já não seja assim. Pode dizer-se que o imaginário açoriano teve sempre uma componente fortemente americana. Em jovem eu queria ir estudar para Coimbra, ou mesmo para França, mas naquela altura já os meus pais tinham deixado as ilhas e, no Verão, embora eu lhes tivesse dito que queria ir para França, enviaram-me a passagem para os Estados Unidos. Fui dois Verões seguidos, resistindo sempre à pressão para lá ficar mas, à terceira, fiquei mesmo. Da minha parte foi quase um determinismo porque era difícil fugir ao circuito da família que estava toda nos EUA - a minha família imediata e toda a família do lado materno. Moravam até pertíssimo uns dos outros. Eu estava totalmente voltado para a Europa, não gostei de viver na América nos primeiros anos, mas acabei ficando. Costumo dizer que o meu primeiro diploma universitário foi um casamento e ele ditou a opção de ficar.

 

OEm - Qual foi o percurso que o levou aos estudos sobre a emigração?

OTA – Rodeado de emigração à minha volta, era impossível não me envolver nos problemas da comunidade. Nos das comunidades emigrantes e nos dos Açores e de Portugal porque o cordão umbilical era muito forte e as comunidades viviam intensamente a sua relação com Portugal e os Açores. Isso intensificou-se com o 25 de Abril. Mas envolvia-me também no meio americano, sobretudo na educação, onde surgiam problemas - conflitos culturais, casos de inadaptação, dificuldades linguísticas. Vinham ter comigo a questionar-me. Quando eu não conseguia respostas imediatas, punha-me a  ler e  a investigar. A melhor maneira de pensar é fazer as perguntas a que nunca respondemos e procurar pensar porquê e, então, ou nos informamos empiricamente, procurando dados, ou exploramos outras hipóteses, outras possibilidades. Por feitio, envolvo-me muito no mundo ao meu redor. Nos Açores lia muito sobre as ilhas para conhecer melhor a sua história, a cultura, a literatura. Para responder a perguntas sobre os açorianos e os portugueses em geral vindas de professores e de responsáveis na área da educação pelo destino das crianças emigrantes, pus-me a ler mais e mais sobre cultura portuguesa. Mas fiz o mesmo sobre a americana. Porque estava a fazer pós-graduação em Filosofia, as questões de fundo estavam sempre presentes. Fora da universidade, passava parte do meu tempo envolvido em problemas da comunidade portuguesa e fazia perguntas de fundo a questões do quotidiano, que obrigavam a respostas mais envolventes e complexas. Foi surgindo assim o meu interesse pela realidade das ideologias, das mundividências. Os problemas da emigração têm a ver com questões de identidade e estas têm a ver com os açorianos, mas também com Portugal e o seu confronto com os Estados Unidos. Isso levou-me até ao interesse pelo início do desfasamento entre Portugal e o Centro e Norte da Europa, a partir dos finais do século XVI. Enquanto a modernidade avança na Europa, Portugal vai perdendo protagonismo e vai estagnando. Os problemas surgidos no confronto das comunidades açorianas e portuguesas em geral com a cultura norte-americana não são mais do que uma extensão dos problemas resultantes dos confrontos culturais entre o Sul da Europa com o Norte da Europa. Foi neste contexto que criei no então recém-criado Centro de Estudos Portugueses e Brasileiros da Universidade de Brown um curso sobre o tema da identidade portuguesa em que líamos Antero de Quental, Teixeira de Pascoaes, António Sérgio e muitos outros, que tratam destas questões sob diferentes perspectivas. Nesse curso, procurava sobretudo revisitar o imaginário nacional português, começando com o peso dos Descobrimentos nesse mesmo imaginário, revisitando a seguir o tema dos "estrangeirados", a ideia de decadência, a filosofia portuguesa, a "nova renascença", Fernando Pessoa e a Mensagem, entre outros tópicos. Ainda hoje continuo interessadíssimo nesses temas. Esse curso inicial deu origem a vários cursos em que essas questões são mais profundamente abordadas. Basta um olhar de relance pela lista das minhas publicações para se perceber quanto do meu tempo foi gasto a reflectir sobre esta problemática.

