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Luso-descendentes e herança cultural
Entrevista com Dulce Maria Scott
Dulce Maria Scott nasceu em São Miguel, Açores, e emigrou para os EUA com 18 anos. É licenciada em sociologia e ciência política pela Universidade de Massachusetts, Dartmouth. Concluiu o mestrado em ciência política e doutorou-se em sociologia na Brown University, Rhode Island. +

Atualmente, é professora na Anderson University, Indiana, e investigadora no Institute for Portuguese and Lusophone World Studies, no Rhode Island College. É fundadora da revista científica Interdisciplinary Journal of Portuguese Diaspora Studies. Os seus interesses de investigação incluem a imigração, etnicidade e raça na América e os seus estudos mais recentes têm incidido sobre os luso-descendentes.

 

Entrevista realizada por escrito em 12 e 13 de setembro de 2012, por Filipa Pinho,
revista para publicação em outubro de 2017.
Também disponível em PDF na série OEm Conversations With.

 

Observatório da Emigração (à frente OEm) – Como começou a estudar a imigração portuguesa nos EUA?

Dulce Scott (à frente DS) – Eu moro e leciono no Centro-Oeste dos EUA, longe de uma comunidade portuguesa estabelecida. Por isso, os meus esforços de investigação foram concentrados noutros grupos étnicos e imigrantes nos EUA. No entanto, também desejava estudar os portugueses, porque sempre me preocupou a existência de tantos estereótipos e ideias preconcebidas sobre os imigrantes portugueses e os seus descendentes nos EUA. A minha preocupação concreta era com a ideia do “excepcionalismo português”, ou seja, o pressuposto de que, de alguma forma, o caminho da integração dos portugueses na sociedade americana era essencialmente diferente do que era percorrido por outros grupos imigrantes. O excepcionalismo era atribuído a características culturais portuguesas, as quais eram vistas como impeditivas de que este grupo étnico atingisse uma plena integração cultural e socioeconómica na sociedade americana. Para começar, no pensamento sociológico corrente, o caminho para a integração de qualquer grupo é determinado não apenas pela cultura, mas por uma série de fatores e interações entre eles. Alguns destes fatores estão relacionados com atributos culturais e socioeconómicos que os imigrantes trazem, incluindo a sua estrutura familiar, os seus níveis de educação e competências profissionais, a sua classe social. Ainda de particular significado causal é a interação dos atributos culturais e estruturais dos imigrantes com as condições encontradas, depois da chegada, na sociedade de acolhimento. As últimas incluem a estrutura de oportunidades económicas, o contexto de receção (se os imigrantes são, ou não, bem recebidos pelo grupo dominante e pelos outros grupos étnicos) e as características das comunidades étnicas pré-existentes no país de acolhimento. Todos estes fatores são também influenciados pelos contextos políticos e de política pública envolventes aquando da chegada. Em segundo lugar, com base no meu estudo de outros grupos étnicos nos EUA, pareceu-me que a via seguida pelos portugueses para a integração não foi essencialmente diferente da de outros grupos que, tal como eles, chegaram a este país com níveis baixos de escolaridade e com poucas habilitações técnicas e profissionais. A minha capacidade para estudar os portugueses, contudo, era limitada. Dado que há comunidades portuguesas em vários estados americanos, seria praticamente impossível e muito oneroso empregar técnicas de amostragem que trouxessem resultados representativos da população luso-americana. Acabei por decidir fazer um inquérito online. Embora o estudo não seja representativo da população luso-descendente, consegui obter respostas de pessoas que vivem nas áreas de maior concentração, assim como de respondentes que vivem fora das comunidades portuguesas. Sendo um inquérito online, captou segmentos de população luso-descendente com altos níveis de qualificações académicas, de rendimento e de participação política. Desde 2010, tenho também conduzido entrevistas em profundidade a vários luso-descendentes de várias gerações. Faço investigação de campo durante o verão, quando me é possível viajar para áreas de concentração portuguesa.

 

OEm – O inquérito online produziu respostas de mais de 1,500 luso-descendentes. Quantas gerações estão incluídas e como as define?

