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Emigrantes mantêm orgulho em ser portugueses mas regressar já não é prioridade
2011-08-04
Os emigrantes portugueses que este mês "invadem" o País e a região, estão conscientes de que Portugal atravessa um dos piores momentos da sua história e a ideia de regressar na velhice já não é uma certeza. Mesmo assim continua a afirmar com orgulho: "O meu País é Portugal"

Durante este mês o País e a região dão as boas vindas aos filhos da nação que vivem no estrangeiro. São os emigrantes portugueses que dão vida às vilas, aldeias e praias mas que, por conta de uma crise que é transversal, trazem os tostões contados. Vêm matar saudades da família, dos amigos, de lugares e da gastronomia, mas na bagagem vem também bastante pessimismo. É que Portugal não está a passar uma boa imagem lá para fora, mas os emigrantes continuam com o seu País no coração, apesar da certeza que outrora tinham de regressar na velhice estar a esmorecer. Apesar disso as remessas enviadas para os bancos portugueses estão a estabilizar. Os especialistas acreditam que a nova vaga de emigrantes esteja a contribuir para essa evolução

A família Brilhante Pedrosa, de Monte Redondo, Leiria, vive por estes dias a felicidade de ter a casa cheia durante cerca de três semanas. Nucha e Nela (na foto)  chegaram há uma semana da Suíça, onde estão emigradas desde 1986, para passar férias com a família e "matar as saudades". Em casa dos pais um almoço pode durar três ou quatro horas, com muita conversa, acompanhada da comida da "mãezinha", Dona Silvina, e do vinho caseiro do "paizinho", Ti Mário, como é tratado carinhosamente. 
As irmãs, que sentem pouco o impacto da crise no país que as acolhe, vinham expectantes por causa das notícias menos boas sobre Portugal, que todos os dias acompanham através da televisão, "sobretudo pelos canais alemães, que mediatizam imenso a situação portuguesa", explicam. 
Nela, a mais velha, está convicta de que "com a democracia veio também a pobreza". Diz-se "chocada com a corrupção" que tomou conta do seu País e acredita que "a falta de respeito para com o próximo e o individualismo instalados são o reflexo de um País que tem sido mal governado". "Quando há má conduta naqueles que governam, os cidadãos vão atrás", acrescenta. 
De acordo com as irmãs, que detestam ouvir falar mal de Portugal e defendem sempre o seu País lá fora, "muita coisa poderia ter sido evitada" e "José Sócrates ficou muito mal visto pela comunidade portuguesa na Suíça".
Estranham "a passividade com que os portugueses estão a assistir a isto tudo", mas acreditam nas potencialidades do País e que "com a ajuda externa vai melhorar". 
Nucha afirma mesmo que "se não estivesse informada sobre a situação financeira do País, não teria dado conta de nada nesta visita a Portugal". "A imagem que as pessoas passam é de que está tudo bem", salienta, e não entende a "cultura consumista que se instalou nos portugueses" e que as irmãs dizem ter constatado em conversas com conhecidos. 
Questionadas sobre a possibilidade de voltarem definitivamente para Portugal, as irmãs, que trabalham na empresa de cutelarias Vitorinox há mais de 20 anos, têm opiniões divergentes. Por ter tido sempre melhores condições de vida e de trabalho na Suíça, Nela diz que nunca sentiu essa vontade, apesar das saudades. Já a irmã equaciona vir quando as filhas, agora com 12 e 13 anos tiverem a vida estabilizada. "Elas também gostam muito de Portugal, até querem vir para cá estudar, mas não acredito que consigam cá emprego e uma vida melhor do que lá", diz Nucha para quem a praia e o sol de Portugal são atractivos com grande peso. 
Apesar das opiniões divididas das irmãs e do casal cujo testemunho se conta a seguir, o JORNAL DE LEIRIA concluiu com alguns inquéritos a outros emigrantes que muitos deles estão a desistir da ideia de voltar. Falam de Portugal como um País que "não oferece condições de vida" "nem de trabalho" e quem ainda mantém a ideia de regressar só pretende fazê-lo depois de garantir a reforma nos países de acolhimento. A assistência médica em Portugal não transmite confiança a quem está lá fora. É dos pontos menos positivos apontados a par da "fraca qualidade dos políticos portugueses".