 

OEm - Conseguiu sempre ligar muito bem a filosofia à história e à literatura...

OTA – Sim, para questões de fundo entramos sempre em problemas teóricos, mas a boa teoria está sempre ligada à prática, a uma sólida base empírica. Por natureza sinto-me à vontade nesse vaivém entre teoria e prática (empiria). A minha perspectiva tem há quase quatro décadas a mesma estrutura de fundo. Como disse atrás, apenas tenho vindo a aprofundar nas aulas e publicações a problemática em que me vi embrenhado na minha primeira década nos EUA. Eu tinha um livro aceite para sair na Imprensa Nacional em 1983 chamado A obsessão da portugalidade. Tinha oito capítulos todos sobre facetas da questão da identidade nacional. Acontece que um desses capítulos (sobre Fernando Pessoa) acabou por sair em livro (Mensagem - uma tentativa de reinterpretação). Os outros capítulos foram crescendo. Fui publicando por aqui e por ali os seus desdobramentos em ensaios diversos e hoje cada capítulo é quase um livro. São uma meia dúzia, que ainda não publiquei porque estou sempre a acrescentar. Todavia é tempo de sair com o primeiro, que tratará apenas de questões teóricas relacionadas com a identidade nacional ou cultural. Está praticamente pronto, mas vou editar primeiro uma edição bastante alargada do livro sobre a Mensagem pois, depois desse livro publicado em 1987, documentei e aprofundei bastante mais o meu entendimento do que Pessoa pretendeu com essa obra.

 

OEm - Tem organizado várias iniciativas sobre a emigração portuguesa com os seus alunos da Universidade de Brown, será que pode falar delas?

OTA – Eu ando sempre à volta das mesmas questões. Por exemplo, falei no dia 10 de Junho (2010) nos Açores, na sessão comemorativa em Angra do Heroísmo promovida pelo Representante da República e o que disse foi assim uma espécie de resumo de algumas ideias-base que norteiam o que tenho escrito sobre esta matéria da identidade, que no fundo é uma questão de valores. Os cursos, os artigos, os colóquios, são sempre sobre temas específicos, mas dentro desta problemática teórica. Os meus interesses teóricos rodam em torno da questão dos valores e das mundividências. Dou mesmo um curso na Universidade de Brown sobre a questão das mundividências. É um curso teórico em que os alunos lêem autores clássicos como Nietzsche, Whorf, Marx, Max Weber, Piaget, Darwin, numa perspectiva que não interessa aqui esmiuçar mas que tem a ver com a questão dos valores no mundo actual, agarrando em cheio a questão do relativismo ético. Fui ontem receber o Prémio de Ciências Sociais e Humanas do Seeds Science, na Figueira da Foz, por causa de um livro que publiquei em Setembro passado,  De Marx a Darwin. A desconfiança das ideologias, fruto do trabalho desenvolvido nesse curso e que, por sua vez, resulta do meu interesse na problemática da ideologia, tema da minha tese de doutoramento em Filosofia, na Brown. Esse trabalho teórico alimenta o outro, o trabalho aplicado nesta questão dos valores, sobre o mundo ibérico, sobretudo o português, o açoriano e ainda esse outro muito especial, o luso-americano.

 

OEm - Quando elabora questões, que tipo de perguntas faz aos emigrantes portugueses?

OTA – Muitas vezes as perguntas são deles. No entanto nos meus primórdios dos EUA elas provinham sobretudo dos professores que queriam saber: "mas porque é que eles são assim? porque é que eles pensam assim? porque é que eles não estudam? porque é que eles não lêem? porque é que os pais não se envolvem mais?". Nesse caso era o mundo anglo-saxónico a olhar para os nossos portugueses e a interrogar-se sobre o porquê das diferenças. Pus-me a procurar as causas no passado, tentando detectar os rumos seguidos pelos diferentes universos culturais.

 

OEm - No que é que os americanos notam que os portugueses são efectivamente diferentes?

