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Maioria de emigrantes regressados é reformada e tem poucos estudos
2011-08-29
A grande maioria de emigrantes regressados aos Açores tem mais de 60 anos, é reformado e tem poucos estudos, segundo um estudo sobre esta comunidade, sábado revelado pelo governo regional.

"O estudo revela que a grande maioria de emigrantes regressados tem sessenta ou mais anos, são reformados e os que ainda trabalham são os que regressaram das Bermudas e têm uma baixa literacia", disse hoje o secretário regional da Presidência do governo açoriano, André Bradford, em declarações à Agência Lusa.

O trabalho foi realizado em colaboração com o Centro de Estudos Sociais da Universidade dos Açores, adiantou o governante, que falava à margem do II Encontro de Emigrantes Regressados, que reuniu cerca de uma centena de participantes numa festa em Angra do Heroísmo.

Segundo o secretário da Presidência, o estudo indica a necessidade "do reforço dos serviços de atendimento" a esta comunidade.

 "O serviço tem de reforçar o acompanhamento desses emigrantes aproximando-se desses cidadãos, porque somos, por vezes, o único elo de ligação às suas necessidades burocráticas a tratar entre o nosso país e o que foi o seu país de emigração", explicou.

O estudo permitiu também identificar os que regressam para se fixar definitivamente na sua terra ou para períodos cíclicos anuais, mas também os que voltam com condições financeiras confortáveis ou com necessidades.

Também a directora regional das Comunidades, Graça Castanho, considerou "surpreendente" o número de regressados para todas as ilhas do arquipélago.

"Isto dá-nos a ideia do equilíbrio da distribuição dos regressados e do interesse que eles têm pelas suas origens, repovoando os locais de onde partiram, e trazendo novas dinâmicas a esses locais", frisou.

Graça Castanho salientou igualmente "a nova dinâmica de ligação entre os regressados e a família que deixaram nos seus países de emigração que andam de um lado para o outro em visitas".

A responsável realçou ainda "a necessidade de explicar aos jovens descendentes dos emigrantes que os Açores são um espaço de inter e multicularidade onde vale a pena viver e fazer a sua vida".

"Nós temos a viver na região cidadãos de 86 nacionalidades, dos quais os brasileiros são a primeira comunidade em número, seguindo-se os cabo-verdianos. Os ucranianos lideram o número de imigrantes originários dos países do leste europeus", acrescentou Graça Castanho.

Sacrifícios e benefícios longe da terra natal  

Quando partiu, há 29 anos, para os EUA, saiu em ruptura com o então presidente do governo regional dos Açores e foi "para o exílio". Cunha de Oliveira, hoje com 86 anos, regressou ao arquipélago para se candidatar a eurodeputado pelo PS.

Cunha de Oliveira foi um dos mais de cem antigos emigrantes que sábado participaram no "II Encontro de Emigrantes Regressados", em Angra do Heroísmo.

"Eu, na altura, era director regional de Estudos e Planeamento dos Açores e estava em desacordo com o presidente do governo regional [Mota Amaral], tinha uma visão do desenvolvimento açoriano completamente diferente da dele", disse, em declarações à Lusa.

Foi nos Açores que cresceu e se formou no seminário de Angra do Heroísmo, onde foi sacerdote. Mais tarde pediu dispensa do ministério sacerdotal e casou-se com uma emigrante açoriana que residia na América.

Fez limpezas em casas enquanto não encontrava outro trabalho, mas chegou a director do jornal "Portuguese Tribune", funções que abandonou respondendo ao convite para ser candidato socialista, pelos Açores, ao Parlamento Europeu, para o qual foi eleito.

Idalina Andrade Gonçalves tem uma história diferente: emigrou depois de casar aos 17 anos, fixou-se no Rio de Janeiro, fez estudos universitários, teve filhas e desenvolveu também a sua veia artística na pintura.

Trabalhou em medicina, motricidade e na pesquisa genética, mas embora tivesse "saudades da terra, as raízes familiares pesaram sempre mais que o desejo do regresso".

Sente-se útil "na divulgação dos Açores no Rio de Janeiro", onde está a lutar pela implantação de uma estátua do escritor Antero de Quental numa praça com o mesmo nome, "localizada num bairro chique".

Dioclésio Machado embarcou para o Brasil com 18 anos, onde esteve quase duas décadas a trabalhar como "empresário de açougue", mas regressou para investir na sua terra, defendendo que cabe a todos ajudar ao seu progresso.

 "Não nego que tenho sempre um pé lá e outro cá, as minhas filhas são brasileiras e gostavam de estar lá e cobram-me diariamente o facto de eu querer estar cá, mas não me importo porque gosto deste cantinho, onde investi na área do turismo", explicou.

Para a Califórnia (EUA) emigrou, com 39 anos, Marino Dias, antigo funcionário dos correios de Angra do Heroísmo, mas teve "o desejo de ganhar algum dinheiro, fazer um pé-de-meia para investir aqui na terra".

 "Trabalhei nas vacas [exploração leiteira] e não trabalhava mais do que aqui mas pagavam-me melhor para ordenhar 450 vacas duas vezes ao dia, seis dias por semana", explicou, acrescentando que actualmente está reformado ainda que tenha "uns bezerros" para se "entreter".

Isildo Enes, 73 anos, partiu da Terceira para o Canadá onde trabalhou na construção civil durante doze anos "a fazer e alisar cimento", chegando a fazer turnos de 12 horas.

"Eles pagavam bem e queria ficar mas como casei e a mulher não gostava daquilo, em especial no inverno, acabei por regressar e investir numa exploração agro-pecuária", adiantou.

No encontro de emigrantes regressados, foram homenageadas oito personalidades que viveram a emigração por dentro e regressaram para contribuir para o desenvolvimento da terra natal.

A União, aqui.

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