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Comunidades: Jovens deficientes querem eliminar barreiras e mudar mentalidades
2009-09-14

A inserção no mercado de trabalho, os apoios sociais, financeiros e de saúde e as dificuldades da participação plena nas sociedades que os acolhem, foram questões que os 23 jovens portugueses e luso-descendentes oriundos da Polónia, Luxemburgo, Canadá, Estados Unidos, Chile, Argentina, África do Sul e Moçambique, debateram em Portugal, ao longo do II Encontro de Pessoas com Deficiência das Comunidades Portuguesas. Para além da troca de experiências, iniciaram o processo de criação de uma associação que pretende reunir deficientes e instituições ligadas a esta problemática, oriundos das comunidades.

A troca de experiências e o conhecimento das diferentes realidades vividas por cada um, foram considerados positivos pelos participantes do Encontro, realizado em parceria pelas Secretarias de Estado das ComunidadesPortuguesas e da Reabilitação. Um Encontro que esperam que possa ajudar a "mudar consciências" e dar alguma visibilidade às questões da deficiência.
"Não tínhamos tido notícia de uma iniciativa como esta", recorda Paula da Cunha, da Argentina, que participou na primeira edição do Encontro, realizada em 2008. Resolveu candidatar-se e repetir uma experiência com a qual "todos estavam a aprender".
Paula manteve-se em contacto com participantes, da Polónia, Canadá, Brasil e Luxemburgo, entre outros, para continuarem a discussão de problemas comuns, como os apoios sociais e de saúde e as dificuldades de ingresso no mercado de trabalho.
A socióloga e professora defende a necessidade de se elaborar um estudo, coordenado pelos consulados portugueses, sobre o número de deficientes nas comunidades portuguesas, que reúna informações sobre quanto são, onde residem e quais as suas necessidades. "Seria um primeiro passo, porque falta saber ao certo quantos somos", sublinha.
Sobre o II Encontro que decorreu entre 7 e 11 deste mês, diz que pode ajudar a "mudar consciências" e acredita que o Fórum D+Eficiente, realizado no terceiro dia, foi uma oportunidade de aproximar as pessoas das instituições. "Seria muito bom que as instituições portuguesas e as os outros países contactassem se apoiassem. Nenhuma instituição é autónoma e «aprende» por si", sublinha.

Mais visibilidade

Alberto Salgueiro espera que o Encontro venha dar "um pouco mais de visibilidade às questões da deficiência" nas comunidades portuguesas, tanto junto de autoridades como de responsáveis de organismos ligados a esta temática. "É preciso alertar as entidades governamentais e as instituições em Portugal para a realidade destas pessoas, que estão lá fora", afirma, sem esquecer aquelas que residem em países onde não há comunidades portuguesas.
"Não é apenas nos países com comunidades portuguesas inseridas, que há deficientes portugueses. Estes não deixam de ter necessidades específicas e as embaixadas e consulados não podem deixar de estar preparados para os apoiar", alerta Alberto Salgueiro. A residir na Polónia há cerca de cinco anos, o psicólogo afirma que aquele é um país desenvolvido mas "onde as pensões são baixas" e que "tem recursos financeiros ainda mais limitados que Portugal". "A pensão social que recebia em Portugal, na Polónia seria três a quatro vezes menor", exemplifica, acrescentando que, por outro lado, "há escolas e apoios para pessoas com deficiência".
Para já, destaca como positivo o facto do Encontro proporcionar uma partilha de ideias que considerou "extraordinária". "Há pessoas de vários países, que trazem questões específicas dos locais onde vivem. Cada caso é um caso. Na Argentina e na África do Sul, por exemplo, há mais dificuldades em termos de apoios e recursos do que no Canadá".
No dia 9, os participantes reuniram-se no Museu do Oriente para a realização do Fórum D+Eficiente que, além destas questões debateu ainda os incentivos à prática do desporto para deficientes e o papel do voluntário e das instituições de apoio. Aberto pela secretária de Estado Adjunta e da Reabilitação, Idália Moniz, e pelo Chefe de Gabinete do secretário de Estado das Comunidades, o fórum debateu o tema «Ultrapassar Barreiras com as Tecnologias de Informação e Comunicação» com a participação, entre outros, do Secretário do Comité Paralímpico Europeu, Jorge Vilela de Carvalho.
Em representação do secretário de Estado das Comunidades, Vítor Sereno referiu "o orgulho" pessoal pelo facto do Encontro reunir em Portugal participantes de todo o mundo. O Chefe de Gabinete de António Braga destacou ainda as "dificuldades diárias" que estes portugueses e luso-descendentes enfrentam para que o seu valor seja reconhecido.
Idália Moniz destacou a necessidade de em Portugal investir-se na formação dos recursos humanos e defendeu que estes têm que ser "sensibilizados" para a problemática e para o atendimento às pessoas portadoras de alguma deficiência. "As pessoas portadoras de deficiência têm inúmeras capacidades e não são elas que têm que se adaptar a nós, somos nós que temos que nos adaptar a elas", sublinhou a secretária de Estado da Reabilitação, que considerou "gratificante" o trabalho que tem estado a ser desenvolvido na área da educação especial.

