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Cada vez mais portugueses atraídos pelo “sonho chileno”
2013-03-27
Empresas portuguesas têm aumentado a aposta neste país sul-americano. Há quem relacione o sucesso com a liberalização da economia.

As comparações com Portugal são inevitáveis. Os dois países têm dimensões comparáveis. De acordo com o World Factbook da CIA, o Chile tem pouco menos de 17 milhões de habitantes, enquanto Portugal vai nos 10 milhões. São também países marcadamente marítimos, conhecidos pelo bom vinho. Contudo, no que toca aos indicadores macroeconómicos, a balança pende para o lado chileno.

Certo é que, num país onde o desemprego roça os 19%, há quem procure paragens mais convidativas. E os números da economia chilena, parecem ser isso mesmo.

No indicador que mais interessa para quem quer emigrar, o do desemprego, não há semelhanças. Os dados da OCDE dizem que, em 2011, o desemprego no Chile era de 7,1%. E tem vindo a diminuir desde 2009, quando atingiu o pico de 10,8%. 

No que toca à qualidade de vida - outro indicador que interessa a quem quer instalar-se noutro país - o Chile também já supera Portugal. O Chile já é o país da América Latina melhor posicionado no ranking de desenvolvimento humano, de acordo com os dados do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), elaborados pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Assim, quem está a aproveitar o "boom" económico chileno - o país cresceu a um média de 6% do PIB ao ano em 2010 e 2011 - são as empresas portuguesas. De acordo com Erwan Varas, cônsul chileno em Lisboa, "em termos gerais há uma subida de vistos", sendo que "a maioria são para empresas que enviam trabalhadores para o Chile".

O que parece faltar ao país é mão-de-obra qualificada. No ano passado Felipe Larrain ministro das Finanças chileno, havia-o enunciado. "No Chile o problema não é haver um excesso de mão-de-obra. Pelo contrário, há uma escassez de trabalhadores", disse à Reuters. Como tal, o governo está a ponderar modificar uma lei que restringia as empresas com mais de 25 trabalhadores de ter mais de 15% de estrangeiros na sua lista de pagamento.

Uma quantidade menor de emigrantes rumo ao Chile, disse Erwan Vargas ao Dinheiro Vivo, são profissionais liberais como arquitetos e gestores. E não tem dúvidas quanto às oportunidades existentes no país da América Latina: "Pessoas com mais qualificações têm bastantes oportunidades", refere.

O crescimento do interesse neste país, esse parece ter vindo para ficar. "Antes ninguém reparava que existia o Chile. No último ano nota-se maior interesse das empresas e pessoas no país", referiu.

Segundo dados cedidos pela embaixada chilena, o número de vistos cedidos a portugueses, em 2012 foi 90. Entre 2007 e 2011, a média tinha sido de 25. Em 2012, de 80% dos vistos outorgados, 42% corresponderam a pessoas com contrato de trabalho e 38% a estudantes. Os restantes para residentes temporários. Contudo, Erwan Varas lembra que "os portugueses não precisam de visto de turismo para entrar no Chile onde podem permanecer 3 meses". "Nesse sentido há casos de pessoas que entram no Chile como turistas e uma vez lá pedem a residência", revela.

 

Já conhece Chilecon Valley?
O trocadilho é feito com Silicon Valley e prende-se com o ambiente de empreendedorismo que se faz sentir no Chile. Chilecon Valley, tornou-se ponto de encontro de imigrantes empreendedores, que não encontram lugar para as suas ideias nos seus países. 

Segundo a The Economist, o governo chileno tem procurado atrair investimentos para o país. Apesar de ainda haver contrariedades, nomeadamente uma lei de bancarrotas punitiva, um mercado interno pequeno e crédito caro, algumas ideias começam a surgir.

Um programa chamado "Start-Up Chile", criado por Nicolas Shea, um empresário chileno escolhe pequenas empresas promissoras, dá 40.000 dólares aos fundadores das empresas e um visa de um ano no Chile. Desde 2010 - quando o programa foi iniciado - até 2012, 500 empresas e 900 empreendedores de 37 países, fizeram parte do programa. Portugal está em décimo no número de "contribuições" de empresas para o programa.

Num artigo para a Business Insider, Simon Black, norte-americano radicado no Chile, descreve um ambiente onde imigrantes de várias origens se juntam. "Muitos encontram o sucesso, numa economia em crescimento que procura jovens bem qualificados e energéticos", escreve. Num artigo com um título elucidativo, "Esqueçam a América, Imigrantes com um sonho estão a mudar-se para o Chile", Simon Black diz que "como a América do passado, o Chile é um país amigo de pessoas produtivas, trabalhadoras e responsáveis".

