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A diversidade de percursos entre os portugueses em Moçambique
Entrevista com Nuno Domingos
Nuno Domingos é licenciado em sociologia e mestre em sociologia histórica pela Universidade Nova, e doutorado em antropologia pelo SOAS, Escola de Estudos Africanos e Orientais, Reino Unido. Tem como interesse de investigação as relações entre o futebol e as migrações, entre outros. Actualmente é investigador do Instituto de Ciências Sociais e docente do mestrado de Migrações e Transnacionalismo na Universidade Nova. +

Entrevista realizada em Lisboa, 30 de Setembro de 2010, por Cláudia Pereira. 

 

Observatório da Emigração (à frente OEm) - Poderia começar por nos dizer quando é que começou a estudar a imigração portuguesa em Moçambique...

Nuno Domingos (à frente ND) – O estudo dos portugueses em Moçambique parte da minha tese de doutoramento, que é sobre o período colonial, cujo título em inglês é Football in Colonial Lourenço Marques: Bodily Practices and Social Rituals. É uma tese sobre a questão colonial portuguesa, sobretudo as últimas décadas até 1974. É sobretudo uma tese sobre o desporto e as práticas corporais, particularmente o futebol, como objectos de investigação. A partir daí, juntando este interesse ao do Diasbola, estudei os emigrantes portugueses em Moçambique e, embora o estudo do meu doutoramento fosse confinado à parte colonial, há um conjunto de modificações deste período que acabam por ficar no período após a independência. Portanto, há uma herança do período colonial que é importante para estudar a comunidade portuguesa de Maputo, que é hoje bastante pequena. O percurso foi, através do desporto, chegar aos emigrantes portugueses.

 

OEm - E o seu próprio percurso? Começou em sociologia, fez o mestrado em sociologia histórica e o doutoramento em antropologia, o que provavelmente lhe deu ferramentas para analisar o trabalho de campo e a realidade histórica de forma bastante ampla...

ND – Sim, acho que tive essa sorte, embora às vezes esta diversidade temática não seja totalmente bem vista, mas do ponto de vista da forma como aplicamos um conjunto de instrumentos à investigação acaba por ser muito rica. De facto, ter uma base sociológica muito ligada à história juntamente com os instrumentos que a antropologia nos dá, sobretudo neste caso com as metodologias mais qualitativas, pela proximidade às pessoas que estamos a investigar, acho que se torna bastante completo.

 

OEm - E Moçambique surgiu por algum motivo em particular?

ND – O trabalho sobre os portugueses em Moçambique é um reflexo do meu tema de doutoramento. Na altura, a escolha de Moçambique deveu-se ao facto de existir uma relação muito forte entre o desporto no tempo colonial e Moçambique, a questão do conjunto de atletas moçambicanos que depois vieram para a metrópole tornando-se figuras populares, para além de outras questões mais práticas como, por exemplo, o bom estado e boa organização dos arquivos de Moçambique. Instalei-me em Moçambique para consultar os arquivos e foi a partir daí que tive contacto com os portugueses que viviam lá. Apesar de o meu tema ser histórico, levantaram-se várias questões sobre a relação do futebol português com Moçambique no quotidiano, que depois se relacionaram com o tema do projecto Diasbola, sobre o futebol. Eu tinha escrito antes um artigo para o Caderno de Estudos Africanos, num número da revista dedicado às memórias coloniais. A partir daí comecei a pensar não apenas na questão colonial, mas no modo como determinado tipo de identificações contemporâneas vêm ainda do tempo colonial. O futebol dos clubes portugueses é uma presença ainda hoje bastante forte em Moçambique e não é preciso uma investigação muito profunda para perceber que também é forte em Cabo Verde, em Angola. O porquê de se manterem estas identificações foi o que me levou a contactar mais com a questão contemporânea dos portugueses em Maputo.

 

OEm - Eram portugueses que tinham nascido em Moçambique, ou os pais tinham nascido lá...?

ND – Digamos que isso é importante pelo modo como podemos definir uma comunidade, o próprio conceito de comunidade.

