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A Academia do Bacalhau tem de ser uma instituição mais respeitada
2013-09-25

Por Carlos Pereira

Nos próximos dias 27, 28 e 29 de setembro, vai ter lugar em Viseu o Congresso Mundial das Academias do Bacalhau, uma instituição criada há 45 anos, em Joanesburgo, na África do Sul, e que foi alastrando pelo mundo, junto das Comunidades portuguesas.
A Academia do Bacalhau de Paris vai marcar uma forte presença em Viseu, com uma delegação de quase 50 "Compadres" e "Comadres". É gente que janta uma vez por mês, por amizade e para convívio, mas que também o faz por solidariedade e por filantropia, ajudando causas sociais.
Carlos Ferreira é empresário e está a meio do seu primeiro mandato à frente da Academia do Bacalhau de Paris.
Em vésperas de Congresso, acedeu responder às perguntas do LusoJornal.
LusoJornal: Quantos membros tem, atualmente, a Academia do Bacalhau de Paris?
Carlos Ferreira: Estamos a crescer, com o aumento dos membros ativos para mais de uma centena. Desde o início do meu mandato, já ultrapassámos a vintena de novos membros e estão em preparação novas entronizações de Compadres e Comadres. Para além destes membros, a Academia tem ainda outros aos quais atribuiu o Di-ploma de Compadre por motivos, entre outros, de natureza protocolar, como é nomeadamente o caso de antigos Embaixadores de Portugal em França ou
de Cônsules.
LusoJornal: Temos a impressão que aumentou o número de eventos. É impressão nossa?
Carlos Ferreira:É uma constatação do que na realidade tem vindo a acontecer. Aos jantares mensais, há que referir um número significativo de eventos a que a Academia esteve associada, desde a participação na estreia do filme "Cage Dorée", até à Gala na "Cité nationale de l'Histoire de l'Immigration" por ocasião do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, passando pelo apoio a um concerto de música clássica na Église des Invalides, aos jantares que organizou a nível regional, em cidades um pouco mais afastadas do centro de Paris, com vista a facilitar a participação do maior número de membros na vida da Academia e aos encontros realizados durante  o  verão  em  Portugal  com objetivos de beneficência.
LusoJornal: O objetivo é de aumentar o número de membros?
Carlos Ferreira:As atividades promovidas correspondem ao programa com que me candidatei à Academia e fazer dela uma instituição de referência na nossa Comunidade, como, em regra, são as Academias do Bacalhau nos outros continentes e países. Evidente-mente, esse é também o nosso desejo, pois quantos mais formos mais condições teremos para promover os nossos valores e alcançar os nossos objetivos, quer no âmbito da Portugalidade, quer da Solidariedade. A Amizade é a base.
LusoJornal: Podemos saber o volume de apoio que já deram?
Carlos Ferreira: Claro que sim. A Academia tem já um longo historial nessa área que honra os vários responsáveis que a dirigiram. Eu procuro seguir o exemplo e desde o início do nosso mandato já foram atribuídos perto de 15.000 euros.
LusoJornal: Temos ouvido comentários que só apoiam instituições em Portugal. Confirma isso?
Carlos Ferreira: Os comentários são parcelares, tanto mais que o principal donativo até hoje atribuído foi a uma associação com sede em França: a Associação Vivre Sa Vie, de que é Presidente uma compatriota. Atribuímos outros donativos a instituições em França, ligadas à nossa Comunidade, como é o caso, a título de exemplo, da Santa Casa da Misericórdia de Paris.
Em  Portugal,  prestámos  também apoios, penso que nenhum membro está contra isso, a pessoas singulares e a instituições privadas de solidarie-dade social como a Fundação Gil, o Berço e a Cerci, de que é Presidente uma irmã do nosso Compadre Amílcar Sanches. Cada uma destas instituições desenvolve um trabalho notável que me esforçarei para dar a conhecer
melhor a todos os Compadres e Co-madres. A problemática da solidarie-dade  será  um  pilar  da  ação  da Academia a que vou dar uma atenção reforçada, com a proposta de novas iniciativas.
LusoJornal: Cada um dos jantares tem um convidado de honra. Que tipo de convidados tem tido?
Carlos Ferreira: Esse é um modelo que nem sempre é seguido, pois há muitos jantares em que não há convidados de honra ou os convidados de honra são a própria Academia ou membros da mesma. Outras vezes, há efetivamente convidados, aos quais
propomos temas para curtas interven-ções sobre os mais diversos assuntos, com o objetivo de promover o enriquecimento cultural e os conhecimentos dos nossos membros.
LusoJornal: Têm membros de outras nacionalidades?
Carlos Ferreira: Temos poucos que não sejam portugueses mas há alguns. O que evidencia que a nossa Academia é uma associação aberta e que pretende ter ligações com o meio em que se insere. Nessa perspetiva, a Academia alimenta o sonho de criar em Paris um Espaço da Lusofonia, tema que submetemos a todos os candidatos às últimas eleições Presidenciais francesas.
LusoJornal: Isso entra nos objetivos da Academia?
Carlos Ferreira: Sim, na medida em que um dos pilares base da ação da Academia é promover a Portugalidade.
É nessa linha que temos vindo tam-bém a trabalhar, sabendo que é um projeto para o futuro, ainda sem prazos, mas já com um fundo criado para o efeito.
LusoJornal: De que necessitam para o fazer?