OTA – A ausência da participação dos pais na escola, por exemplo - estamos a falar dos emigrantes portugueses. A situação hoje tem mudado bastante em Portugal, mas mesmo assim a luta que há nos Estados Unidos não é diferente da de Portugal. As lutas em Portugal para se melhorar o sistema de educação são exactamente as mesmas que nos Estados Unidos têm os educadores empenhados na escolarização dos jovens das comunidades portuguesas. São os EUA e a Europa do Norte a impor aos portugueses e a Portugal os seus padrões porque nós ficámos atrasados em relação a eles. Claro que a grande questão é como se opera esta mudança em tão pouco tempo. Os alunos americanos têm mais aproveitamento académico, mais acompanhamento dos pais, lêem mais, empenham-se mais nos estudos. Aqui os professores queixam-se que os alunos não lêem, não trabalham o suficiente em casa, os pais não os acompanham, não exigem deles. Assim, o que se passa com os portugueses nos Estados Unidos é talvez um caso mais extremo dos problemas que o Ministério da Educação tem aqui em Portugal: há alunos muito inteligentes e trabalhadores (e felizmente eles aparecem cada vez mais), mas a maioria da massa de estudantes sofre dos mesmos males num lado e noutro do Atlântico.

Há na verdade hábitos ancestrais, que pelo menos vêm muito de trás e que constituem quase um mistério. Dantes, dizia-se que o atraso era devido à política de Salazar. Já basta, porém, de se lhe atribuir todas as culpas do que somos. Há diferenças estruturais de fundo no comportamento português, ibérico e do sul da Europa em relação ao norte, e a imigração na América é apenas uma extensão dessas diferenças. Afinal, nos EUA eu simplesmente me confrontei com esse problema em directo, mas ele existe na França e na Alemanha e onde quer que os emigrantes portugueses se cruzem com as culturas da Europa do Centro e do Norte. E não se trata de uma questão de agora. Uma breve viagem pelas reflexões dos melhores pensadores da cultura portuguesa ao longo dos últimos séculos bastará para se notar a percepção clara que eles tiveram dessas diferenças.

 

OEm - Quando começou a emigração para os Estados Unidos?

OTA – Começou nos Açores pelo menos no final do séc. XVIII. Os barcos da baleeiros vinham da América e eram obrigados a parar nos Açores. Eles iam para o Atlântico Sul e, via estreito de Magalhães, para o Pacífico e Alaska. Quando regressavam, por ser navegação à vela havia necessidade de parar nos Açores. Era mais fácil virem barcos de Boston com mantimentos, correio e mesmo com as mulheres dos capitães. O porto da Horta foi escolhido para entreposto. No tempo dos descobrimentos portugueses, Angra do Heroísmo era o porto de eleição; as caravelas vindas da Índia levavam ainda cerca de três semanas para chegar a Lisboa, precisavam de água, fruta, cereais, e os Açores produziam-nos a ponto de haver excedente para exportação. Os Açores continuaram então a ser esse sítio de paragem obrigatória. No início da baleação, os barcos iam lá em cata de mão-de-obra; às escondidas, à noite, paravam nalgumas ilhas (os locais acendiam fogueiras para darem sinal) e os açorianos saltavam para bordo. Isso aconteceu nos Açores e em Cabo Verde. Mas só uma minúscula percentagem de açorianos trabalhava no mar e por isso muitos dos que embarcavam não eram marítimos. Sim, porque ninguém sabe ao certo de onde provêm os açorianos, se bem que o mais natural é a maioria ter vindo do continente português. Não há, todavia, documentos nenhuns que nos indiquem de que partes dele. O que se sabe é que os açorianos não aparecem tradicionalmente voltados para o mar, mas para a terra; foram para lá para cultivá-la e prover os barcos que lá paravam obrigatoriamente. Portanto, aqueles que se aventuraram nos barcos baleeiros não eram propriamente gente do mar, e por isso, sempre que puderam, saltaram em terra à chegada aos Estados Unidos. A América do Norte estava no início da Revolução Industrial e os açorianos preferiam trabalhar nas fábricas. Também não estavam habituados a esse tipo de trabalho, mas o pagamento era razoável e pelo menos mais seguro do que no mar. Os que foram para a Califórnia fizeram algo idêntico: deixaram o mar e foram para a terra; poucos ficaram na caça à baleia. Os da Califórnia, porém, encontraram terra disponível quanta quisessem, pois estava ali quase ao Deus dará. Depois seguiram-se os ciclos de emigração organizada, gente que ia já directamente trabalhar para as fábricas ou, na Califórnia, para as granjas (ou vacarias, como os emigrantes dizem). Na segunda metade do século XIX já a rede da imigração açoriana era, fundamentalmente, a mesma de hoje. Os sítios onde há açorianos continuam a ser os mesmos: Massachusetts, Rhode Island e Califórnia. Depois foram também para Connecticut. Mais tarde, alguns industriais americanos foram a New Bedford recrutar trabalhadores para as suas fábricas e foi assim que alguns pescadores de Ílhavo, que lá estavam, se mudaram para Nova Jersey iniciando aí uma colónia que é quase toda da região de Aveiro. Por isso essa comunidade é muito mais recente - cerca de cem anos. Quer dizer, a rede foi-se montando bem cedo: Massachussetts, Rhode Island, Connecticut, Nova Jérsia e Califórnia. A segunda maior vaga de emigração portuguesa aconteceu entre 1910 e 1920, já legal. São cerca de 150 mil emigrantes, quase todos açorianos. Depois a emigração pára devido a alterações na legislação americana. Recomeça só a meados dos anos 60. Excepto para um pequeno contingente de sinistrados do vulcão dos Capelinhos, no Faial, em 1957-8. Nessa circunstância, 1.500 famílias vão primeiro e depois outro contingente, passando o total a um pouco mais de 2.000, no âmbito de um acordo especial. Em 1965, a legislação americana em matéria de emigração muda e, a partir daí até 1980 emigram 180 mil - o maior número de sempre. Nessa altura os emigrantes das gerações anteriores já tinham sido na sua vasta maioria assimilados pela cultura americana e tinham mesmo mudado de nome (era a política na época).