DS Na sociologia americana, as gerações são definidas da seguinte forma: primeira geração, as pessoas que imigraram já adultas; geração um e meio, crianças, dos 0 aos 14 anos, que vieram com os pais ou com quem cuidava deles; segunda geração, filhos já nascidos na América, dos imigrantes; terceira geração, netos da geração de imigrantes; quarta geração, bisnetos de imigrantes. O inquérito foi concebido para recolher as experiências de quem já tinha nascido ou crescido nos Estados Unidos da América e no Canadá e, como tal, não incluiu a primeira geração. Depois de eu ter inserido os dados e ter eliminado as respostas incompletas ou não elegíveis, fiquei com um total de 1,531 casos utilizáveis, 1,201 dos EUA e 330 do Canadá. A distribuição do número de respondentes por geração foi a seguinte: geração um e meio, 493; segunda geração, 708; terceira geração, 212; quarta geração (e mais), 118. A geração um e meio e segunda geração são descendentes de imigrantes pós 1960. Os respondentes da terceira e quarta gerações são predominantemente descendentes de imigrantes do final do século XIX e princípios do século XX. Contudo, também tive participação de pessoas mais novas que já são netas de imigrados após 1960. Como a imigração no Canadá não começou antes de 1953, a maior parte dos respondentes das terceira e quarta gerações eram dos Estados Unidos.

 

OEm – Com esse inquérito, e com as entrevistas em profundidade que aplicou aos luso-descendentes na Califórnia e na Nova Inglaterra, foi possível fazer a investigação focada em vários aspetos culturais, sociais e económicos relacionados com a integração dos imigrantes portugueses e seus descendentes. Pode dizer-nos mais sobre os objetivos deste seu projeto?

DS – O principal objetivo da minha investigação em curso tem sido o de aumentar a compreensão académica sobre o processo multigeracional e multifacetado de integração na sociedade americana vivido pelos imigrantes portugueses e seus descendentes. Além da trajetória socioeconómica dos portugueses, à medida que se integraram, eu também estava interessada em compreender os fatores que influenciaram os processos de formação de identidade étnica, assim como o desejo de serem identificados como portugueses, de participarem na vida sociocultural e organizacional das comunidades étnicas e de visitarem Portugal e manterem uma ligação com o país. Outros fatores causais relacionais que eu tentei medir incluem: os níveis de preconceito e de discriminação vividos pelos portugueses de diferentes gerações imigrantes e em diferentes períodos no seu percurso de integração; o tipo de aculturação que viveram e se foi consonante ou dissonante, ou seja, se houve choques culturais e conflitos entre pais e filhos, e se os pais tiveram a capacidade de orientar a integração dos seus filhos nas instituições da sociedade dominante, tais como o sistema escolar; o estatuto socioeconómico dos pais; o tipo de vizinhança no qual os luso-descendentes cresceram (num continuum desde zonas urbanas centrais, a suburbanas e rurais), assim como saber o quão étnica é a vizinhança; o tipo de escolas que os respondentes frequentaram (públicas, privadas, paroquiais, rurais, etc.; o nível de inserção dos respondentes em estruturas organizacionais portuguesas e da sociedade de acolhimento, à medida que foram crescendo, e como adultos; o nível de interação social mantido pelos respondentes com portugueses e com outros americanos, à medida que foram crescendo, e como adultos.

 

OEm – O que pode dizer-nos relativamente aos resultados? E sobre as pessoas das diferentes gerações que participaram no seu estudo?