 

OEm - Os portugueses lá identificam-se como uma comunidade?

ND – Estamos a falar de uma comunidade muito dispersa. São em parte pessoas que ficaram do tempo colonial, tinham nascido lá e os pais vieram de Portugal para lá ou eles próprios tinham ido de Portugal para lá. Segundo a lei moçambicana, estas pessoas deviam ter optado por uma nacionalidade, mas sabemos que muitas vezes a lei não funciona e eles acabam por ter dupla nacionalidade. Estamos também a falar de pessoas que são os filhos destas primeiras pessoas, nasceram lá, mas têm nacionalidade portuguesa porque os próprios pais são portugueses. Há também uma parte da população de origem indiana que provavelmente nunca veio a Portugal mas que tem nacionalidade portuguesa e que também está lá. Estamos a falar igualmente de uma emigração mais recente, com 10 ou 15 anos, e que tem aumentado bastante nos últimos tempos, que respondeu a novas oportunidades profissionais. Primeiro vão por períodos curtos de tempo de três ou quatro anos, outras vezes ficam mais. Destes últimos, muitos deles estão a trabalhar no sistema bancário, em seguradoras, são técnicos de actividades bastante específicas. Alguns trabalham em ONG, outros são professores, há uma grande diversidade de profissionais. Há também pessoas que têm problemas com a lei em Portugal e vão para Moçambique, muitas delas em negócios difíceis. Portanto, há uma grande diversidade de situações, o que é interessante para desafiar a ideia de comunidade. Por exemplo, como podemos falar de comunidade quando muitos indivíduos de origem indiana nunca foram a Portugal, mas têm nacionalidade portuguesa? É interessante que muitos destes portugueses não têm os mesmos circuitos na cidade, fazem coisas diferentes, pessoas com diversas experiências de vida. Por exemplo, alguns vieram há pouco tempo, estão em negócios que não funcionam e estão a tentar ter sucesso, e não se reconhecem nos que estão lá desde o período colonial, não se encontram (ou encontram-se apenas casualmente). Uma das características mais interessantes é que há poucos rituais colectivos nacionais no quotidiano dos portugueses em Moçambique, o que é muito diferente do que encontramos entre outros tipos de emigrantes, sobretudo na emigração que considerarmos ter um padrão mais tradicional, como por exemplo os que foram para França.

 

OEm - Porque é que acha que há poucos rituais colectivos entre os portugueses de Moçambique, como por exemplo as associações de portugueses?

