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Portugueses pedem diplomacia
2013-10-21

por Joana Simões Piedade e José Maurício

O anúncio de José Eduardo dos Santos fez mossa nas empresas e trabalhadores portugueses em Angola. O SOL foi sentir o pulso à comunidade lusa por estes dias. Vistos preocupam.

O português Teixeira dos Santos, administrador do grupo MCA, empresa do ramo da construção que opera em Angola há oito anos e emprega 1.200 angolanos e 200 portugueses, defende que, em função das declarações proferidas pelo Presidente angolano, há necessidade de os responsáveis dos dois governos se sentarem e chegarem a um consenso. "Estou convencido de que alguma coisa aconteceu e muito magoou o Presidente angolano, até porque sabe-se que José Eduardo dos Santos é uma pessoa muito ponderada", observa Teixeira dos Santos.

O entrevistado pede ao PR de Portugal que tome uma posição e procure oportunidade para ir a Angola explicar ao seu homólogo que a maioria dos portugueses não tem má imagem de Angola. Por vezes "uma só maçã estragada pode estragar as outras, penso que há tempo para retirar do seio das boas maçãs aquela que não está em condições", disse, acrescentando que "as relações entre os dois países vão melhorar, mas para isso é necessário as autoridades portuguesas dizerem que não estão contra Angola".

Um outro entrevistado - que preferiu manter o anonimato - considera que as declarações referentes a Portugal proferidas pelo Chefe do Estado angolano estão relacionadas com as recentes polémicas que envolveram o ministro dos Negócios Estrangeiros Rui Machete.

Portugueses perdem mais

Para aquela fonte, o perdedor, se houver uma ruptura definitiva nas parcerias, será principalmente Portugal, que se encontra em crise, sendo Angola um mercado muito importante para a economia portuguesa. "Angola assume um papel preponderante em vários níveis para a economia de Portugal, não só na importação como também na internacionalização das empresas portuguesas e na absorção da mão-de-obra de muitos profissionais que não têm como fazer carreira profissional no país que os viu nascer", adverte.

Do lado de Angola, a desvantagem está no facto de Portugal ser a porta europeia para os negócios angolanos.

Já António Geirinhas, director da Multitel, entende que as declarações do PR angolano são do foro político. "Espero que a diplomacia dos dois países ultrapasse essa fase menos boa. Somos povos irmãos e sairemos todos a ganhar com a resolução do actual contexto. Deve reinar a harmonia nas nossas relações", conclui Geirinhas.

Vistos preocupam

"Os portugueses continuam a ter muito medo de ser expulsos de Angola. A perspectiva de voltarem para Portugal é demasiado assustadora. Quem é que quer deixar de receber bem em Angola para ir mendigar emprego em Portugal?", a pergunta surge de um jovem português, imigrante há dois anos em Angola que não revela a identidade para evitar problemas laborais. "Preferem que o Governo português peça desculpa sempre que o verniz ameaça estalar. Ainda que, no seu íntimo, acreditem que a elite angolana precisa é de ouvir umas boas verdades para deixar de ser arrogante", remata.

A eterna questão dos vistos de entrada e permanência no país é a maior preocupação. Agora "tudo pode ficar ainda mais complicado. Mesmo que não haja uma indicação oficial do Governo, sabemos que esta notícia vai servir de desculpa para muita coisa".

Joana Granja trabalha numa empresa de construção civil lusa e defende que a dimensão que a comunicação social está a dar às declarações do PR de Angola "pode ter consequências sociais graves. Quem aqui vive sabe que este tipo de notícias pode causar ondas e movimentos algo racistas na população angolana, sobretudo de uma nova geração que cresceu a ouvir que o estado em que Angola se encontra é culpa dos portugueses".

Para a professora portuguesa Rita Silva, que lecciona numa universidade angolana, colocar as relações bilaterais entre os dois países em causa nesta altura "faz sobressair o poder e a força que Angola tem demonstrado sobre um Portugal fragilizado, endividado e sem estratégias alternativas senão aquelas que tem conseguido estabelecer com países em frescura financeira".

joana.simoes@sol.co.ao
jose.mauricio@sol.co.ao

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