 

OEm - Então é nessa altura que mudam os nomes portugueses para nomes ingleses?

OTA – Sim, mas os desta última leva já mantiveram os nomes. As comunidades portuguesas acabam por ter um ar de muito recentes porque as precedentes que ainda sobreviviam estavam quase todas assimiladas. Por exemplo, a emigração italiana precede-nos em 20/40 anos, pois a grande força da emigração italiana ocorreu nos anos 1920, 1930. Os italianos concentraram-se muito e resistiram mais facilmente à assimilação que lhes era imposta. Mas estão muito mais implantados do que nós porque são em número incomparavelmente maior e o grosso da sua emigração precede-nos em quase duas gerações.

A nossa fragilidade advém em parte do facto de estarmos divididos entre a Califórnia e a costa leste americana, a seis horas de avião e três fusos horários uma da outra. Os italianos não; concentraram-se antes em grandes cidades, como Boston, Chicago e Nova Iorque. Os gregos, por exemplo, são cinco vezes mais que nós. Eles também se concentraram em Chicago e Nova Iorque. Na Califórnia haverá cerca de 400 mil portugueses, mas ainda por cima estão muito dispersos em localidades no interior. No Congresso em Washington estão quatro luso-americanos (anteriormente tinham conseguido eleger outro), mas alguns nem foram eleitos por constituintes luso-americanos. Só em Rhode Island  é que por serem 100 mil num estado de apenas um milhão, a sua força política colectiva se faz sentir mais claramente. Em Massachusetts, e mesmo em Rhode Island, os portugueses vivem em cidades mais pequenas. As comunidades étnicas têm mais peso quando concentradas e em torno dos grandes centros. Somos por isso ainda uma "minoria invisível", como disse a antropóloga luso-americana Esthelie Smith, an invisible minority. Isso torna difícil a eleição de alguém nosso. Dispersos, nunca temos pessoas suficientes para eleger candidatos. Em Massachusetts não temos um senador federal português. Em Rhode Island também não temos; só locais.

 

OEm - Se não tivesse havido a erupção dos Capelinhos, provavelmente não havia emigração açoriana?