DS – Como demoraria muito tempo a descrever o que descobri, vou focar-me no contexto de receção e no efeito que teve nos processos de formação de identidade étnica. As minhas conclusões resultam do inquérito e das entrevistas em profundidade e são igualmente esclarecidas com observações feitas pelos académicos que se preocupam com estes processos entre os grupos mais antigos de imigrantes na América, assim como entre as populações imigrantes minoritárias atuais. Em 1938, o historiador Marcus Lee Hansen elaborou o que se ficou a conhecer como Hansen's Law (Lei de Hansen), ou seja, “o princípio do interesse da terceira geração” que argumenta que “o que o filho quer esquecer, o neto quer recordar”. No início do século do século XX, para os imigrantes, incluindo os portugueses, como me foi confirmado pelos meus entrevistados septuagenários e octogenários, a integração na sociedade americana aconteceu frequentemente num contexto de receção negativa, onde os imigrantes e os seus filhos nascidos na América suportaram as dificuldades da discriminação, estereótipos, preconceito e desvalorização da cultura de origem por parte dos membros do grupo dominante. Sob pressão para se americanizarem, para que assim lhes fosse possível atingir aceitação e sucesso na América, os filhos dos imigrantes foram frequentemente empurrados para abandonarem a sua cultura de origem e a sua língua ancestral. Os netos dos imigrantes, no entanto, de acordo com a Lei de Hansen, já integrados e aceites em pé de igualdade com outros americanos, e num momento em que “ser étnico” já não acarretava custos económicos nem psicológicos, puderam dar-se ao luxo de adotar uma identidade étnica. Isto, como alguns académicos apontaram, possibilitou uma espécie de “revivalismo étnico” entre os netos de imigrantes nos Estados Unidos, e esse revivalismo parece estar a ocorrer agora entre os luso-descendentes. Para os luso-americanos que se encontram já bem integrados e que, ao contrário dos seus antepassados, não sofreram as dores e os traumas da integração nem o choque de culturas, a etnicidade pode tornar-se, como argumentou o sociólogo Herbert Gans, “simbólica”. Ou seja, como americanos plenamente aceites e integrados, os luso-descendentes crescentemente viverão a sua etnicidade meramente como consumidores de símbolos, incluindo a gastronomia. Isto explica como, por exemplo, há tanto interesse entre os luso-descendentes por receitas culinárias portuguesas que são trocadas através de sites sociais na Internet. Herbert Gans também argumentou que os símbolos da etnicidade têm de estar apoiados em algo real e que, ao longo do tempo, à medida que as comunidades étnicas se vão diluindo, a importância relativa do país de origem para ancorar a identidade étnica vai aumentando.

 

OEm – E sobre os imigrantes pós 1960?

DS – Muitos membros da geração um e meio, a maioria dos quais têm agora entre 40 e 60 anos, também referiram ter experienciado níveis elevados de preconceito e discriminação. Descreveram a sua integração no sistema escolar americano como traumática e dolorosa. Falaram de danos psicológicos causados por maus tratos por outras crianças e pelas expectativas negativas que os professores e os orientadores escolares tinham dos imigrantes portugueses. Os filhos dos imigrantes já nascidos na América, por outro lado, foram menos propensos a afirmar que tinham vivenciado preconceito e discriminação enquanto cresciam. No entanto, alguns deles, ao absorverem a visão geral anti-imigrante e antiportuguesa que existia em redor, rejeitaram a sua cultura de origem a favor da assimilação. Há indivíduos da segunda geração que ainda criticam os seus pais por terem permanecido inseridos nas comunidades portuguesas e na sua cultura, tendo assim falhado na integração na sociedade americana em geral. A maioria dos luso-descendentes, no entanto, já não sente pressão para se assimilar. Não só a América, depois dos movimentos dos direitos civis, se tornou mais aberta à diversidade étnica e ao multiculturalismo, como também os portugueses começaram a ser considerados, nos círculos oficiais, como “um grupo imigrante estabelecido”. Hoje em dia é cool ser português. Adicionalmente, como observado por diversos académicos, muitos filhos de grupos raciais e étnicos na América, quando confrontados com preconceito e discriminação contra o seu grupo, na realidade entram num processo reativo de formação de identidade, o que os conduz a “reforçar” a sua identidade étnica. Este processo foi associado à emergência das políticas de identidade na América depois do movimento dos direitos civis nos anos 1960. Embora as políticas de identidade tenham sido associadas a grupos étnicos minoritários, também conduziram à intensificação generalizada da identificação étnica entre todos os grupos na América, incluindo os portugueses. Na minha investigação, as pessoas com menos de 30 anos expressaram globalmente não ter sentido preconceito contra os portugueses à medida que foram crescendo, e também afirmaram enfaticamente que tinham orgulho em ser portugueses, ao mesmo tempo que são americanos. Não viam contradição em ter as duas identidades em simultâneo, porque, afinal, como muitos perguntaram: “não é isso exatamente que significa ser americano, ser multicultural?” Este é um sentimento agora largamente partilhado pelas pessoas de todas as gerações e de todas as vagas de imigrantes. Na sua maioria, os luso-descendentes sentem uma grande lealdade para com a nação americana e orgulham-se de ser americanos, mas também sentem que, numa sociedade que se está a tornar cada vez mais multicultural e multiétnica, é importante manter a herança cultural portuguesa viva, e que é a eles que cabe fazer isso. É neste contexto de perceção positiva em relação à etnicidade portuguesa na América que encontramos, entre pessoas de todas as gerações, incluindo os descendentes dos antigos imigrantes que não se inseriram totalmente na sociedade americana mais alargada, o desejo de descobrir a sua etnicidade, a sua genealogia, o país dos seus antepassados.

