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A senhora do nome próprio...
2016-12-23
MACAU - "A saudade". Tão nossa. Tão sentida que até merece ser escrita como nome próprio

Se quiséssemos fazer um teste aos emigrantes e lançássemos a perguntar "qual é a coisa que mais custa no processo da emigração?", quase que apostaria a minha vida em como a esmagadora maioria dos inquiridos responderia "a saudade". Tão nossa. Tão sentida que até merece ser escrita como nome próprio. A Saudade.

A ocupar o primeiro lugar no pódio, a Senhora Saudade mostra-se feroz para quem não pode ver quem ama todos os dias, ou apenas no dia em que lhe apetecer. Estar longe de quem amamos custa muito. Estar longe dos nossos familiares, dos nossos amigos, dos que nos viram crescer, daqueles que vimos crescer dói, dói tanto que nos faz querer desistir, faz-nos questionar de todas as decisões até ali tomadas. Faz-nos chorar. Sozinhos e em surdina para que ninguém nos perturbe o momento dramático. Mas é também ela que nos dá força para aguentar "só mais um bocadinho". A saudade faz-nos sentir humanos e, num mundo que cada vez mais se mostra selvagem, em alguns casos, assume funções de prancha de salvação.

Em pequena descobri uma teoria: a do hábito. Dizia alguém que se repetirmos determinado comportamento durante 23 dias seguidos esse comportamento torna-se um hábito. Passaram-se dois anos e nove meses desde que cheguei a Macau e eu habituei-me à saudade. Não nego, nem escondo. Habituei-me e isso faz-me ver o mundo de uma forma completamente diferente, mas, principalmente, senti-lo. A saudade aqui continua mas agora está disfarçada, parece que se afasta para depois voltar com um letreiro luminoso às costas "não te livras de mim assim". É uma saudade adulta, daquelas que arranjou maturidade por aí, nas voltas que foi dando. Faz-se notar de forma descarada em determinadas alturas, principalmente nesta, no Natal. Traz consigo memórias de mesas cheias de sorrisos e calor dos abraços. Depois volta a desaparecer. Ou a esconder-se.

 
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