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Mobilidade internacional dos investigadores portugueses
Entrevista com Ana Delicado
Doutorada em sociologia pela Universidade de Lisboa, Ana Delicado realizou o pós-doutoramento sobre a mobilidade dos investigadores portugueses. Desde 2009 é investigadora auxiliar no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. +

Entrevista realizada em Lisboa, 12 de Setembro de 2014, por Cláudia Pereira. 

 

Observatório da Emigração (à frente OEm) - A Ana Delicado tem-se especializado na análise social da ciência e penso que esse campo a levou a interessar-se pelos investigadores portugueses que vão trabalhar para o estrangeiro, será que podia explicar?

Ana Delicado (à frente AD): A minha vida profissional começou no Observatório das Ciências e Tecnologias, em 1997, o qual estava na dependência do Ministério da Ciência e Tecnologia e foi criado um ano antes, em 1996. Nessa altura estava a fazer o mestrado no Instituto de Ciências Sociais (ICS) e o facto de ter começado a trabalhar no Observatório das Ciências e Tecnologias levou-me a olhar para uma área que me apaixonou: a questão da ciência em Portugal. Nós fazíamos um trabalho essencialmente estatístico mas também de análise das diferentes medidas que estavam a ser tomadas e, de certa forma, dos resultados que estavam a ter sobre o sistema científico. Trabalhei lá durante três anos e meio, foi aí, de facto, que começou o meu interesse pela análise da ciência. Na altura a primeira expressão que esse interesse teve foi na escolha do meu tema de doutoramento, a divulgação científica e os museus de ciência. Quando defendi a tese em 2006, precisava de um tema de pós-doutoramento. Nós trabalhávamos muito com dados sobre os investigadores e sobre a formação deles, como os doutoramentos no estrangeiro. Ou seja, desde a altura do Observatório das Ciências e Tecnologias que a questão dos investigadores e o paradeiro deles me interessava. E, por isso, quando reparei que em Portugal não havia nenhum trabalho sobre mobilidade internacional dos investigadores, quando o discurso era sempre que a mobilidade é positiva e importante...

 

OEm - Esse discurso da valorização da mobilidade internacional dos investigadores era o que lia na literatura?

AD - Sim, na altura era na literatura e sobretudo nas políticas. Por exemplo, já a nível europeu havia uma série de programas a incentivar a mobilidade de investigadores. No caso de Portugal, pelo menos numa primeira fase, os programas promoviam a mobilidade na formação de recursos humanos, estiveram muito virados para apoiar os investigadores que faziam os doutoramentos lá fora. Eu própria no século passado tive uma bolsa de doutoramento para o fazer no estrangeiro. Embora não tenha ido, era algo muito estimulado.

 

OEm - No final dos anos 1990 era muito estimulado fazer o doutoramento no estrangeiro...

AD - Sim, na altura não havia praticamente programas de doutoramento em Portugal. Quem fazia cá o doutoramento ou estava na carreira académica ou tinha uma grande proximidade com as universidades e pedia a alguém para ser orientador. A oferta formativa em Portugal era muito pequena e, portanto, a política transformou-se e isso notou-se no número das bolsas atribuídas pela FCT nos primeiros anos deste século, para patrocinar e financiar a formação dos investigadores no estrangeiro. Havia uma geração de cientistas promissores portugueses que tinham sido formados no estrangeiro. Enquanto estive a fazer o doutoramento houve uma mudança porque começaram a abrir os cursos de doutoramento em Portugal e isso reverteu-se um pouco. Eu tinha curiosidade em saber "os investigadores saem, mas depois voltam? Ou ficam lá fora?". Eu própria tenho muitos colegas de licenciatura que foram fazer a formação lá fora. Uns ficaram, outros voltaram. Nesta pesquisa interessavam-me estas dinâmicas e as motivações para saírem do país. Mas, sobretudo, numa perspetiva de programa dos estudos de ciência, qual é o efeito que a mobilidade tem na ciência que é produzida? Era aí que eu queria realmente chegar. Outro aspeto que concorreu para o meu interesse neste tema foi o facto de não ter bolsa quando acabei o doutoramento. Todavia, arranjei trabalho fora de Portugal no Institute for Prospective Technological Studies (IPTS), que faz parte do Joint Research Centre da Comissão Europeia. O Joint Research Centre tem uma dezena de institutos espalhados pela Europa e o IPTS trata das questões científicas, debruçando-se sobre as estatísticas de ciência, políticas de ciência e financiamento da ciência.