Carlos Ferreira: De tudo, a começar pela motivação que mantivemos até agora e por aumentar a nossa representatividade. Nós queremos trabalhar nesta direção e para esse fim é indispensável que sejamos reconhecidos
como uma associação credível e repre-sentativa da Comunidade.
LusoJornal: Este é o grande projeto de fundo?
Carlos Ferreira: Este é emblemático, exige muitos  recursos, é na verdade um projeto de fundo, mas não é o único. A Academia não se vai esgotar neste projeto mesmo se ele é de uma grande dimensão.
LusoJornal: A Academia pretende ser uma espécie de clube de reflexão, mas sei que não podem falar de política, nem de negócios. Como concilia isso? Carlos Ferreira:A Academia não tem a vocação de ser um clube de reflexão, de discutir e fazer propostas, mas sim a de ser uma grande plataforma de en-contro de pessoas que partilham idênticos valores e a vontade de os pôr em prática, como o de promover a língua portuguesa, no campo da portugalidade, de fomentar a solidariedade na
Comunidade com a recolha de fundos para atribuição de donativos. O facto de não se falar em política deve isso impedir-nos de exercer a nossa cidadania, a nossa portugalidade? O fato de não se falar em negócios, que há que nos impeça de promover ou de apoiar o empreendedorismo social na Comunidade? O encontro de pessoas gera sinergias que não podem ser desperdiçadas. É como se estivéssemos a produzir energia e depois a não utilizássemos, nem nos preocupássemos com isso.
LusoJornal: Apadrinharam a criação da Academia do Bacalhau de Rouen, mas têm pouca relação com a de Lyon...
Carlos Ferreira: Foi também Paris que apadrinhou Lyon. Há por isso uma ligação que pode ter perdido intensidade com o tempo mas que vamos reposicionar no nível das relações que hoje temos com Rouen. Com esse ob-jetivo, vou procurar encontrar-me com o Compadre Presidente José Proença de Lyon. Temos de mudar esta situação.
LusoJornal: Mas o vosso objetivo é ajudar a criar outras Academias?
Carlos Ferreira: Na semana passada foi oficializada a Academia de Bruxelas, apadrinhada por nós e temos em vias de oficialização a de Londres, que já está a funcionar bem. Em França, apadrinhámos a Academia de Rouen e em Bordeaux já se vão reunindo, mas nunca foi apresentada a Congresso, nem oficializada. Já estamos em contacto com eles e provavelmente
vão-nos acompanhar ao Congresso.
LusoJornal: Esta semana realiza-se o Congresso mundial das Academias do Bacalhau. É um momento importante?
Carlos Ferreira:O Congresso é o único momento em que todas as propostas de  organização  se  discutem  e  se votam. Não podemos tomar iniciativas sem serem decididas em Congresso.
LusoJornal: Foi em Congresso que foi decidido que as mulheres podiam integrar a Academia?
Carlos Ferreira:Devo começar por lhe dizer que sempre foi permitido haver mulheres nas Academias. A primeira Comadre foi a Amália Rodrigues, no princípio dos anos 70; a Comadre Manuela Aguiar já há muitos anos que é também membro da Academia-Mãe. O assunto suscitou alguma polémica que foi solucionada por uma deliberação tomada em Congresso. O tema é
hoje mais que pacífico.
LusoJornal: É importante que a Academia de Joanesburgo seja a Academia-mãe?
Carlos Ferreira: O nosso movimento está em crescimento, sentimos que está a dinamizar-se. O que é importante é que a Academia-Mãe - que é a Academia onde tudo começou em 1968 - hoje tem um Presidente e uma equipa que trabalham mesmo muito bem. Neste Congresso vai-se notar a diferença. Estão a fazer um levantamento de tudo o que se faz em todas
as Academias e criaram um jornal, fizeram uma compilação de todas as atas do Congresso. Nós, em Paris, estamos muito contentes com o que se está a passar. Temos dado um apoio incondicional à Academia-Mãe. Um movimento tão grande como o nosso só se pode perenizar com uma entidade coordenadora incontestável. É verdade que há uns anos, cada Academia fazia o que queria e a Academia-Mãe  não  fazia  o  devido enquadramento.
LusoJornal: Sente que a Academia de Paris está a desempenhar um papel importante neste movimento mundial?
Carlos Ferreira:De facto, somos uma Academia dinâmica. O nosso ex-Presidente, o António Fernandes, até disse no Congresso de Maputo que somos a melhor Academia do mundo (risos). É verdade que passámos a ser um núcleo importante no movimento.
LusoJornal: Como está o clima interno? O candidato que concorreu consigo,  Nuno  Cabeleira,  continua  a frequentar a Academia?
Carlos Ferreira: O clima interno é de amizade e de uma grande exigência ética a nível de comportamentos e atitudes. As últimas eleições foram o exemplo acabado dessa exigência. O Compadre Nuno Cabeleira continua a ser o Compadre de sempre, respeita-dor e pelo qual todos temos o maior respeito, continuando a ser membro da Academia e a participar nos respetivos eventos.
LusoJornal: Vai candidatar-se nova-mente no fim do mandato?
Carlos Ferreira:Estou a meio do meu mandato,  constatando  que  tenho ainda muito por fazer do trabalho que me propus realizar. Como sempre o fiz, quero levar os meus compromissos até ao fim e por isso serei certamente candidato nas próximas eleições, contando aumentar substancialmente o apoio que recebi nas últimas eleições.

Lusojornal, edição francesa, n.º 142, página 6, aqui.

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