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Jovens dirigentes podem dar nova dinâmica ao movimento associativo nas comunidades
2013-03-18
Aumentar as competências dos quadros das associações, através de ações de formação em várias áreas, mas também permitir a partilha de experiências e conhecimentos entre os participantes, foi o mote do Curso Mundial de Dirigentes Associativos da Diáspora, que trouxe a Portugal 30 representantes de associações portuguesas em 13 países.

O evento pretendeu reunir dirigentes mais jovens e outros mais velhos e com mais experiência que se propõem enfrentar novos desafios para dinamizar o movimento associativo luso na diáspora portuguesa, referiu o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas no encerramento do Curso Mundial de Dirigentes Associativos da Diáspora, que decorreu de 24 e 28 e Fevereiro. Organizado pela Confraria dos Saberes e Sabores da Beira - Grão Vasco, com o patrocínio da Secretaria de Estado das Comunidades, o curso desenvolveu actividades em Viseu, Sintra Oeiras e Lisboa.
Durante cinco dias, 30 dirigentes de associações portuguesas implantadas em 13 países (França, Alemanha, Suíça, Luxemburgo, Reino Unido, Canadá, Estados Unidos, Brasil, Venezuela, Uruguai, Argentina, África do Sul e Macau), partilharam experiências, mas também receberam formação e documentação em várias áreas, como programas de ação, organização e gestão associativa, projetos e candidaturas, legislação, parcerias. Pelo meio, visitaram algumas instituições de Portugal, participarem em mostras associativas e conhecerem o trabalho que as autarquias realizam com as associações.
Para além da formação e contacto com instituições nacionais, a realização do curso em Portugal permitiu aos participantes perceberem "que país nós temos", referiu José Cesário.
"Alguns vêm pouco, outros vêm mais, mas é importante que percebam o que é Portugal, principalmente aqueles que residem em países tão distantes e não têm tantas oportunidades de vir", defendeu o titular da pasta das Comunidades Portuguesas, acrescentando que em Portugal "faz-se muita coisa boa", valendo por isso a pena "transmitir essa certeza".
Por outro lado, pediu aos dirigentes associativos que apõem o atual esforço de internacionalização nacional, considerando que "são embaixadores e Portugal" e defendendo que o país "não tem sentido de ser se não pensar também na sua presença no mundo e no seu potencial".

Compromisso de trabalho


Para Martin D'Oliveira, o curso "superou as expectativas" e deu-lhe novas ferramentas e trabalho. Dirigente no Clube Português da Grande Buenos Aires e membro da Comissão Pastoral Portuguesa na Argentina, o jovem, que não vinha a Portugal há 20 anos, disse ao Mundo Português ter verificado durante o evento que "Portugal tem muito a dar aos seus emigrantes". "Esta não foi uma viagem de férias, mas sim um compromisso para trabalharmos mais mas nossas comunidades portuguesas", assumiu.
Já Kátia Caramujo, directora na Casa dos Poveiros de Toronto, representante da Aliança dos Clubes e Associações de Ontário, Canadá, afirmou que regressa "mais preparada para desenvolver novos projectos" e lamentou que não haja renovação de quadros nas associações. "O que está a acontecer é que os clubes quando realizam assembleias gerais, às vezes têm que fazer duas, porque não se consegue logo à primeira eleger uma direcção. Não há grande envolvimento dos mais jovens, eu sou das poucas", afirmou, acrescentando que "são sempre" as mesmas pessoas a trabalhar e que estas "começam a ficar cansadas". "O meu receio é que, por exemplo, quando o meu sobrinho tiver a minha idade, já não existam mais associações", alertou a jovem dirigente, considerando, por isso, ter sido "óptimo" este intercâmbio. "É bom descobrir que em Buenos Aires ou em Joanesburgo há pessoas que fazem as mesmas coisas que nós, e sobretudo que em Portugal o nosso associativismo ainda é importante".
Uma realidade diferente vive o meio associativo luso em Macau, onde "as associações de matriz portuguesa estão bastante activas", como afirmou Miguel de Senna Fernandes. O presidente da Associação de Macaenses, que congrega luso-descendentes, revelou que a ADM tem vindo a desenvolver vários projectos em comum com a Casa de Portugal no território, como o São João, celebrado anualmente e uma festa que as duas associações "devolveram às ruas de Macau". Juntamente com outras «casas» lusófonas realizam ainda todos os anos o Festival da Lusofonia, tendo em aberto "vários outros projectos", revelou o responsável que defende "a partilha de projectos associativos". Sobre o curso, Miguel Fernandes considerou importante que a par da iniciativa, "haja mais apoio do Estado (português)".
"Não estou a falar de apoio financeiro, mas de uma aproximação do corpo consular, que é importante. É fundamental uma efectiva aproximação do Consulado de Portugal à comunidade portuguesa local, e a participação activa nas iniciativas das associações", defendeu.
Dinamismo é a palavra que David Garcia utiliza para definir o Portuguese Athletic Club, de San José, Estados Unidos. A associação tem a segunda maior biblioteca portuguesa do estado da Califórnia e o dirigente congratulou-se por ter tido conhecimento dos apoios do Governo português nessa área". "Abriu-nos uma porta que não sabia que existia", disse. A opinião de Jorge Rodrigues sobre o movimento associativo português na Suíça, é mais sombria . O dirigente do Centro Lusitano de Zurique afirma que "está um pouco decadente" e aponta, entre outras razões, o grande número de associações no país, o cansaço dos quadros que se repetem na gestão das instituições por falta de renovação e até o regresso a Portugal de alguns dirigentes. Uma realidade que, diz, não atingiu o Centro Lusitano de Zurique, que com 300 associados efectivos, "foi renovado há pouco tempo e está em grande actividade". "Temos uma grande componente social, organizamos festas para angariar verbas e uma recolha de roupas em Fevereiro que enviamos a instituições em Portugal. Temos várias equipas desportivas, e desenvolvemos outra vertente importante, ligada à integração das pessoas que chegam ao país, organizando cursos de alemão com o apoio da autarquia de Zurique", revela.
O secretário de Estado das Comunidades mostra-se porém optimista sobre ao futuro do associativismo no estrangeiro. "Se conseguirmos prosseguir este trabalho durante mais dois ou três anos, teremos muitas das nossas associações com novos protagonistas que, de mãos dadas com os mais antigos, serão capazes de dar novas dinâmicas ao movimento associativo", considerou José Cesário.