OTA – Bom, a legislação americana acabaria por mudar, mais ano menos ano. Os tempos eram outros e havia um sentimento generalizado contra a legislação racista, alimentado sobretudo pelos cubanos, uma classe média e média-alta com grande poder económico e que depressa se implantou construindo um poderoso bloco político no cenário americano. Claro que essa alteração na legislação acabaria por nos afectar, pois havia inúmeros açorianos com familiares nos EUA.

OEm - Em termos de quotas de minorias no governo americano, os portugueses têm algum benefício?

OTA – Os portugueses não quiseram ser minoria porque para eles isso significava ser "negro" ou "hispânico". Os portugueses reagiram contra as poucas tentativas que surgiram de se obter esse estatuto para o nosso grupo étnico. Quando o estatuto de minoria começou a ser concedido às diversas comunidades étnicas, as comunidades hispânicas eram todas latino-americanas e já não havia muita imigração europeia. Os hispânicos eram Hispanic, não Spanish (de Espanha), mas da América Latina.Nem os brasileiros (que aliás eram muito poucos na altura) quiseram ser classificados como minoria porque não queriam ser considerados latino-americanos. Esta é uma história muito longa e complexa que não dá para resumir sequer aqui. Portanto, nós não somos uma minoria em termos jurídicos e acarretamos com as desvantagens disso. Os filhos de outros emigrantes têm bolsas especiais e os nossos não. Por exemplo, o filho de um mexicano ou colombiano rico consegue uma bolsa por ser hispânico (preenche números que as quotas exigem) e o filho de um pobre do Brasil ou de Portugal não tem porque a definição de "hispânico" não engloba os emigrantes dos países lusófonos. Por sinal eu até fiz questão de que fôssemos minoria naquela altura (início da década de 70) pois isso beneficiaria os filhos dos nossos emigrantes, mas a maioria não quis porque, como disse, isso significava ser-se "hispânico" ou "negro". O brio português levou os nossos a argumentar que trabalhavam sem precisar dos favores do governo. Algo estranho, porque em Portugal a atitude generalizada dos portugueses vai na direcção contrária.

 

OEm - Estava-nos a dizer que a emigração é recente, retomou nos anos 60. Agora como é que está?

OTA – Já não há emigração para a América e eu até aconselho os poucos que ainda pretendem emigrar a não o fazerem. Os Estados Unidos abarrotavam de fábricas e os portugueses chegavam quase sempre com postos de trabalho já assegurados por amigos e familiares. Começavam a trabalhar logo no dia seguinte. Agora esses empregos já quase não existem. As fábricas "emigraram" primeiro para o sul dos EUA, depois para a América Latina, a seguir para a China, Singapura e Coreia do Sul. Naquele tempo, os emigrantes que iam para os Estados Unidos estavam dispostos a trabalhar duro, a aceitar tudo. Os poucos emigrantes que vão agora já não aguentam a dureza do regime de trabalho, como acontecia com os emigrantes daquele tempo. Habituados aos benefícios resultantes da nossa entrada na Europa, ninguém está mais disposto a esse tipo de emigração. Além disso, os EUA preferem cada vez mais mão-de-obra qualificada em áreas especializadas. Assim, aos novos emigrantes resta-lhes a hipótese de ir trabalhar para os MacDonald's e os Burger Kings, onde vão ganhar salários de miséria. Torna-se-lhes impossível montar uma casa e sustentar uma família com os salários aí usufruídos.

No entanto, hoje está a acontecer uma outra emigração que é a de jovens universitários que vão estudar para os EUA, alguns já com mestrados e que vão lá fazer doutoramentos mas depois acabam por ficar porque se apercebem de que, se vierem para Portugal, dificilmente encontram empregos à altura das suas habilitações. É uma emigração completamente diferente e, excepto no caso de Boston, não se concentra nas áreas portuguesas tradicionais, mas nas outras grandes zonas de investigação científica em torno de universidades ou de grandes centros tecnológicos.

 

OEm - E nesse caso, continentais ou açorianos?

