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Link para inquéritoO regresso como emigração: o caso dos jovens adultos portugueses

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Regresso a Portugal já não depende só de melhor remuneração
2014-06-16
Os números atuais aproximam-se da emigração dos anos 1960, mas esta não é uma "emigração clássica" e importa agir a tempo para que os emigrantes não percam ligação com Portugal. "Parece que o Governo ainda não percebeu a dinâmica desta tendência", diz um especialista.

Os números divulgados esta segunda-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram que a emigração voltou a aumentar: os portugueses continuam a deixar o país, seja com a intenção de ficar muito ou pouco tempo fora. Quando juntamos os números dos que saem por menos de um ano com os que saem por mais que isso, ao todo são 128 mil emigrantes e, em muitos casos, mesmo os temporários já não voltam.

"Sabemos que os jovens que vão estudar fora. Se tiverem melhores condições, ficam e não voltam. Essa é uma tendência", aponta Maria Filomena Mendes, demógrafa e presidente da Associação Portuguesa de Demografia (APD).

E é aí que reside um ponto importante de análise destes números. A expectativa dos investigadores que se debruçam sobre a emigração é a de que os emigrantes temporários se vão transformando em permanentes. E ainda que os números sejam altos, Pedro Góis, professor na Universidade do Porto e investigador no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, refere ficar surpreendido pela "escassez" de alguns valores. Um deles é a quantidade de emigrantes permanentes, que contava virem a ser mais.

Essa sensação leva-o a sublinhar outra questão. "Quando confrontamos estes números com as entradas dos portugueses nos países de destino, através dos consulados, estes números ficam aquém do real", explica. Ou seja, o facto de o INE se basear num inquérito, com base no qual constrói as estimativas, pode deixar de parte alguns números e o total ser maior que o apontado.

Só que é difícil chegar a um valor concreto, em parte devido ao movimento da população. "Ninguém tem um número mágico", aponta Pedro Góis, referindo não ser isso o mais importante. "O importante é perceber que esta tendência não está a diminuir."

 

Para onde vão?

Os portugueses vão sobretudo para países da União Europeia, aponta o investigador. "Dentro destes continuam a ir para destinos tradicionais, como a França, Luxemburgo e Suíça." Inglaterra e Estados Unidos voltaram ser destinos escolhidos. Pelo contrário, a emigração para Espanha "regrediu muito". Angola, Moçambique e Brasil estão dentro da lista e há novos focos, como Dubai, Singapura, Macau e Hong Kong, que são "inícios de novos fluxos".

"As pessoas tenderão a fazer as suas carreiras no exterior", lembra Pedro Góis, que do contacto com comunidades portuguesas destaca o facto de permanecer nos emigrantes "uma vontade de não se afastarem de Portugal".

O regresso, aponta Pedro Góis, dependerá de dois fatores. Por um lado, "uma questão ligada à economia, quando começar a criar postos de trabalho". Por outro, os mercados de trabalho nos países de destino, uma variável que por vezes dita a passagem dos emigrantes temporários a permanentes. 

Além disso, aponta o investigador, para alguns o regresso já não depende apenas de uma melhor remuneração. Por trás está a mudança das relações de trabalho, ou seja, aponta Pedro Góis, "uma reforma do Estado".

Há algumas ideias que importa ter em conta. "Não podemos pensar nesta emigração como emigração clássica e parece que o Governo ainda não percebeu a dinâmica desta tendência", aponta. Correndo o risco de "esta população rejeitar interessar-se pelo país", a solução passa pela aplicação de políticas em concreto. 

 

Números preocupantes 

Maria Filomena Mendes considera estes números preocupantes do "ponto de vista demográfico, social e económico", influenciando a estrutura da população e o envelhecimento. "Tem implicações a nível da segurança social e de toda a sustentação do nosso sistema." Sendo a população jovem, ativa e em idade fértil a que mais deixa o país, a quebra da natalidade e o envelhecimento não deixarão de se acentuar. 

Para Pedro Góis, a preocupação está na continuação desta tendência. "Com o tempo pode tornar-se estrutural e ser mais difícil fazê-la regredir." 

Embora o acumular de saídas constitua já uma "perda significativa de população", evitar que os emigrantes percam a ligação a Portugal ainda é possível. "Estamos a tempo", defende, sublinhando a importância da criação de políticas nesse sentido.

Raquel Albuquerque

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