Uma das áreas em que estive a trabalhar neste Instituto foi, de facto, a mobilidade internacional dos investigadores porque a Comissão Europeia tem o discurso de que faltam cientistas na Europa. Eu sou, francamente, muito cética em relação a isso mas muito do trabalho que nós fazíamos era para tentar fornecer dados aos decisores políticos sobre esta questão do número de cientistas, da mobilidade e das transferências. Acabei por escrever alguns relatórios sobre este tema, mas não era um trabalho muito estimulante e voltei para o ICS, com a bolsa de pós-doutoramento, para investigar a mobilidade de investigadores, em 2007.

 

OEm - Tem um website sobre o projeto, "Mobilidade internacional dos investigadores portugueses", onde estão disponíveis os artigos científicos, os relatórios, bem como a divulgação que foi feita em artigos de jornal. Para o projeto aplicou um inquérito a 521 investigadores portugueses no estrangeiro...

AD - Essas foram as respostas que obtive, mas na verdade enviei o inquérito a cerca de 800 a 900 investigadores.

 

OEm - Teve uma margem de resposta bastante boa, responderam quase metade dos inquiridos: cerca de 200 doutorados e 320 doutorandos. Como é que "encontrou" tantos investigadores? Como é que divulgou o inquérito e conseguiu tantas respostas?

AD - No fundo fiz uma tentativa de recenseamento dos investigadores, em 2007. Na altura havia o Papa-formigas, um motor de busca de cientistas portugueses. O registo era voluntário e não era representativo de um universo em particular, mas muitos investigadores estavam a sair, sobretudo para fazer doutoramentos e registavam-se lá. Tentei recensear os investigadores portugueses no estrangeiro também a partir de contactos com as várias associações de investigadores portugueses no estrangeiro. Depois divulguei o inquérito através das minhas redes de colegas no estrangeiro e fiz pesquisas dos investigadores portugueses no Google, sobretudo nos departamentos das maiores universidades nos Estados Unidos, em França e noutros países. Claro que esta busca varia muito consoante o país e a capacidade e a transparência das instituições. Por exemplo, em Inglaterra todos os estudantes são contabilizados como membros dos departamentos e, por isso, foi muito fácil identificar os portugueses, tanto os que estavam no quadro como os estudantes.

 

OEm - Enviou os questionários diretamente para s investigadores?

AD - Sim. Não me lembro bem, mas acho que a Associação dos Bolseiros de Investigação Científica (ABIC) também me ajudou nesse processo e enviou para os sócios da ABIC que estavam no estrangeiro.

 

OEm - Os países de onde responderam mais investigadores ao seu inquérito são semelhantes àqueles onde há mais bolseiros financiados pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT): o Reino Unido e os EUA. Estes dois países são, de facto, um polo de atracão dos investigadores portugueses.

AD - É verdade, fazendo a comparação entre a minha amostra e as estatísticas das bolsas atribuídas pela FCT não há grandes desvios. Os Estados Unidos e a Inglaterra são realmente os grandes magnetos para onde vão os estudantes portugueses. Depois há uma outra questão: existe um número desconhecido de investigadores que vai sem bolsa da FCT ou que vai através de programas de bolsas de outras instituições ou que ainda consegue arranjar lá bolsas. Portanto, o próprio universo dos bolseiros da FCT não me interessava muito porque só representava os bolseiros da própria FCT, excluindo os que eram financiados por instituições estrangeiras. Também segui outras pistas, tais como as publicações, embora na altura as bases bibliográficas ainda estivessem pouco desenvolvidas. Pelo Web of Science hoje em dia é muito mais fácil encontrar os investigadores por país.

 

OEm - Nos seus artigos refere as razões para haver uma grande concentração de investigadores portugueses tanto nos Estados Unidos como no Reino Unido, pode explicar?

AD - Começa por ser uma questão de língua e de cultura, uma vez que as pessoas são muito expostas à cultura anglo-saxónica...

 

OEm - Quais foram os fatores de atração das universidades e o que levou os investigadores a partirem?

AD - O facto de não terem cá equipamento e de também não terem cá pessoas que os ensinassem. Não havia nem meios materiais, nem também meios humanos para os formarem e muitas pessoas escolheram estudar no estrangeiro. É o caso de quem quis ir estudar, por exemplo, a sociologia do consumo ou física quântica ou ainda biologia molecular nos países onde havia orientadores que os ensinassem e equipamentos para fazerem investigação.

