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Como estancar a emigração qualificada?
2014-03-26
Opinião de Carlos Matias Ramos

Portugal tem uma história fortemente ligada à emigração, que ocorreu mesmo em períodos de crescimento da nossa economia. De acordo com dados de 2012 do Observatório da Emigração, há, em apenas seis países europeus, cerca de 1,1 milhões de portugueses emigrados e cerca de metade reside em França. Só no ano de 2012 o número de novos emigrantes ultrapassou os 100.000, verificando-se a tendência para o aumento desse número em 2013.

A emigração nos anos mais recentes envolve fundamentalmente as faixas etárias mais jovens, onde o desemprego atingiu valores da ordem dos 42,5%, tendo muitos desses jovens um elevado nível de qualificações académicas e profissionais. Considerando apenas os portugueses que obtiveram a sua graduação académica de nível superior, estima-se que terão emigrado cerca de 20%, sendo este movimento emigratório referido como o segundo maior entre os jovens qualificados da Europa-20.

Um inquérito realizado em 2012, envolvendo estudantes das universidades portuguesas, indica que cerca de 85% têm nos seus planos emigrar após concluírem a sua formação académica. No caso dos estudantes de Engenharia, utilizando dados de um inquérito promovido pelo Instituto Superior Técnico (IST), verifica-se que a disponibilidade dos estudantes desta prestigiada instituição para trabalhar fora do país é de 4,1, numa escala de 1 a 5. Estamos, pois, perante um processo de emigração qualificada, baseada em jovens, nos quais o país apostou de forma significativa ao nível da sua formação, que vão desenvolver a sua capacidade de trabalho e de inovação em países onde a economia mais os valoriza.

A situação em Portugal, que conduz à emigração e, em particular, à emigração mais qualificada, não só de jovens mas também de quadros seniores de currículos de elevado mérito, é particularmente preocupante, designadamente nas áreas da ciência e tecnologia. Considerando dados da OCDE, relativos a recursos humanos em ciência e tecnologia, constata-se que os recursos nacionais nestas áreas representam apenas 28,7% do total dos recursos humanos, enquanto na UE-27 o valor é de 42,9%. A saída de profissionais qualificados, designadamente nestas áreas, conduz à não adequada rentabilização dos investimentos educativos, criando condições favoráveis à sua utilização pelos países terceiros.

A título indicativo refere-se, com base no LinkedIn, que existem pelo menos 1572 engenheiros diplomados pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) que exercem parte ou a totalidade da sua profissão no estrangeiro. Do IST, cerca de 20% dos engenheiros que obtiveram a sua graduação há pelo menos cinco anos estão igualmente a desenvolver a sua atividade no estrangeiro.

A emigração que conduza ao êxodo de graduados em áreas de ciência e tecnologia e não à mobilidade e à internacionalização assume particular importância num mundo globalizado, altamente competitivo e em que a diferenciação pela positiva se faz com base na inovação e no conhecimento. Um país que pretende desenvolver-se economicamente precisa de profissionais competentes, não só pelo seu nível de formação, mas principalmente pelo nível de qualificação e pelo elevado nível de desempenho profissional reconhecido dentro do respetivo mercado.

A minimização dos efeitos negativos pode ser feita, se conseguirmos que deste êxodo surtam estímulos à internacionalização da nossa economia e à mobilidade, conduzindo ao intercâmbio cultural.

Teremos de potenciar estes benefícios para que, quando a economia do nosso país recuperar e os nossos profissionais tiverem condições de regressar, com base em empresas e centros de investigação que deles necessitem, possamos passar da situação de "fuga de recursos humanos" para a de "caça aos recursos humanos".

Para atingir este objetivo é determinante que seja criado um observatório que permita acompanhar o trajeto dos quadros que trabalham no estrangeiro. Certamente que eles serão os primeiros interessados em garantir nessa plataforma o preenchimento do seu percurso profissional, que se constituirá como um instrumento onde as empresas e o meio académico poderão encontrar soluções para a melhoria da sua capacidade empresarial e de investigação.

O futuro começa hoje.

Bastonário da Ordem dos Engenheiros

 

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