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Media e lusofonia
Entrevista com Sónia Ferreira
Sónia Ferreira é investigadora integrada do CRIA onde co-coordena o Grupo de Investigação "Circulação e Produção de Lugares" e “membre associé” da Unité de Recherche Migrations et Société (Univ. de Paris) onde co-coordena o "Groupe de travail Migrations dans les mondes lusophones: identités, altérités et circulations". Atualmente é investigadora contratada do CRIA-NOVA FCSH com o projecto “(Re)Contar o império: narrativas pós-coloniais e produção mediática na “diáspora” portuguesa e cabo-verdiana” e professora auxiliar convidada do departamento de antropologia da NOVA-FCSH. Desde 2019 coordena o projecto europeu "#ECOS. Exílios, contrariar o silêncio: memórias, objectos e narrativas de tempos incertos". +

Entrevista realizada em Lisboa, 30 de julho de 2019, por Inês Espírito-Santo.
Também disponível em PDF na série OEm Conversations With.

 

Observatório da Emigração (à frente OEm) – Como e quando surge o teu interesse pela área das migrações?

Sónia Ferreira (à frente SF) – O meu interesse pelas migrações surge já depois do doutoramento, porque eu no doutoramento não trabalhei sobre estas temáticas, mas na altura estava a dar aulas na Escola Superior de Comunicação Social do Instituto Politécnico de Lisboa e na realidade a questão das migrações vem por causa da questão dos médias. Dava aulas na área da Sociologia da Comunicação Social e da Antropologia dos Médias e colaborava também com o Centro de Estudos de Migrações e Minorias Étnicas (CEMME) da Universidade Nova de Lisboa, do Departamento de Antropologia, e na altura estávamos a pensar concorrer a financiamentos dentro desta área dos médias e dos médias étnicos. Nesse âmbito comecei a fazer algumas pesquisas e encontrei um programa de televisão feito por portugueses no Canadá e que dava para ver online. Foi a partir daí que achámos que podia ser interessante seguir por esta área, sobre a qual não havia nada, pelo menos de um ponto de vista antropológico, sobre produções mediáticas  de migrantes portugueses. O facto deste programa poder ser visionado online permitia-me de alguma forma fazer um terreno à distância, começar a visionar, começar a tomar notas, colocar algumas questões sobre aquilo, mesmo sem ter financiamento. Depois concorremos a um projeto FCT  sobre essa temática e ganhámos o projeto. Foi assim que eu comecei.

 

OEm – Esse é o projeto “Sentir o pulso da comunidade: políticas e narrativas identitárias de uma comunidade migrante portuguesa no Canadá”?

SF – Sim. Nesse projecto interrogávamos o papel destas produções mediáticas no contexto migratório português, utilizando o exemplo do Canadá. O contexto do Canadá era particularmente interessante pois dos exemplos que conhecíamos era o que mais produções mediáticas oferecia e nos seus vários formatos porque havia jornais, rádio e televisão, e a existência de televisão não é muito comum.  E de televisão havia mesmo três canais, o canal que estávamos a analisar, que não era bem um canal porque era um programa produzido de forma independente que comprava espaço num canal de cabo (e que aliás ainda existe), é o “Gente da Nossa”. Depois existia também a programação em português na OMNI Television com notícias diárias e programas na área do entretenimento. E havia ainda um canal português, a FPTV, que transmitia produção própria e também a SIC Internacional e que estava ligado a uma estação de rádio, a CIRV Radio. O “Gente da Nossa” tinha a particularidade de ser considerado um programa “açoriano”. E no Canadá, dentro daquilo que podemos chamar o grupo dos portugueses, ou portugueses residentes no Canadá,  encontramos bastantes questões que se prendem com as origens regionais das pessoas que geralmente são apresentadas a partir da dicotomia continentais e ilhéus. E há bastantes clivagens a esse nível, algumas de pendor quase xenófobo dos ditos “continentais” em relação às pessoas oriundas das ilhas. E o facto deste programa ser um programa dirigido essencialmente para a população migrante açoriana era interessante. Isso era visível nos conteúdos a vários níveis, porque para além de darem notícias sobre as actividades locais, o que se chamava de “Boletim Comunitário” com as notícias da dita “comunidade” - vamos chamar assim aqui entre aspas, porque só esta expressão permitiria elaborar muito - também tinham um aspecto que nos interessava estudar que era a promoção de um determinado tipo de cultura expressiva através de festas, viagens, etc.

 

OEm – Quais eram mais precisamente os vossos objetivos neste projeto?