 

OEm - O que é que os investigadores acharam que foi mais fácil e mais difícil para eles no estrangeiro, por comparação com o que viviam em Portugal?

AD - Muitos identificavam a comida e o clima como dificuldades... Outro obstáculo era o facto de as mulheres com filhos estarem em países onde não tinham já as redes de apoio familiares. Por outro lado, certas sociedades têm mais apoios institucionais para esse tipo de casos. Nessas situações não houve ninguém que eu tivesse entrevistado ou inquirido que dissesse que tinha sido mal acolhido ou discriminado por ser português ou que tivesse tido condições diferentes daquelas que esperava vir a ter. As experiências que a maior parte das pessoas me relataram, tanto no inquérito como nas entrevistas, foram largamente positivas.

 

OEm - Da tua investigação também fez parte perceber qual é o efeito da mobilidade dos investigadores na ciência. Por exemplo, em termos quantitativos, a mobilidade produz algum impacto no número de publicações científicas e coautorias?

AD - Eu estava mais interessada numa questão mais qualitativa. Numa perspetiva mais internalista dos estudos de ciência, como é que a ciência se transforma se é feita por investigadores que têm uma experiência internacional diferente? Há indicadores que são muito objetivos e fáceis de medir, como a questão do número de publicações e as publicações em coautoria.

 

OEm - Portanto os portugueses lá fora publicavam mais e tinham mais publicações em coautoria?

AD - Escreviam mais artigos até porque tinham mais facilidades devido à língua, o facto de serem formados, treinados e trabalharem em inglês facilita muito a redação dos artigos, bem como aprender com as pessoas que publicam, que é algo que em Portugal não acontecia muito. Agora é diferente, mas muitos dos investigadores em Portugal publicavam apenas nas revistas portuguesas. A internacionalização da ciência portuguesa ainda estava um bocadinho insipiente nos anos 1990.

 

OEm - A publicação de ciência é muito anglo-saxónica?

AD - É como se a ciência tivesse uma língua e, não tem, mas a ter é o inglês. Portanto, as revistas de topo são anglo-saxónicas, que não publicam nem em português nem em francês. Consegue-se muito mais crédito científico quando se tem esta facilidade de publicação e isso é uma mais-valia da experiência internacional. Mas também há os efeitos mais subjetivos associados à evolução na maneira como os investigadores fazem ciência, pelo que pude compreender no inquérito mas sobretudo nas entrevistas. Todos me falaram da abertura a novas ideias, o ser exposto a outras teorias, a outras metodologias, ao contacto com colegas não só do Instituto, do país onde estavam, mas também a todos os que vinham de outras partes do mundo. O cosmopolitismo é um dos fatores de atração. A universidade ou instituto escolhidos tinham que ser atrativos para qualquer nacionalidade e, portanto, acabava por se criar um melting pot, um espaço onde as pessoas eram expostas a experiências muito diferentes e aprendiam umas com as outras e isso, de facto, é uma abertura de perspetivas. Também há os investigadores que aprenderam a valorizar mais Portugal porque perceberam que nalguns países os processos são mais rígidos. As expectativas são grandes em relação a terem equipamento e consumíveis para as suas investigações, mas se tiverem os materiais e alguma coisa não funcionar, bloqueiam. Aqui em Portugal há a cultura do improviso, os investigadores conseguem fazer mais com menos. O estar fora permitiu-lhes apreciar melhor o estar dentro... Mas quase todos eles falaram da abertura de espírito, que não é só uma questão científica, também social, ao viverem num país diferente, com uma cultura diferente acabaram por mudar os seus hábitos e práticas. O modo como as pessoas vivem a vida também tem reflexos na ciência que produzem.

 

OEm - Nos anos 1990 havia a questão de Portugal não ter equipamentos necessário para várias áreas e agora?

AD - Penso que hoje em dia todas as áreas estão relativamente bem cobertas, embora sendo um país pequeno seja natural que não haja algumas áreas de nicho, como as ciências planetárias... Quer dizer, quem quer fazer experiências sofisticadas com o equipamento do European Organization for Nuclear Research (CERN) tem de ir para lá, não é aqui. Mas, de facto, houve evolução na ciência portuguesa, foi feito um investimento a partir dos anos 1990 em infraestruturas de equipamento que permitiu dar um salto qualitativo muito grande e, de certa forma, obviar a necessidade das pessoas irem para fora em muitas áreas científicas. Para além da questão da formação, investiram na qualificação dos investigadores no estrangeiro nos anos 1990 que depois vieram formar os investigadores cá e, por isso, criaram programas de doutoramento, alguns deles com vocação internacional, como os doutoramentos mistos. Os investigadores também passaram a beneficiar da internacionalização dos próprios centros, passando temporadas a trabalhar na Suíça ou em França ou na Alemanha, por exemplo. Portanto a própria internacionalização da ciência portuguesa, que passou a ser exposta a influências diferentes, resolveu em parte a necessidade da mobilidade definitiva, de longa duração.