Barreira das "mentalidades"

Para Sílvia Marques, do Canadá, a percepção das dificuldades vividas por deficientes de outros países e a possibilidade de ajudar, com a sua própria experiência, já fizeram com que valesse a pena participar num Encontro onde as dificuldades económicas e de apoios que os Estados poderiam proporcionar foram problemas referidos por todos.
"Desde o primeiro Encontro temos a intenção de debater os vários temas relacionados com a deficiência e a presença de participantes portugueses de todo o mundo, dá-nos uma perspectiva mais rica, porque ouvimos experiências diferentes e damos informações e dicas àqueles que vêm de países onde há mais dificuldades", acrescentou.
Porém, são as barreiras físicas "e de mentalidades", como sublinhou Sílvia, aquelas que mais afectam o dia a dia dos deficientes, independentemente dos países onde estes portugueses e luso-descendentes residam.

Associação mundial a caminho

A criação de uma associação a nível mundial com sede em Portugal foi um projecto que surgiu no primeiro Encontro, realizado em Maio de 2008. "Estamos em diversas comunidades, não poderíamos ter uma associação em cada país e como somos todos portugueses achamos que deverá estar sedeada em Portugal", explicou Paula Cunha acrescentando que deverá ser uma associação sem fins lucrativos, mas que o primeiro passo é definirem os seus objectivos concretos.
Sílvia Marques considera importante a criação de uma associação "a nível mundial" que seja "um elo mais forte na luta pela igualdade e autonomia dos deficientes portugueses em todo o mundo".


A IMPORTÂNCIA DE NUNCA DESISTIR...
PAULA CUNHA

Paula Cunha não deixou que a limitação física a impedisse de concretizar os seus projectos. Licenciada em Sociologia e em Direito, está a concluir um Doutoramento, também em Sociologia. Empenhada no surgimento de uma associação a nível mundial, não é favorável à criação de uma estrutura semelhante na Argentina porque defende que os problemas e necessidades dos portugueses e luso-descendentes com deficiência, poderiam ser tratados pela comunidade em geral.
O trabalho como socióloga, levou-a a participar num estudo sobre os desaparecidos durante a ditadura e a descobrir que, entre estes, havia portugueses. "O Estado argentino fez uma lista provisória onde constam cinco portugueses desaparecidos durante a ditadura. Destes, um estava registado no consulado, e um é filho de portugueses. Dos outros três não há nenhum registo", revela, acrescentando que o consulado de Portugal em Buenos Aires já pediu informações sobre eles, mas sem resultado.


ALBERTO SALGUEIRO

"Na Polónia, o clima e os hábitos culturais levam a que se passe muito tempo dentro de casa, mas é uma questão de nos adaptarmos", defende o psicólogo, lamentando apenas que "tem sido difícil" ingressar no mercado de trabalho polaco.
Alberto Salgueiro perdeu 75 por cento da visão, o que não o impede de manter as rotinas do dia-a-dia, mas cria «barreiras» quando o tema é trabalho, apesar de falar e perceber bem a língua.
"As empresas estão estruturadas para o funcionário dito «normal» e para alguém com uma característica diferente, a adaptação é difícil", lamenta.
Quanto a Portugal, sente que as pessoas "são cada vez mais conscientes nas questões das diferenças" mas diz que é preciso "efectivamente criar igualdades".


SÍLVIA MARQUES

Nasceu em França mas vive no Canadá há 19 anos, onde trabalha na área da deficiência. Sílvia integra a Sociedade dos Deficientes Portugueses de Ontário - uma instituição criada em 1989 e da qual já foi presidente - que nasceu com o objectivo de "tirar as pessoas de ascendência portuguesa do isolamento" em que viviam, muito por conta da mentalidade vigente no seio da comunidade. Algo que, acrescenta, tem estado a mudar, apesar de ainda haver muito a fazer.  "Transmitimos o nosso desejo de uma maior igualdade de direitos das pessoas deficientes através da comunicação social e temos conseguido mudar algumas mentalidades em Toronto", destaca, dando como exemplo o trabalho voluntário feito pelos portugueses que resultou na construção de um centro comunitário que atende 60 deficientes em diversas áreas, com o apoio de 300 familiares e amigos. A sua experiência de vida leva-a a acreditar na máxima de que "a união faz a força". "A minha vida tem sido uma constante luta para eliminar barreiras".


CRISTIANO RAFAEL

Cristiano nasceu em Peniche e vive na Suíça, para onde foi há cinco anos porque em Portugal a demora na espera por uma operação e o mau resultado dos tratamentos deixaram-no praticamente paralisado. A mãe decidiu emigrar e dois anos depois tinha já condições para levar o filho, nomeadamente um seguro de saúde que cobre praticamente o valor dos medicamentos, tratamentos e operações. Cristiano já fez cinco, que lhe permitiram voltar a andar. Agora, tem planos para concluir o 12º ano e talvez fazer uma formação na área do apoio a deficientes.
Partiu "bastante feliz" do Encontro que lhe permitiu aprender "imensas coisas" e criou nele o sentimento de que "valeu a pena ouvir a experiência dos outros" e poder falar da sua.
"Levo o ânimo que todos me transmitiram, a noção da  importância de nunca desistir. Criamos amizades e temos um grupo que pode vir a fazer muito pelos deficientes nas comunidades portuguesas".


Ana Grácio Pinto
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