SF – Interessava-nos ir para além da análise de conteúdo e observar o  que é que os produtores mediáticos faziam no estúdio e na redação e para além destes, ou seja, uma “etnografia da produção” que abarcasse todo o universo social a que estes pertenciam, que reproduziam e ajudavam a circunscrever. No âmbito do “Gente da Nossa”, por exemplo, aconteciam muitas coisas, mais até do que nos outros. No conjunto, todos promoviam viagens e festas mas neste,  a partir de um determinado momento, uma boa parte dos s conteúdos transmitidos veiculam e promovem esses acontecimentos. Donde se destacam as viagens que, ancoradas naquilo que podemos chamar de “turismo da nostalgia”, adquirem cada vez mais peso. Primeiro iam só aos Açores, depois também à Madeira e, por fim também já havia viagens a Portugal continental, ao Santuário de Fátima, ao Algarve. Filmavam tudo, transmitiam nos programas e depois vendiam os dvd´s.  Isto ia ao encontro de uma coisa que eu queria muito fazer na altura, que era uma “etnografia da produção” no sentido estritamente antropológico, porque se os métodos da antropologia eram desde os anos 90 apropriados por outras áreas, como os medias studies, cultural studies, nomeadamente para as questões da análise das receções e do consumo, eu queria muito analisar a parte da produção. Achava que era uma coisa que se fazia pouco, queria fazer uma etnografia do que fica invisível quando olhamos para a parte pública dos média, para os conteúdos e olhar estes produtores também a partir do quadro analítico das migrações. Foi isso que eu fui fazer para o Canadá, com a Marta Rosales que também integrava a equipa, acompanhar os produtores, andar com as equipas na rua, no estúdio. Observar a selecção de conteúdos, as filmagens, as edições, ír às festas. Nunca fomos a uma viagem porque o financiamento não chegava para isso.

 

OEm - Há alguma especificidade do Canadá?

SF – Estes produtores mediáticos são atores sociais com uma vida para além da produção mediática, em muitos casos que deriva desta também. Alguns têm papeis políticos destacados, concorrem para cargos políticos através da aposta no voto étnico que no Canadá é uma via normal, hegemónica mesmo, que deriva das políticas multiculturais canadianas. Aliás, está-se constantemente a comparar o lugar e o peso dos políticos portugueses com o dos políticos italianos, e de que forma isso se repercute no próprio peso que a comunidade tem. A dita “comunidade portuguesa” e como esse tipo de representação é estratégica para reivindicar coisas.  

 

OEm – Para compreender melhor o contexto desse projecto. Era um projeto colectivo e tu ficaste com a parte do Canadá?

SF – Não, era apenas sobre o Canadá. Era uma equipa pequena. Era a Filomena Silvano que coordenava o projecto, eu e a Marta Rosales. Eu e a Marta fomos as duas fazer terreno para o Canadá. Basicamente o financiamento do projecto deu para ir fazer dois meses de terreno para o Canadá e para pagar a minha bolsa de pós-doutoramento. Mas como Toronto está organizado de forma étnica, uma particularidade que não encontrei nos terrenos que fiz a seguir (Paris e Rio de Janeiro), era muito fácil fazer terreno, porque as pessoas estavam mais ou menos concentradas. Todos os médias, por exemplo, com execepção de um estavam concentrados no designado bairro português, no Portuguese Village e estavam bem identificados.

 

OEm – Portanto este projecto ocorreu entre 2009-2011 e depois disto continuaste com os medias em contexto migratório?