 

OEm - As caraterísticas da mobilidade dos investigadores também se alteraram...

AD - Sim, para uma mobilidade mais flexível, mais temporária. Ao mesmo tempo, também trouxe vantagens porque muitos dos investigadores que fazem o doutoramento lá fora cortam os laços com Portugal e com as instituições portuguesas. Quando vão antes nestes regimes de mobilidade mais temporária há mais probabilidades de depois ficarem em Portugal e continuarem com os contactos no estrangeiro.

 

OEm - E aplicarem as redes criadas no estrangeiro nas tais patentes e coautorias. Na tua pesquisa problematizas as redes de diáspora, no sentido em que algumas concretizam-se mas outras não.

AD - A questão é que nos casos em que o investigador português no estrangeiro mantem o contacto com uma instituição portuguesa, pode falar-se de uma rede de diáspora porque aí podem haver coautorias, projetos conjuntos e colaborações que são benéficas para a ciência portuguesa. Mas há também os investigadores que não conseguem manter o contacto, muitas vezes nem é volição própria, depende da carreira que os investigadores têm em Portugal (se têm oportunidade de continuar a fazer investigação ou se passaram a ter muita carga letiva e burocrática), e da fluidez de pessoal na instituição estrangeira - muitas vezes os contemporâneos dos investigadores portugueses também já saíram de lá. São investigadores que criam laços apenas no próprio país ou num terceiro país para onde vão a seguir e nesses casos, bastante comuns, não há redes de diáspora nem benefícios diretos para Portugal.

 

OEm - Há também os investigadores que voltam do estrangeiro e não continuam a manter as redes lá criadas?

AD - Exatamente. Também há o caso inverso, em que os investigadores tiveram formação no estrangeiro mas depois de voltarem a Portugal cortaram os laços. Estas redes têm de ser alimentadas porque não se mantêm por si, por exemplo, o facto de uma pessoa ter feito o doutoramento em Cambridge não significa que continua com essa rede, os laços acabam por se diluir e se não forem alimentados com visitas regulares, com projetos em cooperação, com coautorias, entre outros. Outros têm uma atitude diferente, mais cosmopolita e veem isso como uma oportunidade para continuarem a fazer ciência com ligações internacionais. Depende dos casos, não há garantia que investindo na mobilidade dos cientistas portugueses isso traga realmente retorno porque às vezes não traz, ou porque eles não voltam e não mantêm ligações com Portugal ou porque eles voltam e não mantêm ligações com o país de formação.

 

OEm - Há um artigo seu de regresso e de reintegração de investigadores portugueses em mobilidade, em que refere que muitos não têm planos de regresso e alguns tentam mas não têm condições para regressar ...

AD - Sim, houve investigadores que estavam interessados em voltar, que tinham bons currículos, mas que se deparavam com a endogamia e com as práticas menos transparentes das universidades portuguesas, porque eram sistematicamente preteridos face a candidatos da própria universidade com currículos mais fracos, esta é uma queixa muito comum. Mas também há aqueles que não querem voltar porque têm uma vida construída lá fora e não faz sentido regressarem. Para além que os incentivos de retorno a Portugal não têm sido muitos nem com oferta de estabilidade. As perspetivas de retorno que tem havido na maior parte dos casos são temporárias, como as bolsas de pós-doutoramento e os contratos de investigador. Ao contrário de outros países, não tem havido evolução para ofertas de uma carreira estável.

 

OEm - A tal progressão da carreia, as chamadas "tenure track", em que depois de três a cinco anos são avaliados e, se passarem, ficam efetivos.

AD - Exatamente. Normalmente nos outros países estas progressões estão muito codificadas, na tenure track ficam com o lugar se durante esses três ou cinco anos publicarem um determinado número de artigos e de livros, não depende da vontade de alguém ou de uma avaliação subjetiva.  

 

OEm - Os critérios para a progressão da carreira estão definidos.