ND – Esse aspecto foi dos que mais me interessou. Há pouquíssimas associações. Comemora-se o dia de Portugal, mas é muito mais uma imposição da embaixada e do consulado. Há também o Natal, mas é uma festa tão global que não se pode dizer que é portuguesa. Estamos também a falar de uma comunidade relativamente pequena, principalmente em Maputo, é muito difícil contabilizar porque há pessoas que não se inscrevem no consulado. Os números divergem bastante, aliás, o vosso Observatório apresenta esses números, e é realmente complicado perceber a dimensão. Nesse aspecto é uma comunidade bastante diversa. E porquê? Por um lado, essa diversidade espartilha e fragmenta a ideia de comunidade porque as pessoas têm hábitos diferentes. Por outro lado, a sua inscrição social é muito diferente daquela emigração tradicional que vemos noutros países, indivíduos com posições baixas na estrutura social, em especial na restauração, limpezas e construção civil, e que estabelecem associações e fazem uma vida muito mais comunitária, o que expressa os hábitos de determinados grupos sociais com poucos recursos, que têm também uma maior necessidade de sociabilizar e de saberem que aquele sítio é onde podem arranjar emprego, ou casa, etc. Toda essa lógica de criação de laços encontra-se muito pouco em Moçambique. Trata-se de um país muito pobre, com desigualdades sociais gritantes. Muitos dos portugueses, neste contexto, estão bem instalados profissionalmente, têm uma vida de classe média bastante mais individualizada, relacionam-se não apenas com os portugueses que têm uma vida equivalente, mas também com moçambicanos da classe média, com italianos e com outros estrangeiros que pertencem ao mesmo estrato social e trabalham nas mesmas empresas. Tanto os portugueses do período colonial, como os que foram mais recentemente, são bastante qualificados, salvo raras excepções. Neste contexto mais individualizado é mais raro assistir-se aos rituais colectivos que são característicos do outro tipo de emigração portuguesa. Sabemos que esses rituais colectivos num contexto de emigração mais tradicional, nas segundas e terceiras gerações, vão desaparecendo aos poucos, porque depois as pessoas começam a integrar-se nas vidas locais e quebra-se muito essa dimensão colectiva. Eu e o Nuno Barbosa - que trabalhou comigo nesta parte da investigação -, na altura dos campeonatos de futebol da Europa e do Mundo, momentos em que supostamente por todo o lado havia uma dinâmica colectiva, vimos muito pouco dessa dinâmica entre os portugueses em Moçambique. Havia umas pessoas nuns restaurantes, mas genericamente as pessoas encontravam-se em casa, recebendo os amigos na sala. Estudar o futebol nestes contextos ex-coloniais torna-se muito interessante porque, enquanto na Alemanha, na França ou na Suíça quem está a apoiar a equipa de Portugal são apenas os portugueses. No caso moçambicano não é totalmente assim. Como há uma relação de Portugal com os países que eram ex-colónias existe uma ambiguidade em termos da identificação da população local com a selecção nacional portuguesa. O contraste que existe noutros contexto esbate-se, ou seja, o futebol. Muitos moçambicanos apoiavam a equipa portuguesa. Há que fazer uma distinção importante, no entanto, entre a selecção e os clubes de futebol. A selecção nacional representa de forma mais evidente o país ex-colonizador, quando comparada com os clubes de futebol portugueses. Neste caso, não há nenhuma ambiguidade, os moçambicanos realmente gostam muito dos clubes de futebol portugueses. A selecção goza de maior ambiguidade precisamente porque tem uma relação muito mais directa com o colonizador, com um passado e uma narrativa que os próprios moçambicanos aprenderam através dos próprios conhecimentos históricos, e onde os portugueses não são propriamente os "bons da fita". Agora, os clubes de futebol são grandemente insensíveis a isso, e este é dos aspectos mais interessantes, os clubes não são afectados por essa conotação negativa relativamente ao passado colonizador. Genericamente, podemos estar a falar de moçambicanos que gostam dos clubes portugueses e que até são relativamente ignorantes em relação à história ou que, conhecendo a história, não estabelecem a relação. Embora haja, sobretudo em pequenos fóruns intelectuais de Moçambique, algumas discussões sobre as reacções às vitórias de clubes como o Benfica. As caravanas a passar na cidade são para alguns moçambicanos manifestações inaceitáveis. Os portugueses que vivem em Moçambique, por pertencerem a grupos de estatuto social diferente, mais elevado, tendem a não participar em algumas manifestações exteriores. Vêem-se muito mais moçambicanos a comemorar do que propriamente portugueses.

 

OEm - Portanto, o seu interesse por Moçambique começou com o doutoramento?