Cinco projetos para unir associações
Durante o curso, os participantes conceberam e desenvolveram cinco projectos que gostariam de implantar nos países onde residem. O projecto da equipa de Bruno Marques, da Associação Lusófona de Zermatt, destina-se a crianças e jovens dos 10 aos 15 anos e assenta na criação de um jogo com perguntas e respostas em torno do tema da cidadania e participação cívica e política. "Esse jogo seria distribuído nos cinco países de onde são oriundos os membros do nosso grupo: Suíça, França, Reino Unido, Luxemburgo e Brasil.", explica Bruno Marques, acrescentando que o objectivo é "divulgar a importância da cidadania e falar na importância do voto". "Serão perguntas básicas mas que os farão saber quem toma as decisões, como funcionam as autarquias, os governos. Queremos que os jovens percebam como funciona o sistema político no seu país", destacou referindo que o jogo pretende incutir nos jovens "a responsabilidade do voto". "Porque ao votar teremos mais força e conseguiremos eleger políticos. E a integração é também isso", defendeu.
Outro projecto parte das rotas dos descobridores portugueses para "assumir outra maneira de ensinar a língua e a cultura portuguesas, através de actividades", explicou David Garcia, do Portuguese Athletic Club, dos Estados Unidos. "Queremos estabelecer entre as associações uma rota de intercâmbio para reunir jovens luso-descendentes de vários países", revelou.
Reunir todas as associações lusas na diáspora para num dia a definir, escolherem um tema e celebrarem a portugalidade, estejam onde estiverem, foi o projecto apresentado pela equipa de Miguel Fernandes, de Macau. "Por que não arranjar uma forma de todas as associações poderem comungar de algo que diga respeito à cultura portuguesa?", questionou. "O celebrar pode ser de várias formas: quando se dança o Vira, quando se joga futebol, quando se come bacalhau. Vamos supor que num ano, o item escolhido é o bacalhau. As associações portuguesas no mundo, nesse dia, se comprometem a festejar através da confecção de um prato de bacalhau. É algo acessível e perfeitamente exequível para todas as associações e de uma certa forma, evoca o sentir geral da portugalidade, tendo um efeito unificador", defendeu.
Já o grupo de Jorge Rodrigues, que reuniu dirigentes da Suíça, Canadá, Brasil, Uruguai e Venezuela, propõe acções de formação de dirigentes associativos nas áreas cultural, etnográfica, dos tempos livres e do movimento cívico. "Queremos desenvolvê-lo em duas áreas: a da formação de dirigentes associativos e a de dirigentes etnográficos, para formar novos dirigentes associativos, mais jovens. E pretendemos que estes cursos informem os mais novos e ajudem a dinamizar e rejuvenescer o movimento associativo", explicou o dirigente da Suíça, revelando que pretendem realizar as duas primeiras ações no Centro Português de Caracas e na Casa Portuguesa de Valência, na Venezuela, já em Julho deste ano.
O quinto projecto prende-se com a realização de um "seminário cultural para o intercâmbio entre as diferentes comunidades diferentes no mundo", como explicou Martin D'Oliveira da Argentina. "Achamos que seria importante uma acção de intercâmbio para vermos como atua cada uma das comunidades, na área da cultura e da língua portuguesa. Este curso mostrou que há uma grande diferença na forma de trabalhar entre uma comunidade e outra, até entre aquelas que estão no mesmo continente. A ideia é fazer um primeiro seminário entre o meio associativo português da Argentina e da França e depois realizá-lo em outras comunidades portuguesas", revelou o dirigente.