SF – Depois deste projecto ganhei a uma bolsa individual de pós-doutoramento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Tinha pedido autorização à Filomena Silvano para utilizar os dados que tinham sido recolhidos do projeto do Canadá, porque não tinha sido possível explorar naqueles dois anos todas as sua potencialidades analíticas, e utilizei-os então para fazer um estudo comparativo com outras produções mediáticas, seleccionando dois outros contextos de pesquisa. Escolhi a França e o Brasil. França por causa da representatividade dos portugueses aí residentes, mas também porque queria estudar um país que tivesse uma relação com a emigração completamente diferente daquela que eu tinha encontrado no Canadá. Portanto o modelo laico, republicano, da integração. Queria perceber o mesmo tipo de fenómenos mas numa sociedade que ao contrário da canadiana, que até legislava especificamente sobre a questão étnica, se orientava noutra direcção. No caso do Brasil porque queria ter um país lusófono e uma das coisas que tinha compreendido desde o ínicio é que a língua constitui uma questão essencial. Aliás, voltando ao exemplo do Canadá, um dos factrores de descriminação estava associado a questões linguísticas, aos regionalismos, considerava-se que o sotaque açoreano não seria adequado, por exemplo, para passar na televisão ou na rádio. Escolhi o Brasil porque queria perceber como a questão da língua funcionava num contexto lusófano e também queria olhar para a emigração portuguesa num contexto em que esta tem características muito particulares, porque é um contexto pós-colonial, em que os portugueses passam historicamente  de colonos a imigrantes. Queria um contexto que me desafiasse a pensar tudo isto de forma diferente, aliás o contexto do Brasil contínua a ser o mais difícil para mim, precisamente por causa disso, porque nada é analiticamente simples, perceber o que poderá ser um emigrante português no Brasil tem sido um grande desafio. Neste projeto interessavam-me estas questões que eu comecei a designar de construção mediática da nação, construção de audiências imaginadas. Porque este meu segundo projeto tem uma característica diferente do primeiro, enquanto no primeiro o objeto de estudo era o programa televisivo “Gente da Nossa”, no segundo o objeto de estudo, ou seja, a porta de entrada para estas questões analíticas, era o “Magazine Contacto”, um programa televisivo produzido na época pela RTP Internacional. Esse programa existia desde 2003 e eu tomei pela primeira vez contacto com ele no Canadá. Ele era produzido, como se dizia na RTP, pela diáspora para a diáspora. Ou seja, a RTP Internacional pagava a produtores locais para produzirem um magazine, cada um tinha a designação do local, “Magazine Brasil Contacto”, “França Contacto”, “África do Sul Contacto”, chegou a ter 12 segmentos, pagos por Portugal mas que eram produzidos no fundo pelos mesmos produtores locais que eu andava a estudar com excepção de um ou outro caso. Quando eu perguntava na RTP Internacional como o caracterizariam, o que me diziam os diferentes diretores que fui entrevistando é que isto era um progama da Diáspora para a Diáspora, para que um português na África do Sul pudesse ver como é que um português vivia em França. No terreno o que eu percebi é que as pessoas continuavam a querer que os conteúdos fossem vistos era em Portugal. Ou seja, as pessoas quando faziam as entrevistas, quando mostravam as suas casas ou os seus locais de trabalho, o que elas queriam é que a família em Portugal visse isso. Portanto continuava a ser a ideia da exibição de um projeto migratório bem sucedido.  Mais tarde com as plataformas digitais e a internet, claro que as pessoas passaram a poder visionar o programa onde quer que estivessem, mas a política de programação da RTP Internacional, no caso deste programa, não era essa. Eles tinham uma metáforas interessante, a ideia de uma sala de estar comum em que os portugueses pudessem ver-se uns aos outros, independentemente do local onde residissem. Portanto eu comecei a interessar-me em particular sobre esta ideia de “audiência imaginada”, “nacionalismo à distância” e como isso se operacionalizava nas vidas quotidianas das pessoas que eram seleccionadas para representar a Nação. E uma das questões que apareceu com bastante frequência foi a da língua, a língua de produção, de transmissão, quem  é que falava ou não falava num português suifcientemente correcto, normativo, para aparecer na televisão. Muitas vezes era pedido aos entevistados para se expressarem em português e, principalmente as gerações mais jovens, confessavam as dificuldades, evocavam a questão da “língua de casa” e como ficariam ou ficavam envergonhadas com o seu desempenho a esse nível. Eram frases do género: “Agora os meus pais vão ver isto e eu não falo um português correto”. Havia essas ambivalências e tensões em torno da língua. Entretanto com o passar do tempo, houve várias secções do programa que foram sendo canceladas, eu fui acompanhando esse percurso, até que o programa desapareceu em 2015. Depois surgiu uma nova grelha da RTP Internacional com programas como “A Hora dos Portugueses” ou a “Voz aos Diretores” onde se seleccionam precisamente os produtores mediáticos da diáspora para ir falar.

 

OEm - Este teu projeto individual ocorre de quando a quando?

SF – Ele começa em 2012 e foram os seis anos de bolsa, em que eu na realidade tive dois projetos, porque no terceiro ano quando fiz a renovação dei um novo título e concepção ao projeto do novo triénio.  

 

OEm – É neste período que surge a Urmis [Unité de Recherche Migrations et Société (Universidade Paris-Diderot)]?

