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Emigrantes portugueses foram os "substitutos da queda do Império"
2015-02-23
Os emigrantes portugueses foram os "substitutos da queda do Império", disse à Lusa Victor Pereira, professor de história contemporânea na Universidade de Pau, sul de França, num debate sobre os preconceitos associados a Portugal e à emigração, em Paris.

"Esse discurso foi construído pelo Estado português mas também é reapropriado por muitos emigrantes. Depois da perda do Império - e daquela imagem do Minho a Timor, de Portugal com uma vocação universal - os portugueses no estrangeiro foram substitutos da queda do império. Eles mostraram que Portugal não era um país pequeno, que havia portugueses em tudo o que era mundo, da China até à França, passando pelos Estados Unidos e pelo Brasil", continuou o também autor de "A Ditadura de Salazar e a Emigração".

O debate sobre os preconceitos associados a Portugal e à emigração, que teve lugar no café cultural Lusofolie's, em Paris, teve como mote a apresentação do livro "Este país não existe. Textos contra ideias feitas", da coleção do Le Monde Diplomatique e da Deriva Editores, "uma compilação de vários textos publicados nos últimos anos na edição portuguesa de Le Monde Diplomatique" em que "os autores procuram desconstruir os estereótipos" ligados à imagem de Portugal, explicou Victor Pereira.

No seu texto, "Portugalidade para exportação: emigração e comunidades portuguesas", Victor Pereira falou sobre "o discurso hegemónico sobre a emigração portuguesa desde os anos 70" que tende a "falar dos portugueses no estrangeiro - os tais cinco milhões - como uma comunidade", esquecendo que "alguns nem sequer querem regressar a Portugal".

É o caso de Baptista de Matos, que trabalhou 30 anos no metro de Paris e que cedeu vários documentos sobre a emigração portuguesa ao Museu da História da Imigração, em Paris.

"Com 80 anos, não consigo regressar a Portugal. A França deu-me uma coisa fantástica: a liberdade de expressão, de trabalhar, de amar. Aprendi a ser solidário, aprendi a ser português como Camões. Cinquenta anos depois, muitos não querem regressar a Portugal porque fomos muito bem tratados em França", declarou Baptista de Matos que, em 1963, trocou a Batalha, em Portugal, por Champigny-sur-Marne, nos arredores de Paris.

Ex-conselheiro das comunidades portuguesas e presidente de honra da Associação de Fontenay-sous-Bois, perto de Paris, Baptista de Matos recordou que "em Champigny-sur-Marne, havia 15 mil portugueses nos bairros de lata" e muitos "não sabiam assinar o próprio nome" porque "foi a ditadura de Salazar que lhes fez isso".

O moderador do debate Daniel Ribeiro, correspondente em Paris do jornal português Expresso e a viver em França há 35 anos, acrescentou que "a emigração é qualquer coisa crónica, uma marca essencial de Portugal desde há muitos anos".

O perfil dos emigrantes tem mudado, de acordo com João Heitor, o diretor do Lusofolie's, que disse que desde que abriu o café cultural vê "toda uma nova emigração, de jovens talentos, músicos, artistas, jornalistas, cientistas que procuram um porto de abrigo".

 

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