OTA – Muito mais continentais. Vão com bolsas de investigação daqui, da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, da Gulbenkian, da FLAD. Vão atraídos pelas grandes universidades, e depois fixam-se por áreas onde há parques industriais e grandes sinergias entre as cidades e companhias locais: Boston, New York, Carolina do Norte, Seattle, Silicon Valley na Califórnia, Los Angeles, etc. Não se inserem nas comunidades portuguesas. Estão organizados numa associação chamada PAPS, Portuguese-American Post-Graduate Society, tudo gente que fez pós-graduação nos EUA. Encontram-se num congresso anual e têm grupos regionais que promovem encontros, por vezes apenas de carácter social, para matarem saudades dos convívios com outros portugueses. São as mesmas necessidades psicológicas dos emigrantes, só que a outro nível. Muitos, os mais bem sucedidos, depois ficam a trabalhar em companhias americanas, o que aconteceu aliás já com outros grupos étnicos, como os gregos - nós começámos foi muito mais tarde. Os outros países obrigavam os seus bolseiros que se formavam no estrangeiro a voltar pelo menos por um período (no caso da Grécia, dois anos). Portugal não obriga porque não pode absorvê-los, uma política que se baseia na ideia seguinte: se ficarem por lá inseridos, isso acaba por ser um benefício também para Portugal pois podem estabelecer com o país toda a espécie de contactos profissionais. Mas não deixa de ser um brain drain a empobrecer o país e a beneficiar os EUA. Estamos pois em presença de uma completamente nova vaga de emigração. Para ela, sim, há futuro. Para o nosso emigrante tradicional, não. Tanto no caso dele como no de outros emigrantes em condições semelhantes. A situação actual serve apenas para deserdados dos países muito pobres que nos EUA, por pior que seja a vida que nos EUA encontrem, acharão quase sempre algo melhor do que a miséria em que vivem.

 

OEm - Os que vão agora são mais homens, mulheres, ou é semelhante?

OTA – Nos qualificados é semelhante, creio eu.

 

OEm - E vão de algumas áreas mais específicas?

OTA – Sobretudo das ciências, medicina, engenharia, informática. Vão menos - pouquíssimos, aliás - das áreas das humanidades, até porque a maior parte das bolsas são atribuídas nas áreas das ciências.

 

OEm - Sente que houve retorno dos emigrantes portugueses para Portugal?

OTA – Não, pouca gente. Houve uma altura em que as pessoas estavam deveras fascinadas com Portugal. Vivia-se muito bem e muitos emigrantes achavam que era altura de voltar. Isto, no final dos anos 1990, e sobretudo no grande período da euforia portuguesa entre a Expo 98 e o Campeonato da Europa de 2004. Sempre achei que aquilo não podia durar muito tempo, pois não ocorrera qualquer significativo aumento de produção (nem tinham descoberto nenhum poço de petróleo). Mas os filhos dos emigrantes ficavam fascinados. Vinham no Verão e iam para as discotecas até de madrugada com amigos, tinham descoberto o paraíso. Em tanto bem-estar, porém, teria de haver muito de fictício. Regressavam aos EUA ou ao Canadá com uma visão idílica de Portugal e houve muitos que sonharam com o regresso (ou a emigração para a terra dos pais). Claro que sempre houve emigrantes que regressaram e que muitos, sobretudo homens, toda a vida pensaram nisso. Aqui abre-se mesmo uma clivagem: as mulheres é que dominam no agregado familiar, mas ficam presas aos filhos e netos que estão nos Estados Unidos e os maridos é que sonham com um regresso. Alguns vêm porque querem estar com os amigos. Entretanto, quando chegam, não reencontram o mundo que deixaram. Não existe mais a vida de antigamente e é uma desilusão. Alguns venderam tudo antes de regressar. Há uns que vêm por pouco tempo, à experiência. Outros há que ouvem das suas mulheres o aviso: Podes ir, mas ficas lá sozinho. Há os que se atrevem, mas não poucos se arrependem algum tempo mais tarde. Sentem saudades do ambiente dos clubes "portugueses" (luso-americanos ou luso-canadianos) que na diáspora recriaram Portugal e onde refizeram a sua vida. Por tudo isto, não vejo sinais de retorno significativo. Quem se adaptou melhor à América foram as mulheres porque se libertaram imenso, começaram a usar o carro e, por necessidade, aprenderam inglês. Os homens habituaram-se a recuar para não se sentirem embaraçados, não se esforçaram por aprender a língua e, ao fim de alguns anos, são as mulheres que possuem os conhecimentos linguísticos e culturais suficientes para se desembaraçarem. Quando regressam a Portugal ou vêm de férias, há mulheres que, se vão para a sua terra natal, se sentem amarradas. Nos EUA gozam de uma liberdade e de um poder que aqui não encontram. Não há nenhum estudo sobre isso, mas recomendo vivamente que alguém se ocupe desta problemática numa tese. Tem aí uma mina.