AD - Os investigadores sabem que se conseguirem publicar em determinadas revistas têm a tenure garantida. Em Portugal houve investigadores que tinham expectativas que houvesse uma continuidade, com uma avaliação definida, e isso não se veio a verificar e, portanto, esta insegurança no sistema não é boa para se construir uma vida familiar. Para além de que a incerteza sobre se vão abrir concursos para projetos e integração de investigadores está mais ao menos resolvida noutros países, os processos são previsíveis, sobretudo naqueles que atraem os portugueses há muitas oportunidades. Nesses países com maior dimensão há sistemas científicos mais desenvolvidos e senão conseguirem um contrato numa universidade conseguem noutra, desde que os investigadores tenham flexibilidade de mudar há sempre oportunidades porque há previsibilidade e estabilidade no sistema. Ou seja, sabem que os concursos abrem todos os anos numa determinada altura e fecham num determinado período, o que lhes permite saber se vão ou não ser financiadas. Em Portugal estes processos tiveram fases estáveis, agora são completamente imprevisíveis. Muitos dos investigadores não conseguem viver com esta incerteza, até devido à natureza do seu próprio trabalho. Nas ciências sociais não temos muito essa perceção porque o que nós fazemos não é muito contingente ao que os outros fazem. Mas nalgumas ciências o conhecimento avança tão rapidamente que se os investigadores estiverem inativos seis meses à espera do financiamento de um projeto perderam a corrida. Eu lembro-me na questão dos contratos de "compromisso com a ciência" de ver queixas de investigadores que tinham vindo com contratos por 5 anos mas ainda não tinha chegado o dinheiro para fazer a investigação e corriam o risco de ficarem anos à espera. Isto acabava com a carreira científica deles porque se não publicassem um determinado número de artigos naquele período era como se tivessem morrido para a sua área científica. Eu não conheço números oficiais sobre esta realidade mas sei que muitos investigadores estrangeiros cancelaram os seus contratos de compromisso com a ciência ao fim de um ou dois anos por este motivo.

 

OEm - Houve uma altura em que a FCT financiava mais investigadores portugueses mas também estrangeiros.

AD - Sim, eles próprios já reconheceram isso. Por exemplo, no caso dos investigadores do "compromisso com a ciência" a percentagem dos estrangeiros era bastante elevada e nestes últimos concursos é bastante reduzida. Acho que a certa altura também se conseguiu atrair alguns investigadores de outras nacionalidades porque o sistema português mostrava dinamismo e um grande crescimento, o que acabou por se diluir e os investigadores deixaram de vir e de estar interessados. São investigadores que já estão em mobilidade e se as condições em Portugal não são boas vão para outro país. Era interessante fazer uma investigação sobre este tema. Por exemplo, daqueles mil e tal investigadores que chegaram em 2007/2008, acho que quase um terço eram estrangeiros, onde é que eles estão hoje? Ficaram no sistema português? Foram-se embora?

 

OEm - Os efeitos do investimento na ciência estão ainda a sentir-se, quais acha que vão ser os efeitos deste desinvestimento recente?

AD - Tal como levou algum tempo para se ver o resultado do esforço de investimento que foi feito a partir dos anos 1990, este corte que houve desde a crise também é algo que só se verá a médio prazo. A questão é que já se vê nos indicadores mais imediatos, a despesa e o número de pessoal já começou a baixar. Desde 2011, se não me engano, que a tendência é decrescente mas o processo vai-se prolongar até porque muitos dos investigadores que saíram agora não vão voltar. Ou seja, tendo a perspetiva de voltar e de novamente terem de emigrar preferem não regressar. Tenho a certeza que daqui a um par de anos vai começar a haver uma tendência decrescente na publicação de artigos científicos portugueses devido a este desinvestimento. Até porque os investigadores que estão a emigrar porque não têm oportunidades em Portugal são os mais produtivos, os mais jovens, os mais dinâmicos e, por isso, são contratados no estrangeiro. Nós chamamos desinvestimento porque há menos recursos, mas a FCT diz que os orçamentos são semelhantes. Então para onde é que está a ir o dinheiro?

 

OEm - Isso é o que ninguém diz...

AD - E deveria ser esclarecido...

OEm - Trabalhar na ciência em Portugal não tem sido pensado de forma estrutural ou estável.