ND – Sim, quando saí de Portugal para fazer o doutoramento na Escola de Estudos Africanos e Orientais, SOAS, pensei em trabalhar as questões imperiais, porque continua a haver um interesse grande sobre o que foi o império português. Eu tinha trabalhado já sobre futebol, eu e o José Neves tínhamos coordenado em 2004 um livro chamado A Época do Futebol - O Jogo Visto pelas Ciências Sociais, uma oportunidade que tivemos a partir uma exposição de fotografia que decorreu na Cordoaria Nacional, organizada pelo Arquivo Fotográfico de Lisboa e comissariado por Paulo Catrica. Pode dizer-se que foi um casamento entre dois interesses: estudar o império e estudar o futebol. Em Inglaterra, por exemplo, há uma produção bastante significativa sobre a questão do desporto no período colonial, em França também há alguma. Em Portugal não havia nada. O objecto pareceu-me bastante interessante. A passagem para a antropologia levou-me às questões do corpo e da performance. Há uma história do desporto em África que os próprios ex-colonos portugueses conhecem mal, que é a de todo o desporto que se desenvolveu nas margens das grandes cidades, sobretudo em Luanda e Lourenço Marques. Falo sobretudo do futebol praticado pelos habitantes dos subúrbios destas cidades, onde se organizaram diversos campeonatos. Essa história, ainda por contar, interessou-me bastante. Também aqui houve um diálogo interessante com o poeta José Craveirinha, que escreveu muito sobre o desporto, algo aliás de que se fala pouco, fala-se muito mais da sua produção literária. O Craveirinha escreveu bastante nas páginas de jornais sobre desporto, ele tinha um interesse quase proto-antropológico em estudar os rituais associados ao futebol, as questões da feitiçaria aplicadas ao corpo, as questões da própria forma de jogar. É muito a partir de algumas coisas que ele escreveu que eu procurei realizar uma antropologia histórica sobre os modos de jogar. Queria também perceber, por outro lado, o modo como estas identificações dos moçambicanos com os clubes portugueses surgiram, como parte de uma cultura urbana, compreender, por exemplo, como o sentimento por um clube como o Benfica permaneceu. Muitos dos clubes africanos tinham nomes de clubes portugueses, como o Benfica, o Sporting, o Belenenses. Depois da independência, pelo menos em Moçambique, foram obrigados a mudar de nome para limpar as referências ao antigo colonizador. Ainda assim, esses laços mantiveram-se com o tempo. Na minha opinião, tal não deve ser interpretado como uma nostalgia colonial. Pelo contrário deve ser analisado como parte do processo de formação de uma cultura urbana, de rituais sociais urbanos que se desenvolveram à volta do próprio jogo, que se mantiveram e que realmente têm como base organizacional esta identificação com os clubes portugueses. Há uma certa separação entre estes clubes e o colonialismo, como se as propriedades negativas aplicadas ao colonialismo não fossem necessariamente aplicadas a estes clubes. É um pouco por isso que se mantêm ainda hoje esses laços.

 

OEm - É docente no mestrado de migrações da Universidade Nova...?

ND – Sim, foi um convite da Professora Margarida Marques. O mestrado terá quase dez anos, é um mestrado de migrações e transnacionalismo, interdisciplinar, e que parte de uma relação do departamento de antropologia, de sociologia e de ciências musicais, neste último caso a partir da etnomusicologia. Tenho participado com mais dois colegas, o Miguel Jerónimo e o Nuno Dias em cadeiras de pendor mais histórico, relacionando as migrações com o passado colonial português. Uma das cadeiras chama-se "Da escravatura à globalização", e pretende estudar processos no tempo longo, como as questões relacionadas com a questão trabalho, que se mantêm no tempo e não são redutíveis a um tempo exacto. As migrações, independentemente das diferentes perspectivas, têm sempre um relação próxima como a organização do sistema produtivo. A outra cadeira chama-se "Nacionalismo e racismo em Portugal no século XX": a questão colonial. Procura também fazer a ligação entre a época colonial e algumas situações contemporâneas, sobretudo os processos de racialização. Este lastro histórico pretende dar um conjunto de instrumentos de leitura mais abrangentes aos alunos para estudar as questões contemporâneas.

 

OEm - Por curiosidade, surgiram mais pessoas a estudar a emigração portuguesa em Moçambique?

ND – Que saiba muito pouco. Há o trabalho de Elizabeth Matos sobretudo baseado num conjunto de entrevistas. Ela parte das representações que os portugueses e moçambicanos têm uns dos outros, e algumas destas representações persistem desde o tempo colonial. É evidente que o português continua a ser representado como o antigo colonizador, como alguém que é branco, e ser branco tem um valor simbólico ainda hoje. Há uma produção de significados relacionados com a questão do fenótipo e que tem importância no quotidiano, basta ver as relações que se estabelecem com os portugueses quando vão a um café ou a uma repartição, por exemplo.

 

OEm - Sentiu isso em si mesmo?

ND – Sim, completamente.

 

OEm - Pode falar um pouco sobre isso?