SF – A URMIS surge no início da bolsa indiviual, em 2012. Quando eu construí este projeto delineei ir fazer trabalho de terreno em França e pensei que seria importante ter uma instituição universitária francesa que me acolhesse localmente, não tanto pelo terreno mas pela possibilidade da partilha e das discussões científicas. Na altura, das pesquisas e dos contactos que fiz apareceu a URMIS como uma possibilidade, por ser um centro de investigação especializado em migrações. Contactei o director de então, que era o Dominique Vidal e institucionalmente a resposta foi favorável. Depois como eu precisava de ter um supervisor e o currículo dele se adequava, pedi-lhe para ele ser meu supervisor e ele aceitou. Fomos assim construíndo uma relação de trabalho. Depois no primeiro ano que concorri a bolsa, não tive bolsa, só no concurso seguinte, mas entretanto já tinha estabelecido contacto com a URMIS e assim que tive bolsa fui. Era suposto ficar três ou quatro meses, num primeiro momento, e regressar porque na altura eu estava a dar aulas no departamento de antropologia da FCSH. Mas entretanto houve uma reviravolta na FCT relativamente à questão da acumulação das bolsas com a actividade docente e acabei por decidir aproveitar a bolsa de um ano no estangeiro e ficar em França. Acabei por ficar dois anos e meio e ainda hoje me desloco várias vezes por ano. Nesses primeiros tempos fui participando na vida académica da URMIS, acompanhando os seminários e fazendo o meu trabalho de terreno. Entretanto o Dominique Vidal começou a interessar-se também pela temática das migrações portuguesas em França. Conjuntamente com a Irène dos Santos, já tínhamos falado na necessidade de juntar as pessoas que trabalhavam sobre migrações portuguesas porque estavam bastante dispersas, tinha existido o GAP – Group d´anthropologie du Portugal mas já não estava propriamente activo. Em 2014, o Dominique Vidal propõe que organizemos o Colóquio anual de recepção aos alunos do mestrado da URMIS propondo uma sessão sobre migrações lusófonas. E propusemos uma jornada sobre os espaços das migrações lusófonas e, no seguimento disso e das conversas prévias com a Irène dos Santos, a constituição na URMIS de um grupo de discussão em torno desta temática. Fizemos uma primeira reunião para a qual convidámos  toda a gente e tivemos a sala cheia, foi muito bom. Chamámos na altura ao grupo “Groupe de Travail sur l´immigration portugaise en France et ailleurs”, colocando o acento na imigração portuguesa em França, mas já pensando na  extenção aos estudos sobre migrações portuguesas noutros contextos. Eu própria trabalhava sobre o Brasil, o Dominique Vidal e o Sylvain Souchaud da URMIS também, a Irène Dos Santos trabalhava sobre Angola. Esse grupo inicial foi assim também gerido por nós os quatro, depois foi-se reconfigurando, passámos a chamá-lo “Groupe de Travail sur les Migrations Lusophones” (inaugurámos um carnet de recherche na plataforma Hypótheses - http://lusophones.hypotheses.org), para definitivamente marcar essa identidade, esse universo de pesquisa mais amplo do que o das migrações portuguesas que tinha a ver também na altura com o projeto CNRS da Irène dos Santos. E assim fomos fazendo várias sessões por ano lectivo, com convidados exteriores ou com membros do grupo e continuamos a fazê-lo até aos dias de hoje. Depois regressei a Portugal, regressei ao CRIA e, mais tarde, ao departamento de antropologia. Por esta altura já existiam relações institucionais entre o CRIA, a FCSH e a URMIS, mas fomos reforçando isso. Criámos um seminário inter- institucional que promove a mobilidade entre investigadores e docentes, estabelecemos um protocolo ERASMUS, Universidade de Paris 7 e Universidade Nova de Lisboa. Concorremos também a projetos e financiamentos juntos, tanto em Portugal como em França e organizámos, em Dezembros de 2018, uma jornadas de síntese sobre as migrações portuguesas em França, que era uma coisa que andávamos há algum tempo com vontade de fazer. A ideia era fazer um pouco o ponto de situação, mas procurando outros interlocutores, sair do universo do Grupo e abrir a discussão a outros colegas do panorama universitário francês  e tentar retirar a emigração portuguesa de um certo beco cientifico no qual ela se encontra muitas vezes no panorama francês. Onde está restrita a maior parte das vezes a meia dúzia de pessoas, com poucos financiamentos e pouca visibilidade. O desafio e o modelo que propusemos  foi discuti-la, como outro grupo qualquer, onde o que interessava eram as questões conceptuais e cientificas. Desafiámos os colegas da URMIS e outros que trabalham sobre diversos  grupos migrantes  a virem discutir connosco e serem comentadores das nossas intervenções. Trabalhámos temáticas como o transnacionalismo, as práticas religiosas, as práticas mediáticas, a relação ao passado. Acho que correu muito bem e continuamos a defender que o caminho deve ser este e estamos a pensar noutras iniciativas que partam deste enquadramento.

