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Os receios dos emigrantes portugueses em Paris
2015-01-11

Inês de Medeiros, atriz e deputada portuguesa, viveu muitos anos em Paris, cidade aonde volta quatro ou cinco vezes por ano. Apesar do estado de sítio em que se encontra a capital francesa desde quarta-feira, data dos ataques ao jornal Charlie Hebdo, era aí que queria estar agora. "Tenho uma relação com aquela cidade que em vez de dizer - ‘Estou aqui em abrigo' - apetece-me lá estar. Por mim ia lá domingo para a marcha pela República, mas não posso", disse ao Observador.

Fátima Lopes, estilista que divide o tempo entre Lisboa e Paris, onde tem um atelier de alta-costura, fez um desabafo diferente: "Felizmente estou cá". Até porque, lembra, a "sua" Paris é diferente da cidade onde homens armados invadiram a redação de um jornal e assassinaram doze pessoas ou onde uma ida ao supermercado de repente se tornou numa tomada de reféns. "Para mim, Paris é pacífica, tranquila. Nunca me senti insegura. Ando em Paris como ando em Portugal, exatamente da mesma maneira".

A semelhança motivou um receio: "Se isto pode acontecer em Paris, então pode acontecer aqui ao lado. Pensamos sempre que não nos acontece a nós. Esta é uma ameaça que vem sendo feita há muito tempo. É uma ameaça real e não é apenas para os franceses."

A luso-francesa Cátia Coelho, que nasceu e viveu em Paris durante 42 anos, diz que mesmo com a tensão palpável dos últimos meses, ninguém podia antecipar um ataque. "Não estávamos à espera de um ataque ao coração da República, à liberdade de expressão", disse ao Observador. Até porque, como lembrou Inês de Medeiros, são mais os momentos em o "plan vigipirate" - o plano de vigilância e alerta - está ativado do que os momentos de normalidade. Por isso mesmo, disse a atriz, os parisienses já se habituaram aos polícias de metralhadora às portas das estações de metro.

 

O discurso do medo

Cátia Coelho cresceu num bairro com várias comunidades de imigrantes. Frequentou a escola com alunos do mundo inteiro e, apesar de se lembrar de ouvir falar da palavra "racismo" desde muito cedo, não se lembra da existência de tensões sociais antes do início dos anos 2000. "Começou tudo quando o Sarkozy se tornou ministro do Interior", garante. Para esta jornalista, a tensão social foi um produto do discurso político que endureceu após o 11 de setembro. "O problema veio do Estado. Os políticos meteram-se todos com a questão da segurança, a segurança", disse, defendendo, de seguida: "Não havia problema nenhum com a segurança".

A jornalista recorda o início da "estigmatização dos estrangeiros, sobretudo dos argelinos" e o aumento dos poderes - que passaram a "super-poderes", disse - dos polícias nas ruas. A jornalista pensa que os políticos produzem e manipulam o medo e, como resultado, o medo "começa a existir" e as "pessoas ficam com medo de coisas que não existem", passando a "olhar umas para as outras nas ruas" num ambiente "um pouco elétrico".

Estranhamente, ou talvez não, o ataque de quarta-feira como que suspendeu o clima de crispação e divisão política que se tem sentido nos últimos tempos, disse Cátia Coelho ao Observador. "Estive a minha vida toda em Paris e nunca senti tanta solidariedade entre as pessoas como a que vejo agora. Há uma grande unidade nacional porque sentimos a República em perigo. A democracia, os direitos do homem... são valores que sentimos como nossos. Isso está a dar uma grande força".

 

Ninguém quer ceder ao medo, mas o medo existe

Mas Cátia Coelho teme que esta fase de unidade seja passageira. "Por enquanto o país está em choque, mas a próxima etapa será continuar a dividir as pessoas e a Frente Nacional vai aproveitar-se disso. Vai começar o debate: os terroristas são franceses no Bilhete de Identidade, mas não de sangue", disse.

Inês de Medeiros pensa que a união e a solidariedade vão ocorrer em simultâneo com os ataques às mesquitas e a mercearias muçulmanas e ao endurecimento do discurso da Frente Nacional [Marine Le Pen já pediu um referendo sobre a pena de morte e a suspensão dos acordos de Schengen] que, na sua opinião, "aproveita tudo". Sobre a questão do encerramento das fronteiras europeias, a atriz portuguesa sublinha "o absurdo": "Os dois irmãos [alegados autores do ataque contra o Charlie Hebdo] eram franceses. Podem fechar Schengen à vontade. Isso não teria impedido estes ataques de ocorrerem".

A deputada sublinhou ao Observador a força do "sentimento coletivo" na sociedade francesa e a união que existe, neste momento, sobre a necessidade de "combater o medo". Referindo-se aos relatos feitos por amigos e familiares em Paris, Inês de Medeiros diz que este "é um momento muito difícil em que todos querem dar provas de que não cedem ao medo, mas têm consciência de que há um medo que paira". E esse medo poderá ter frutos. A deputada não afasta a hipótese de toda esta situação ter "consequências nos próximos atos eleitorais".

Inês de Medeiros falou com o Observador pouco depois de a polícia francesa ter matado os sequestradores - um em Paris e dois, suspeitos de serem os responsáveis pelos ataques ao jornal, em Dammartin-en-Goële. E expressou algum alívio pelo desfecho. "Cada hora que passava sem que eles tivessem sido capturados, mais a Frente Nacional podia gozar da sensação de que o Estado de direito estava a falhar".

 

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