Cultivar nos filhos o espírito português de valorização da família
Em casa da família Brilhante Pedrosa cultivou-se desde sempre os valores da amizade, do respeito e da liberdade. Dos cinco filhos, três estão emigrados. Nuno, que está para chegar de Londres, não se cruza este verão com as irmãs, para grande tristeza dos pais, mas está prometido que no Natal toda a família se reúne. "Criámos os nossos filhos para serem lutadores e trabalhadores" diz o pai com um sorriso orgulhoso, enquanto a mãe conversa com o genro, suíço, que também a trata por "mãezinha". Mesmo assim há ainda dois filhos que vivem em Leiria e que mantêm contacto quase diário, mas Dona Silvina não esconde que gosta é de ter a casa cheia. 
Os valores familiares que Nela e Nucha receberam procuram transmiti-los aos filhos e admitem que as visitas a Portugal e os convívios em família são cruciais. "Gostávamos que eles dessem continuidade a esta alegria que é estar em família, ao companheirismo e amizade entre irmãos, ao carinho e à proximidade familiar que em Portugal é tão diferente de lá", salientam.

Um casal português dividido por duas bandeiras
Carlos e Glória Deodato passam o mês de Agosto a desfrutar da casa que construíram com os dividendos de uma vida lá fora. Desde 1982 que vivem na Córsega, uma ilha situada no sul de França, onde têm levado uma vida de trabalho. Ele na construção civil, ela como empregada doméstica. Enquadram-se na tipologia do emigrante que saiu de Portugal à procura de uma condição económica que lhes permitisse amealhar para um dia voltar, mas as coisas mudaram. 
Glória Deodato que à entrada de casa, na vila da Vieira, expõe orgulhosamente a bandeira da Córsega, há muito que mudou de ideias. Por ela "não voltava para Portugal". Por viver numa ilha paradisíaca, ter uma vida confortável, ganhar o equivalente a quatro ordenados mínimos portugueses e não ter por cá, além das três filhas, outras ligações familiares, afirma mesmo que França passou a ser a o seu país. Mas o marido mantém-se "mais português que nunca" e aguarda apenas que dentro de uns dois anos lhe seja dada a reforma para regressar. 
Apesar de divido por bandeiras este casal está de acordo na visão que têm de Portugal. É com "muita mágoa" que Carlos admite que "este País vai de mal a pior". Para ela já é indiferente que se fale mal de Portugal. Ambos temem pelo futuro das filhas, com cursos superiores, que tanto lhes custaram a pagar, e que ainda não conseguiram emprego nas suas áreas de formação. Afirmam que "a assistência médica é uma vergonha" e dizem mesmo que quando regressarem querem continuar a usufruir da Segurança Social Francesa. "Não entendo por que é que os meus vizinhos passam várias horas à porta do centro de saúde da vila para conseguirem uma consulta". "Quando emigrei nunca me passou pela cabeça que Portugal chegasse um dia a este ponto", diz Carlos Deodato indignado. 
O casal enviou para Portugal as suas poupanças durante muitos anos, até terem o suficiente para construir a casa que ergueram nos anos 90, altura em que regressaram "para ficar", mas acabariam por voltar à Córsega em 2002, dadas às dificuldades que já na época encontraram por cá. As filhas, na altura adolescentes, não quiseram ir. Ficaram na Vieira, por sua conta e risco, sob orientação da mais velha de apenas 20 anos. Tal como o pai, as filhas mantêm-se fiéis à nacionalidade portuguesa, preferem viver cá, mas é lá que depositam algumas das suas poupanças, "porque os juros são mais altos".
Paula Lagoa