 

OEm – Actualmente o que é que estás a fazer e quais são os projetos associados à área da emigração portuguesa? 

SF – Há dois caminhos, um é o meu actual projeto de investigação que surge após o último pós-doutoramento. Eu acabei a bolsa em 2018 e entrei naquele processo da Norma Transitória, portanto agora sou investigadora contratada do CRIA e continuo a co-coordenar com a Irène dos Santos o grupo da URMIS que, a partir de 2019 se consolidou no âmbito do novo projecto científico do laboratório e passou a designar-se “Groupe de travail Migrations dans les mondes lusophones : identités, altérités et circulations”.
O meu actual projecto de investigação integra migrações portuguesas e cabo-verdianas e os terrenos são Lisboa, Paris e o Rio de Janeiro. O que me interessa estudar neste momento são as interacções entre migrantes lusófonos em contextos pós-coloniais e as discussões em torno da lusofonia como “comunidade” política, linguística e ideológica. O meu ponto de entrada continua a ser a língua e a comunicação, interessando-me perceber como é que se constróem as interações, vamos dizer, pós-coloniais entre as migrações portugueses e outros grupos lusófonos, sendo que me vou centrar sobretudo nos cabo-verdianos. Isto é um terreno que ainda está muito no início, sobre o qual ainda tenho muito poucos dados. Já comecei a fazer terreno em França, principalmente com cabo-verdianos que reimigraram de Portugal para França, mas é um terreno que está mesmo mesmo no início. As questões que comecei por abordar são os processos de etnicisação das relações sociais para perceber as questões associadas à racialização, tanto nos contextos de partida como nos de chegada, a reprodução de ontologias coloniais, partindo das discussões da antropologia colonial e da antropologia das heranças coloniais.
Posto isto, eu tenho feito um trabalho paralelo, que me acompanha também desde que fui para França, que tem a ver com um trabalho que é meio cientifico, meio de cidadania e meio militante, que em França se materializou através da minha integração na associação Memória Viva. Nessa época comecei a interessar-me por um jornal que era produzido por exilados políticos, sempre me interessou estudar os médias numa perspetiva também histórica, compreendê-los como fenómenos que têm de ser lidos na história e não fazer só um recorte etnográfico no presente. O que vou percebendo na altura é que muitos se reconfiguraram ao longo da própria história da emigração portuguesa  e na relação com a história de Portugal. Tive esse jornal à disposição em termos arquivísticos, porque tive a trabalhar nos arquivos da Memória  Viva. Fui construíndo uma relação com um conjunto de pessoas que mais tarde formaram a Associação de Exilados Políticos Portugueses (AEP61-74). É um processo que tenho vindo a acompanhar, participei várias em sessões que eles organizam, nomeadamente na apresentação de livros que eles editaram, com testemunhos de exilados, e tenho escrito algumas coisas sobre esse jornal que é o “Alarme!..”. E na procura de financiamentos para irmos mantendo este projeto, concorremos a um programa europeu, a uma linha de financiamento que se chama “Europa para os cidadãos”, que tem um ponto que é  “Memória da Europa”. Concorremos o ano passado e não ganhámos, concorremos este ano e ganhámos. Então agora tenho em mãos um projeto com financiamento europeu, internacional, com uma equipa da Universidade de Copenhaga mais a URMIS, a associação Memória Viva e a Associação de Exilados Políticos Portugueses e ainda a Casa da Esquina que é uma Companhia de Teatro. O projeto tem uma componente muito prática, visa construir um kit pedagógico para ser levado a escolas e também a associações em Lisboa, no Porto e em zonas de fronteira em Portugal, em França e na Dinamarca. Acabei assim a reflectir também bastante sobre as questões do exílio e escrevi recentemente dois textos, um dos quais procura precisamemte integrar as discussões contemporâneas sobre o que é hoje uma antropologia do exílio e qual o lugar do conceito de exílio na reflexão antropológica.

 

Como citar  Espírito-Santo, Inês (2019), ": entrevista a Sandra Ferreira", Observatório da Emigração, 30 de julho de 2019. http://observatorioemigracao.pt/np4/4675.html

 

Versão disponível em PDF na série OEm Conversations With.

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