As razões económicas por detrás do sucesso chileno
O "boom" económico chileno é, de acordo com Erwan Vargas, resultado de uma "estratégia de desenvolvimento que se prende com a internacionalização da economia". O cônsul do Chile em Lisboa, refere que se "abriram as fronteiras e acabaram com as tarifas alfandegárias. Celebraram-se contratos de livre comércio com outros países". Essa terá sido uma das razões que levaram a que o Chile "nos últimos 15 anos tenha tido uma taxa de crescimento médio superior à da América Latina", diz o diplomata.

 

Claudio A. Téllez, analista internacional e doutorando em Relações Internacionais no IRI/PUC-Rio de Janeiro, corrobora esta ideia. "É muito mais fácil abrir uma empresa no Chile do que no Brasil, por exemplo. Logo, há mais incentivos para desempenhar atividades produtivas no Chile - e isso é liberalização", diz.

O analista refere ainda os fundamentos ideológicos por detrás destas políticas. Tudo começou diz, com Pinochet, que "iniciou um processo de liberalização já durante o governo militar, seguindo os preceitos monetaristas da Escola de Chicago".

Contudo " foi com Hernán Büchi à frente da economia do país que, no período de 1985 a 1989, foram realizadas privatizações substanciais e houve um afastamento real das políticas keynesianas", refere Claúdio A. Téllez. "Na atualidade, o governo tem se esforçado para manter as contas fiscais equilibradas e para manter a credibilidade em um cenário internacional marcado por turbulências", refere.

O doutorando da IRI/PUC-Rio de Janeiro, refere ainda que "atualmente o Chile ocupa um lugar de destaque no The Federation of International Trade Associations (FITA) no que toca à América Latina e Caribe, no que diz respeito a uma legislação favorável ao ambiente de negócios". 

 

Contudo, nem tudo são indicadores positivos no que toca à economia chilena. Segundo,a Reuters o país ainda sofre os custos da desigualdade. Isso nota-se num sistema educativo deficitário que se torna demasiado caro para alguns estudantes. De acordo com a Reuters, citando dados da OCDE, o Chile gastou 6.863 dólares por aluno universitário em 2010, sendo que a média da OCDE era de 13.728 dólares.

André Azevedo Alves, docente da Universidade Católica, refere que esta questão da desigualdade "é complexa", servindo para "ocultar o mais importante". "No caso de um país como o Chile, a estabilidade institucional, a liberdade económica e o crescimento sustentado possibilitaram que a população em geral - incluindo os mais pobres - usufruam hoje de um nível de vida francamente superior ao do período anterior às reformas", recorda.

Claúdio Téllez é otimista quanto a uma mudança neste campo. Apesar de admitir que " neste momento, é prioritário recuperar a educação, para não termos prejuízos significativos no futuro", acredita que o país está no bom caminho. "O facto dos salários reais estarem a crescer em sintonia com o crescimento da produtividade já é um bom augúrio e a tendência de crescimento do IDH nos últimos anos indica que a qualidade de vida no país está a melhorar", diz. 

No contexto continental, o analista é, claramente, mais positivo em relação ao Chile. "Outros países emergentes na América Latina têm caminhado na direção contrária. No Brasil, por exemplo, o PIB cresceu 0,9% em 2012 e, no primeiro trimestre de 2013, deve crescer 1%", lembra.

André Azevedo Alves refere ainda algumas reformas que poderiam ser transpostas para Portugal. O docente da Universidade Católica, enumera: "Redução da despesa estrutural do Estado, redução da pressão fiscal, promoção da concorrência em sectores protegidos e redução da dependência do Estado e dos fundos da UE". E ainda: "Implementação de liberdade de escolha na educação básica, secundária e superior".
Recorde-se que o sistema chileno funciona no formato de cheque-ensino.

Certo é que cada vez mais estrangeiros têm sido atraídos pelo "sonho chileno". Simon Black, no seu artigo no Business Insider, diz que a comunidade imigrante cresce. "Conheço pessoalmente um série de estrangeiros que se mudaram para o Chile e obtiveram um visto - sul-africanos, americanos, canadianos, espanhóis, franceses, britânicos, russos chineses...", enumera. E aconselha: "Ponha os seus pés no estrangeiro - as oportunidades são muito melhoresmelhoreres. E a experiência pode mudar uma vida".

Dinheiro Vivo, aqui.

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