 

OEm – Qual é a perceção que os luso-descendentes têm dos seus antepassados?

DS – Eu acredito que estamos agora a passar por um processo de reconstrução de quem somos e de quem foram os nossos antepassados imigrantes. Ou seja, em vez de pessoas com uma cultura atrasada, que não conseguiam integrar-se na sociedade americana, os antepassados imigrantes estão a ser romantizados como figuras míticas e heroicas. Eram pessoas muito corajosas, que se aventuraram no desconhecido e suportaram muitas dificuldades, que conseguiram triunfar porque trabalharam muito e tinham fortes valores culturais e familiares. E estamos-lhes muito agradecidos porque é graças ao que eles fizeram e a todos os seus sacrifícios que podemos usufruir da vida que hoje temos na América. Das várias entrevistas em profundidade, posso encontrar uma caracterização dos nossos pais e avós como tendo valores familiares fortes, como sendo muito trabalhadores, autoconfiantes, honestos e severos com os filhos. Teria sido tudo isto que lhes permitiu adquirir casa própria, educar os filhos e fazer contribuições valiosas para a cultura e a economia das comunidades onde viveram. Vários dos meus entrevistados contrastaram os seus antepassados com novos imigrantes que supostamente vieram para a América à espera de auxílios estatais e que não educam os seus filhos convenientemente, criando assim problemas em vez de contribuírem para o bem-estar da sociedade, como os portugueses teriam feito.

 

OEm – Como é que veem Portugal?

DS – Os resultados do inquérito demonstraram que nas pessoas da geração um e meio e da segunda geração havia mais probabilidade de terem visitado Portugal, em alguns casos várias vezes, do que entre os netos e os bisnetos dos imigrantes do início do século XX. No entanto, há muitos netos e bisnetos, alguns só parcialmente portugueses, muito interessados em ir a Portugal investigar a sua genealogia e ver os lugares de onde os seus antepassados são originários. Várias pessoas descreveram as suas visitas a Portugal em termos muito emocionais, como uma experiência espiritual, como o fecho de um círculo e como o conciliar-se consigo próprios. Os luso-descendentes de todas as gerações que visitaram Portugal na década passada disseram-me que se apaixonaram com a beleza natural, a comida e as tradições, as áreas rurais pitorescas, assim como as grandes cidades cosmopolitas.

 

OEm – Como é que foram os seus percursos educacionais e económicos relativamente aos seus pais e avós? Houve mobilidade social?