 

OEm - Isso é muito interessante...

OTA – Se forem entrevistar as mulheres, descobrirão que elas se sentem perfeitamente integradas. Adaptaram-se, aprenderam o inglês por necessidade, começaram a conduzir, foram tratando das lidas da vida, dos assuntos burocráticos e ganharam uma independência que difere da experiência que tinham em Portugal e que lhes dá um grande sentido de autonomia. Para mais, nos Estados Unidos têm os filhos, os netos e esse é o seu mundo. Quando o homem já tem 60 anos não tem qualquer hipótese de decisão nesse plano.

Acho que isto daria material para uma tese bem interessante.

 

OEm - Como se chama o seu livro que vai sair em breve?

OTA –  O peso do hífen. Ensaios sobre a experiência luso-americana. Vai sair na Imprensa das Ciências Sociais, do Instituto de Ciências Sociais, da Universidade de Lisboa, agora em Setembro. É uma colectânea do principal dos meus ensaios nessa área nos últimos 25 anos.

 

OEm - O hífen remete mesmo para a ligação entre as duas identidades...

OTA – Abre com uma ilustração: dois quadros de açorianos - um intitulado Os Emigrantes, do micaelense Domingos Rebelo. Capta uma família emigrante açoriana nas portas da cidade de Ponta Delgada, antes de embarcar para os EUA. É um quadro clássico de 1927, que quase todos os açorianos conhecem. O outro é do pintor açoriano Tomaz Vieira. Intitula-se Os Regressantes, e ele pinta exactamente a mesma cena no mesmo cenário, mas décadas depois e com emigrantes regressados. São outras as cores, a indumentária, os objectos que ostentam (por exemplo, em vez de um quadro com a imagem do Santo Cristo, trazem agora um com a CN Tower, de Toronto). Em diálogo, os dois quadros captam profundamente a questão da hifenação cultural, o tema central do livro.

 

OEm - Portanto, o livro está mesmo para sair...

OTA – São 350 páginas, cobrindo desde a mitologia da suposta descoberta da América pelos portugueses até à literatura luso-americana, à americanização de nomes portugueses, ao famigerado caso do Big Dan's e outros temas.

 

OEm - Um dos capítulos é mesmo sobre a americanização dos nomes portugueses?

OTA – Há lá um subcapítulo sobre isso. Fui juntando uma lista ao longo dos anos, por exemplo, "Ferreira" deu Smith, "Machado" deu Marshall. Quem iria imaginar que Marshall poderia vir de "Machado"...

 

OEm - Foram os pais que deram esses nomes aos filhos?

OTA – Varia imenso. Às vezes, à chegada de um barco, o funcionário traduzia, pois tinha um livro já com a lista das correspondências em inglês de nomes estrangeiros. Noutros casos, fazia apenas a transcrição fonética. Outras vezes, eram os pais que faziam a tradução ou arranjavam nomes americanos a seu gosto. É uma lista enorme e por isso há muita gente lusa que está perdida no meio americano porque, com os nomes assim alterados, não é fácil descortinar-se quem era português. Por exemplo "Lobo" deu Wolf e há um célebre Joaquim que deu Joe King e, no Canadá, existe o último nome Desa, que era "de Sá".

 

Como citar  Pinho, Filipa (2010), "As regiões de implantação histórica dos açorianos nos EUA. Entrevista a Onésimo Teotónio Almeida", Observatório da Emigração, 13 de Maio de 2010. http://www.observatorioemigracao.pt/np4/4705.html

 

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