O associativismo deve modernizar-se para atrair os mais jovens - Deputados pela Emigração
No último dia do curso, os dirigentes foram recebidos no Parlamento pelos deputados Carlos Gonçalves e Carlos Páscoa Gonçalves, do PSD, e Paulo Pisco, do PS, eleitos pelos círculos da Emigração.  Em resposta ao Mundo Português sobre a forma de atrai os jovens para as associações, Carlos Gonçalves defende a existência de redes "que permitam criar coesão er que devem ter como objectivo a ligação das comunidades". "Há nesta iniciativa pessoas que são já quarta geração portuguesa, e continuam ligados a Portugal. Quando há assim pessoas, esta gente e as associações que representam, têm que ser nossos parceiros", afirmou.
Carlos Páscoa Gonçalves, por sua vez, acha que "tem que se dar uma volta (ao movimento associativo)", porque a nova emigração tem um perfil diferente. "A emigração que está a chegar ao Brasil, por exemplo, não vai frequentar essas casas, porque a sua ligação a Portugal é feita de outras formas e através de outros espaços, têm a internet e meios electrónicos em geral", explicou, defendendo mais união entre as associações. "Têm que se juntar por afinidade de serviços. As que forem da área desportiva devem chegar a um entendimento entre elas, as que forem voltadas para o ensino, as de solidariedade social, têm que se agrupar. E aí começaremos a encontrar uma solução para o problema", defendeu, dando como exemplo casos de sucesso. "Em Manaus, Amazonas, onde as associações estão praticamente todas a fechar, foi criado o Instituto Cultural de Portugal no Amazonas, onde estão representadas todas as associações. O património imobiliário foi arrendado e a renda permite manter o Instituto com enorme dignidade", revelou.
Já Paulo Pisco acredita que o futuro do meio associativo passa "pelos mais jovens, pelas mulheres, por novas ideias e eventualmente por novas estruturas relativamente ao tipo de actividades que desenvolvem". "É fundamental que as associações tenham actividades mais abrangentes, que sejam identificados os assuntos que interessam às nossas comunidades nos países onde estão inseridas", referiu ao Mundo Português. Para tal, o deputado diz que deve ser feito "um trabalho de sensibilização dos dirigentes associativos, para que as associações aproveitem todo o seu imenso potencial para desenvolverem actividades que sejam do interesse de todos". "A manutenção da comunidade unida e a sua afirmação nos sítios onde está, pode ser feito de uma maneira muito relevante através das associações", finalizou.

As associações estão a ganhar visibilidade - José Cesário

O secretário e Estado das Cmunidades Portuguesas defende que iniciativas nas áreas da solidariedade e da língua podem contribuir para a renovação das associações

Como se atrai os mais jovens para as direções das associações?
É preciso prestar-lhes atenção, dar-lhes incentivos. Ouvi-los, acompanhá-los e que as associações dêem espaço para eles trabalharem e lhes permitam realizar actividades que se ajustem aos mais jovens. Há neste momento vários projectos a decorrer nesse sentido, como o «Proud to Be Portugueses Canadian» (Orgulho em ser Luso-Canadiano), que se realizou no ano passado em Toronto e deverá repetir-se este ano com um evento na Califórnia.

O que as associações têm que fazer para se manterem abertas?
Eu não quero dar lições às associações, cada uma saberá o que fazer, mas não há dúvida nenhuma que há um conjunto de iniciativas, quer na área da solidariedade social, quer na área cultural, na da língua portuguesa, que podem permitir uma renovação muito significativa no movimento associativo. Nenhuma associação tem que acabar, devem cooperar mais umas com as outras. Têm que desenvolver mais projectos conjuntos que permitam obter outros resultados e movimentar mais gente. Temos que olhar para os jovens, mas também para os mais antigos. Não é por acaso que temos acções para jovens, mas também estamos a fomentar acções para mais velhos. Há projectos na área do apoio social no Luxemburgo, no Reino Unido, no Brasil, na Venezuela que procuram explorar outras vertentes.

O aumento da emigração deu visibilidade ao movimento associativo?

Claramente. (O movimento associativo) Está já a ganhá-la, porque neste momento já são as associações que conseguem completar o trabalho dos nossos consulados e embaixadas na identificação das situações que merecem uma atenção mais particular, situações mais dramáticas e difíceis.
Ana Grácio Pinto

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