AD - Sim, esse é o problema. Não quer dizer que nos outros países não se viva isso, nos Estados Unidos já havia vários doutorados desempregados nos anos 1960. Não é uma realidade específica de Portugal. Por isso sou cética quando leio que a Europa precisa de mais investigadores. Nunca vi que houvesse falta de mão-de-obra científica em Portugal.

 

OEm - Este processo também se deve ao tecido económico em Portugal ser predominantemente composto por pequenas e médias empresas que não precisam de empregar doutorados.

AD - Exato. Atribui-se muito às universidades a culpa de as empresas não terem investigação e desenvolvimento (I&D), de não absorverem os doutorados, quando se deve ao próprio tecido económico português. Quer dizer, só as multinacionais, como a Nokia e a Microsoft, absorvem pessoal qualificado, as outras pequenas e médias empresas não precisam de um doutorado para o tipo de produto que criam ou comercializam. Portanto está-se a formar pessoal cujo único destino é a emigração se quiser continuar na sua área. Mas o facto é que, há um investimento enorme do estado português na formação a nível das licenciaturas, dos mestrados e dos doutoramentos. Se as empresas portuguesas não absorvem estas pessoas, elas procuram uma saída lá fora. Nós estamos a alimentar não só o sistema científico de outros países, mas também o sistema nacional de saúde inglês com as nossas enfermeiras, as empresas alemãs com os nossos engenheiros, o que é um desperdício de recursos. A minha solução não é acabar com as formações, tem que haver algum estímulo para o crescimento do tecido económico português aproveitar esta riqueza que está a ser criada. Mas enquanto tivermos empresários, cuja maioria nem sequer tem o ensino secundário, que ganham imenso dinheiro através de contratos com o Estado para produtos que não se percebe bem qual a rentabilidade, qual é o incentivo para termos uma economia realmente dinâmica? Não há muito incentivo.

 

OEm - Como é que a sua pesquisa sobre a mobilidade dos investigadores portugueses se situa no discurso contemporâneo de circulação de cérebros, de fuga de cérebros ou de desperdício de cérebros? Por exemplo, nesta circulação de cérebros, quais são os ganhos?

AD - Há ganhos para a ciência portuguesa neste investimento da formação dos investigadores que depois foram para fora. Muito do crescimento que tem sido feito nas instituições de investigação deveu-se aos investigadores que foram formados lá fora e que hoje em dia têm a capacidade de formar cá dentro, em condições quase tão boas como no estrangeiro, neste sentido houve um brain gain. Todavia, a incapacidade ou diminuição da capacidade de atrair novos cérebros, bem como todos os entraves à sua entrada, é um desperdício de cérebros porque há muitos investigadores que já foram formados em Portugal e não encontrando ofertas de emprego tem de ir para o estrangeiro e enriquecer os sistemas científicos de outros países... É muito positivo se houver circulação de cérebros, ou seja, enquanto uns entram, outros saem, e uns saem e depois voltam, é muito melhor do que ficarmos todos cá sem termos influências diferentes. Agora, é preciso que haja essa circulação de cérebros e não ser só saída de cérebros, como está a acontecer.

 

OEm - Neste momento só saem portugueses, quase não entram estrangeiros, e os portugueses que saem não voltam...

AD - Sim, não entram cérebros e não regressam os que estão lá fora. Esta é a tendência que eu suponho que esteja a acontecer porque mais uma vez não há dados, não há monitorização destes fatores e devia haver. A Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC) continua a fazer os inquéritos aos investigadores portugueses e poderiam fazer um retrato longitudinal. Na altura consegui ver que havia cerca de três mil investigadores que tinham feito o doutoramento no estrangeiro e estavam ativos...

 

OEm - Isso foi há quantos anos?

AD - Desde sensivelmente 2008 que se deixou de ter essa informação no sistema ativo e deixaram de a disponibilizar, mas ela continua a ser recolhida, só que já não é pública. A mobilidade de investigadores é um fenómeno difícil de medir, as pessoas saem e não têm de informar ninguém. Também foram feitos uma série de inquéritos aos doutorados, através de um programa da OCDE, onde fizeram aos doutorados portugueses em 2006, penso que depois foi repetido em 2008. Este seria um bom instrumento de monitorização para saber onde é que estão os cérebros portugueses, se estão cá ou se já se foram embora.

 

Como citar  Pereira, Cláudia (2014), "Mobilidade internacional dos investigadores portugueses: entrevista a Ana Delicado", Observatório da Emigração, 12 de Setembro de 2014. http://observatorioemigracao.pt/np4/4671.html

 

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