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Portugueses preparam-se para entrar na era Zuma
2009-04-22

Por Patrícia Viega

África do Sul

As eleições legislativas de hoje são o quarto escrutínio democrático do pós-'apartheid' e, segundo as sondagens, o ANC deverá voltar a ganhar, podendo eleger, assim, Zuma como Presidente. Os portugueses e lusodescendentes no país estão apreensivos, oscilando entre o receio do populismo e a esperança.

Ir à agência de viagens de Silvério Silva, em Joanesburgo, é como entrar numa fortificação bancária. À porta, um segurança faz a primeira triagem dos clientes, vê se são conhecidos, passa o detector de armas. A seguir, entram, um de cada vez, através de uma porta dupla.

"Há oito anos tive problemas, com indivíduos que entraram aqui, com armas na mão, para roubar, criaram um clima de terror. Mas desde que tomei medidas nunca mais aconteceu e, este ano, os empresários portugueses ainda não tiveram grandes problemas", conta ao DN, por telefone, o emigrante de 68 anos, que em 1964 foi viver para a África do Sul.

A criminalidade é um dos principais problemas do país e um dos que mais preocupa os portugueses e luso-descendentes que ali vivem. Por isso, esperam que Jacob Zuma, o mais que provável novo presidente sul-africano, a ser eleito pelo Parlamento que sair das eleições legislativas de hoje, faça da segurança uma prioridade. Apreensivos, oscilando entre o receio e a esperança, os emigrantes e seus descendentes preparam-se para entrar na era Zuma após o escrutínio de hoje.

Neste, a vitória do Congresso Nacional Africano, ANC, não será uma surpresa. A única incógnita será saber se o partido, que nestas legislativas é afrontado por uma cisão, o Congresso do Povo, Cope, mantém os dois terços que tem no Parlamento. O ANC, do histórico Nelson Mandela, que em 1994 se tornou o primeiro Presidente negro da África do Sul, ainda beneficia do facto de ter lutado contra o regime racista branco do apartheid e de ter conseguido fazer emergir uma classe média negra.

"No Soweto [subúrbios de Joanesburgo] há hoje mais carros de luxo do que em Sandton, que era o bairro chique dos brancos", diz ao DN, por telefone, o advogado lusodescendente José Nascimento, admitindo, porém, que muita da riqueza ainda está nas mãos dos brancos.

"Leva tempo porque não houve nacionalizações, não houve uma situação de tirar a A e dar a B", explica este apoiante do ANC, de 50 anos, que acaba de regressar do lançamento de uma biografia de Kgalema Motlanthe, o vice-presidente do ANC que assegura interinamente a chefia do Estado sul-africano desde Setembro. Este foi o mês em que Thabo Mbeki, o polémico sucessor de Mandela na chefia do partido e do país, se viu obrigado a pedir a demissão por acusações de manipulação da justiça para prejudicar Zuma.

Nascimento esclarece que não acredita, no entanto, que Zuma caia na tentação de fazer expropriações à moda de Robert Mugabe. É que 80% das terras ainda pertencem aos brancos. Acusado pelos media ocidentais de populismo, fraca cultura, o actual presidente do ANC, de etnia zulu, reafirmou nos últimos dias que usará uma "maioria de forma responsável" e que o ANC é "um partido de negros e de brancos".

"Nos próximos dez ou 15 anos não vejo a oposição a tirar o ANC do poder. Mas o meu desejo é que a oposição consiga impedir que eles tenham maioria, pois assim a casa ficava mais equilibrada", diz ao DN, por telefone, José Valentim, empresário na área da metalo-cerâmica. Este emigrante de 68 anos, que em 1974 chegou à África do Sul, queixa-se da recessão europeia, problema que se veio juntar à criminalidade que afecta muitos dos 350 mil portugueses.

"Zuma prometeu combater a criminalidade. Até porque haverá o Mundial de Futebol de 2010. E não será aceitável que não haja segurança", explica ao DN José Carlos Garcez, de 61 anos. Este médico de clínica geral, na África do Sul desde 1975, considera que a era Mbeki foi tempo perdido na luta contra a Sida. O homem que inspirou a cisão do ANC sempre rejeitou o problema, agravado pelas mezinhas caseiras da ex-ministra da Saúde, que aconselhava os infectados com o HIV/Sida a esfregarem-se com alho.

Candidato pela Aliança Democrática, partido da oposição originado nos brancos que lutaram contra o Apartheid, Manny de Freitas, luso-descendente filho de madeirenses, de 40 anos, assegura que "Zuma é corrupto". E que, apesar de o Ministério Público ter retirado este mês todas as acusações contra ele, a AD pretende recorrer para o Tribunal Constitucional. E quanto às relações do próximo presidente com a comunidade? "Aos portugueses diz que são importantes. Depois vai ter com os afrikanders e diz-lhe que eles são os únicos brancos legítimos na África do Sul. Ele fala consoante a audiência que tem".

Diário de Notícias, aqui, acedido em 04 de Maio de 2009

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