ND – Ser branco concede um poder, algo que permanece e que por vezes é bastante desagradável. Esse poder atribui uma força que não quero ter. Isso às vezes nota-se um na própria interacção. Elizabeth Matos refere que para muitos moçambicanos, os portugueses são ainda vistos como sobranceiros o que, muitas vezes, isso corresponde à realidade. Os portugueses mantêm hábitos que muitas vezes não têm apenas a ver com a questão fenotípica, mas com as diferenças de classe que são brutais. Essas diferenças são transpostas para o quotidiano não envolvendo apenas portugueses e moçambicanos, mas também presente nas relações entre as elites moçambicanas e a população. Tem muito a ver com o contexto. É um país com um historial absolutamente desigual. Fazendo os portugueses quase sempre parte de uma elite, muitas vezes reproduzem este comportamento e isso sente-se nas representações. Há também a tendência para um certo isolamento dos próprios portugueses, sobretudo de classe, que separa uma certa elite, a que os portugueses pertencem, mas que também inclui outras nacionalidades. Por exemplo, praticamente não andam nos transportes "públicos", nos chamados "chapas", andam pouco a pé e sobretudo confinam-se a determinado tipo de zonas, a uma zona privilegiada da cidade, fazem as compras em determinados tipos de supermercados... não compram nos mercados de rua... Claro que estou a generalizar e há pessoas que não correspondem a este padrão, mas em termos gerais será isto o que se passa. Digamos que há um conjunto de práticas que realmente isolam uma comunidade que não é apenas nacional, mas é um conjunto de nacionalidades que fazem parte de um estrato privilegiado da sociedade local.

 

OEm - Já salientou várias características dos portugueses em Moçambique. Há mais alguma que queira destacar?

ND – É mesmo o facto de os portugueses serem tão diversos em Moçambique, na sua história, na sua origem, no seu percurso, que é muito difícil falar de uma comunidade ou algo que represente os portugueses na totalidade. O melhor denominador comum será o facto de, num contexto de grande pobreza, pertencerem a estratos sociais mais elevados e, portanto, terem práticas que correspondem aos hábitos dessas classes. São realmente muito diferentes entre si e são poucos, mas simbolicamente importantes em termos de representação.

 

OEm - A seguir a 1974 como foi a emigração portuguesa para Moçambique?

ND – Não me recordo exactamente dos anos, mas a seguir ao processo de descolonização há um período longo em que o movimento estanca. O regresso de portugueses a Moçambique é algo muito mais recente, sobretudo depois do final da guerra civil em 1992. Este aumento deveu-se também à alteração de algumas leis sobre o investimento externo, que facilitaram o investimento de capitais dos portugueses em Moçambique, a partir de meados dos anos 1990. Há pessoas que voltam também por uma questão de nostalgia, pessoas que voltaram para os negócios que tinham. As motivações são muito diversas. Há também um investimento de bancos, de empresas portuguesas que, quase sempre, recrutam em Portugal pessoas que vão para lá, como no sector da construção civil. Algumas pessoas são atraídas por ordenados que, comparativamente, são superiores aos que ganhariam por cá. Há ainda portugueses que vão devido a problemas legais que têm em Portugal. São uma emigração completamente diferente e são pessoas que não vão inscrever-se aos consulados. Apesar de poucos, é realmente difícil contabilizar os portugueses em Moçambique.

 

OEm - Há mais alguma coisa que queira acrescentar?