Bancos portugueses receberam cerca de 2,4 mil milhões de euros, em 2010
Envio de remessas estabilizam nos últimos anos
As remessas de emigrantes portugueses representaram cerca de 2,4 mil milhões de euros em 2010. O número do Banco de Portugal indica que, depois de um período em que se registou uma queda, o envio de dinheiro dos portugueses a viver no estrangeiro entrou novamente numa linha ascendente.
Avaliando os primeiros cinco meses da última década, verifica-se que entre 2000 e 2002, o dinheiro que entrou nos bancos portugueses enviado pelos emigrantes seguia uma curva ascendente, o que deixou de se verificar nos três anos seguintes. Segundo os dados do Banco de Portugal, voltou a evidenciar--se uma subida em 2007. 
Para Carlos Pereira, ex-presidente do Conselho das Comunidades Portuguesas em França, a retoma está relacionada com o aumento da emigração de portugueses endividados. Em declarações ao Jornal de Notícias, afirma que as pessoas mudam de país à procura de um emprego e enviam o dinheiro para Portugal para pagar os empréstimos contraídos.
Feliciano das Neves, natural de Pombal, residente há vários anos na zona de Paris, França, continua a depositar dinheiro numa conta portuguesa. "Quero juntar algum dinheiro para quando regressar na velhice", assume.
Já Virgínia Ramos, também de Pombal e emigrante em França, possui uma conta bancária em Portugal, mas admite que "há muito tempo que não coloco dinheiro lá, porque não é vantajoso". Para António Sousa, outro imigrante em França, "não é vantajoso" fazer poupanças em Portugal, pelo que nunca realizou qualquer tipo de aplicação.
À margem da apresentação de uma acção de sensibilização para a segurança rodoviária levada a cabo por uma associação francesa de luso--descendentes, o secretário de Estado das Comunidades Portuguesa, José Cesário, reconheceu, à Agência Lusa, que a importância dos emigrantes para o País "ultrapassa o plano económico". 
O governante sublinhou que, para além desta injecção directa de dinheiro na economia portuguesa, os emigrantes protagonizam, cada vez mais, "um investimento enorme no país" em vários sectores, como o imobiliário e o turismo. Referindo ainda que "o primeiro activo" de Portugal no estrangeiro são "os portugueses", José Cesário lembrou que existem quase cinco milhões de cidadãos espalhados pelo mundo. "É isso que nos dá dimensão a nível mundial."
Elisabete Cruz

|Palavra de emigrante|

Virgínia Ramos, é natural de Pombal, emigrou com os pais para França, era ainda criança de colo. Vai estar por cá três semanas de férias, mas as visitas a Portugal são cada vez menos regulares porque "também se sente a crise em França". Por ter agora menor poder de compra vem de férias em regime de contenção mas nunca pensou voltar, até porque, ainda assim, "está-se melhor lá que cá". Em Portugal "a política é uma tristeza, a saúde é muito má, vale pelo sol e pela praia".

Feliciano das Neves é emigrante em França e também sente os efeitos de uma crise que é transversal, mas as cinco semanas de férias em Portugal são sagradas. Continua a vir com a mesma regularidade e pelo mesmo período de tempo. Mantém-se fiel à ideia de viver a velhice na terra natal, mas até lá há que continuar a amealhar. Diz que "os portugueses são um povo trabalhador", "o problema são os políticos e sua má governação".

António Sousa é natural de Braga mas faz férias regularmente na Praia da Vieira por ter lá uma nora. Foi empregado fabril durante 42 anos em França, país onde viu nascer os seus três filhos, já casados. Está reformado há quatro anos e não pensa regressar a Portugal. Cedo o decidiu e por isso nunca investiu no País de origem. Comprou casa em França e fez lá a vida mas nunca se naturalizou por conta de um inexplicável "orgulho de ser português".

Jornal de Leiria, aqui.

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