DS – Como referi, o inquérito captou um segmento muito qualificado da população luso-descendente, o qual não é representativo de toda a população luso-americana. No entanto, um facto patente no meu inquérito é que a maioria dos que obtiveram níveis escolares elevados tinha pais que não terminaram a escola secundária. Adicionalmente, embora os respondentes estivessem, em grande medida, integrados em profissões qualificadas, a maioria dos seus pais esteve envolvida em trabalhos manuais na agricultura, têxteis, pesca, construção e serviço doméstico. Assim, para o grupo que respondeu ao inquérito, o progresso educacional e profissional de uma geração para a seguinte foi fenomenal. No que respeita à totalidade da população portuguesa americana, os dados do American Community Survey colocam a taxa de escolaridade superior nos 23% e a taxa de escolaridade secundária nos 82,6%. Para os que nasceram em Portugal, só 9,5% completaram a educação universitária. Houve, assim, progressos educacionais da geração imigrante para a geração luso-descendente. Os dados oficiais mostram, também, uma progressão geral do trabalho manual para as profissões de colarinho branco, entre as gerações imigrante e a nascida na América.

 

OEm – O seu projeto mais recente centra-se na incorporação política dos portugueses americanos em Rhode Island e Massachusetts, desde o início do século XX. Nos anos mais recentes, houve um aumento percetível na eleição de portugueses e luso-descendentes para cargos políticos nos EUA. Como explica esse aumento?

DS – Primeiro, deixe-me dizer-lhe que a participação de portugueses em cargos políticos elegíveis não é um fenómeno recente. Os portugueses serviram em várias posições nos governos municipais e nas legislaturas estaduais durante décadas, mas a sua presença pode não ter sido notada pelos académicos ou pelos média. Hoje em dia, devido às novas tecnologias de comunicação, qualquer português que seja eleito para um cargo político em qualquer ponto dos EUA torna-se instantaneamente visível a todos os portugueses americanos. Assim, o que parece ser um aumento súbito no número de portugueses eleitos para cargos políticos pode ser, na realidade, apenas uma progressão normal e regular no nível de incorporação política do grupo étnico. É uma progressão com paralelismo nos outros avanços educacionais e socioeconómicos feitos pelos luso-descendentes relativamente à geração dos seus pais. Em Rhode Island, desde 1937, houve 58 pessoas de origem portuguesa, seis cabo-verdianas e uma brasileira que foram eleitas para a Assembleia do Estado, 20 das quais exercendo o cargo de senador. Houve anos em que a percentagem de assentos ocupados por portugueses na Assembleia excedeu a percentagem (cerca de 10%) da população do Estado que afirmava ter origem portuguesa. Em Rhode Island, os portugueses também têm exercido cargos de juízes, têm assumido posições de liderança no Partido Democrático, têm sido líderes de topo nas organizações sindicais, têm exercido cargos políticos eleitos e de nomeação a nível local e estadual. Em Massachusetts, onde os portugueses constituem menos de 5% da população do estado, cerca de 40 luso-americanos exerceram cargos políticos na legislatura do Estado, desde 1927. Além disso, várias pessoas exerceram cargos políticos eleitos e de nomeação a nível estadual e municipal.

 

OEm – Quer contar-nos mais sobre esta investigação?

DS – Eu estou envolvida nesta investigação desde 2011, depois de me ter associado ao Institute for Portuguese and Lusophone World Studies no Rhode Island College. A diretora do Instituto, Marie Fraley, e os estudantes da universidade já tinham feito entrevistas em vídeo com cinco senadores estaduais luso-americanos de East Providence, que tinham ocupado o mesmo assento consecutivamente desde 1959. O grande número de pessoas de East Providence eleitas para a Assembleia do Estado, quer como representantes quer como senadores, bem como a manutenção do mesmo assento no Senado sempre por luso-americanos parecia-nos ser um fenómeno muito interessante. Decidimos aprofundar mais para podermos identificar os fatores que explicavam um nível tão elevado de participação política por membros de um grupo étnico que tem sido geralmente assumido como apolítico. O que descobrimos foi que houve uma confluência de fatores estruturais conducente a níveis elevados de envolvimento político pelos portugueses. Entre estes fatores encontram-se um sistema politico bipartidário competitivo que começou por incorporar portugueses nas suas listas como forma de atrair o voto deste grupo étnico; um movimento operário forte, muito associado ao Partido Democrático, no qual os trabalhadores fabris portugueses assumiram posições de liderança e a partir do qual mais tarde alguns vieram a ser políticos; organizações comunitárias fortes, algumas associadas à Igreja e à organização da Festa do Espírito Santo, que se tornaram politizadas em resultado de terem, como membros, indivíduos que eram líderes políticos; e uma concentração de votantes portugueses em distritos eleitorais relativamente pequenos.