ND – Acho a questão do interesse da população local pelos clubes de futebol portugueses em Moçambique muito interessante e cheia de armadilhas. As pessoas que contestam esta situação, um ou dois intelectuais, dizem precisamente que se trata de algo neo-colonial. Eu acho que não se deve interpretar dessa forma. É preciso ir um pouco mais longe e perceber as verdadeiras funções e os usos que as pessoas fazem destas identificações no seu quotidiano e aí percebemos que tem muito pouco a ver com a história política, e mais com rituais que passam de família: o pai já era do clube, as escolas também ajudam.... É interessante, e digo isso no artigo que escrevi, a toponímia ter mudado toda a seguir à independência, tudo o que eram referências a heróis da giesta colonial portuguesa foi substituído. Ainda hoje na cidade de Maputo temos ruas chamadas Karl Marx, Vladimir Lenine, vemos que há uma nomenclatura que tem muito a ver com o passado socialista e se mantém, e uma das poucas alterações que não deu resultado foi precisamente um bairro suburbano chamado Benfica que foi rebaptizado de George Dimitrov, que era um grande teórico do marxismo-leninismo, e que as pessoas não aderiram. O nome oficial é este, mas nos chamados "chapas", o bairro é identificado como Benfica Poderia chamar-se assim por alguém ter ido da zona de Benfica, de Lisboa, mas eu investiguei e chama-se Benfica porque havia um comerciante português que era fanático pelo Benfica e, com o tempo, toda a gente começou a chamar Benfica ao bairro onde ele vivia, o que ainda permanece. Por alguma razão os jornais desportivos portugueses, como a Bola, o Record, são os que mais circulam nestes sítios, às vezes chegam muito atrasados e ainda assim são lidos. As pessoas lá têm um conhecimento sobre os clubes de futebol portugueses que não têm sobre Portugal, sabem pouco sobre o Portugal de hoje, não sabem quem é o Sócrates mas sabem quem é o treinador do Benfica e que jogador está lesionado, por exemplo. Evidentemente que a elite moçambicana tem conhecimentos mais abrangentes, mas estas identificações chegam a outros estratos da população, a uma população mais pobre, urbana e suburbana, sobretudo masculina

 

OEm - E quando a selecção portuguesa joga em campeonatos do mundo?

ND – Acho que isso merecia um estudo por si. Do que vi, é muito ambíguo: há pessoas que apoiam Portugal, mas a ideia de africanidade e negritude nos campeonatos do mundo é muito forte, a própria imprensa apoia muito as equipas africanas. Há um apoio muito maior ao Brasil, partilham a língua e são selecções muito mais mestiças, e jogam um tipo de futebol muito apreciado. Portanto, é uma relação muito mais ambígua, apesar de haver muitas pessoas que apoiam Portugal. Mas o que é unânime no caso dos clubes deixa de o ser no caso da selecção. Há muito a ideia de que a Europa é beneficiada pelos árbitros e que estes prejudicam os africanos, que é no fundo o modo como se olha para os antigos colonizadores. Depois também gostam dos sul-americanos porque também foram colonizados como eles, não são europeus, e há uma série de representações que são interessantes.

 

OEm - Para concluir, pode dizer-se que há muita heterogeneidade entre os portugueses em Moçambique.

ND – Sim. Eu também trabalhei sobre os portugueses em Londres, mas ainda não tive tempo de publicar sobre o tema. Em Londres conseguimos encontrar portugueses em áreas como Stockwell e Brixton. Existem cafés portugueses, associações. Depois há outros portugueses que vão estudar, que têm empregos mais qualificados, o que complexifica muito mais a noção de comunidade portuguesa. Estamos a falar de universos diferentes, mas será que faz sentido colocar todos eles na mesma comunidade por serem portugueses? Eu tenho imensas dúvidas, o termo "comunidade portuguesa" pode ser utilizado de forma abusiva, muitas vezes as práticas têm muito pouco a ver com as questões de nacionalidade e muito mais a ver com outro tipo de lógicas. Até porque o termo "comunidade portuguesa" foi institucionalizado com por instituições estatais como a Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas. Este termo também está associado a uma ideia de cultura que é mais uma imagem promovida pelo Estado, pelos meios de comunicação social. Claro que a geração mais nova prefere falar sobre o futebol com os colegas na escola do que sobre os traços que identificam de forma mais evidente uma ideia de cultura, como o folclore por exemplo.

 

Como citar  Pereira, Cláudia (2010), "A diversidade de percursos entre os portugueses em MoçambiqueEntrevista a Nuno Domingos", Observatório da Emigração, 30 de Setembro de 2010. http://www.observatorioemigracao.pt/np4/4702.html

 

 

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