 

OEm – Quais serão os próximos passos da sua pesquisa?

DS – Neste Verão de 2012 recolhi dados históricos sobre a incorporação política dos portugueses em cinco cidades de Rhode Island e Massachusetts: East Providence, Providence, Taunton, Fall River e New Bedford. Estou a tentar identificar fatores que expliquem as diferenças e as semelhanças no processo de integração política dos portugueses nestas cidades. Por exemplo, na cidade de New Bedford, o primeiro português americano a ser eleito para cargos políticos, no caso para a câmara municipal, foi John Fernandes, que concorreu como independente em 1895, vencendo as eleições derrotando os candidatos que faziam parte das listas dos dois partidos políticos. No ano seguinte, dois portugueses americanos foram eleitos para a câmara municipal de New Bedford, depois de terem sido incluídos nas listas eleitorais dos dois partidos políticos rivais. Contudo, em Fall River, só em 1930 foi eleito o primeiro português e em Taunton e East Providence tal não aconteceu antes de 1940. Além disso, em East Providence, as primeiras posições políticas ocupadas por portugueses foram ao nível legislativo do Estado e não ao nível municipal. Isto contradiz a teoria que sugere que os imigrantes primeiro obtêm acesso político nos níveis mais baixos e só depois têm acesso a níveis mais elevados. Porque é que não aconteceu assim com os portugueses em East Providence? A incorporação política dos portugueses mais cedo, em New Bedford, pode ser em parte explicada pelos padrões de imigração e fixação deste grupo imigrante nos Estados Unidos, desde os meados do século XIX até ao início da década de 1920. Devido à indústria da baleia, que levou os portugueses a fixarem-se em New Bedford mais cedo, a comunidade portuguesa desta cidade encontrava-se, no fim do século XIX, mais bem estabelecida do que as das outras cidades que fazem parte do meu estudo. No entanto, há outros fatores, incluindo os que mencionei antes, que também podem ter tido impacto na incorporação anterior em New Bedford. Por exemplo, New Bedford, no fim do século XIX e início do século XX, tinha um sistema eleitoral muito competitivo e os partidos políticos não podiam ignorar o poder de voto dos portugueses, como lhes foi demonstrado pela eleição de John Fernandes em 1895 como candidato independente. Os partidos trabalhavam em conjunto com organizações como o Portuguese-American Political and Naturalization Club, que desempenhava um papel instrumental na mobilização do voto português. Também havia vários grupos étnicos em competição pelo poder em New Bedford, enquanto em algumas outras cidades os irlandeses americanos detinham um controlo total sobre o sistema político e isso impedia o acesso às instâncias de poder por parte de membros de grupos recém-chegados. Em 1938, New Bedford adotou um sistema eleitoral não partidário individualista, que eliminou a participação dos partidos políticos em eleições municipais. Alguns académicos têm argumentado que sistemas eleitorais não partidários são prejudiciais à integração política dos imigrantes recém-chegados. É possível que mudanças no sistema eleitoral das cidades de Massachusetts tenham tido efeitos negativos na incorporação política contínua dos portugueses nesse estado. Assim, o próximo passo no meu projeto é fazer um relato histórico da incorporação política dos portugueses em cinco cidades da Nova Inglaterra e identificar os fatores que levaram esse processo a seguir um caminho semelhante ou diferente em cada cidade. Tenho esperança que este estudo do caso português contribua para uma compreensão teórica mais alargada dos processos relacionados com a incorporação política dos grupos imigrantes na América, assim como noutras sociedades de acolhimento de imigrantes.

 

Como citar  Pinho, Filipa (2012), “Luso-descendentes e herança cultural: entrevista com Dulce Maria Scott”, Observatório da Emigração, 12 e 13 de setembro de 2012, revista para publicação em outubro de 2017. http://www.observatorioemigracao.pt/np4/4688.html

 

Versão disponível em PDF na série OEm Conversations With.

 

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