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Três destinos de emigração para jovens portugueses
2011-04-29
Três países, três destinos de portugueses em tempos de crise. Uma vida melhor e a realização profissional que não encontram em Portugal, são factores que têm levado muitos jovens até ao Reino Unido, Estados Unidos e Brasil. Sem planos de regresso...

Mas nem sempre os sonhos se concretizam. Foi o caso de Soraia Vicente. 
Sem perspectivas profissionais em Lisboa, onde era bombeira profissional, decide em Novembro do ano passado, aos 19 anos e pela segunda vez, tentar trabalhar em Norwich, no sudoeste de Inglaterra, onde já tinha estado em 2008.
"Estive lá cerca de quatro meses em Norwich, mas não tive muitas oportunidades porque não sei falar muito bem inglês", revelou à Agência Lusa, por telefone. 
Amigos e família diziam-lhe que era fácil arranjar emprego, mas só conseguiu fazer algumas horas nas limpezas do hotel onde trabalha a mãe. Mais tarde decidiu tentar a sorte em Londres, onde, através de uma agência de recursos humanos, conseguiu pequenos trabalhos, nomeadamente em restaurantes. A ela juntou-se o namorado, Hugo Pereira, e as coisas correram bem durante algumas semanas. 
"Mas, de um momento para o outro, mandaram-nos aos dois embora e ficámos sem trabalho, sem dinheiro, tivemos de recorrer à família do meu noivo para voltar para Portugal porque não tínhamos dinheiro para comer nem para a renda", relatou. Para trás ficaram os sonhos de investir em estudos na área das artes. 
A mesma ambição vai levar Nélson Antunes até à capital da Inglaterra, para onde tem partida marcada a 14 de Maio. Aos 23 anos, o lisboeta quer investir numa carreira em ascensão, que o viu participar no concurso de canto Família Superstar, ser actor na série «Rebelde Way» e um dos membros do grupo RBL. "Tenciono formar-me em música, vou tentar especialização em canto e produção", explica à Lusa, por telefone. 
Na escolha de Londres para estudar pesou ter família em Londres, com a qual passa frequentemente o Natal e as férias do verão, e que já lhe tinham lançado o desafio. No Reino Unido procura uma qualidade da formação que lhe abra portas em Portugal se decidir voltar. Porém, por enquanto só tem bilhete de ida e olha para Ricardo Afonso, o protagonista do musical londrino «We Will Rock You», como uma referência de sucesso no estrangeiro.
Também Soraia louva as oportunidades que existem no Reino Unido, onde, apesar de não ter conseguido vingar, conseguiu um triunfo. Com aspirações a trabalhar em música e teatro, foi finalista num concurso de karaoke da comunidade portuguesa, o que resultou em propostas para ficar. 
As saudades da família, contudo, falaram mais alto e agora quer concentrar-se no casamento e no novo trabalho a tempo parcial em telemarketing. "Por enquanto queremos organizar a nossa vida cá", afirmou, mas não coloca de lado a hipótese de descobrir se tem razão o ditado popular que diz que à terceira é de vez. 

Vida nova nos EUA

Foi também a crise e falta de oportunidades em Portugal que levaram três jovens a deixar o país e rumar aos Estados Unidos.
João Santos Matos é jornalista e chegou aos Estados Unidos há sete meses já com a certeza de um posto de trabalho que em Portugal deixou de ter. "Num momento em que a maioria das empresas de media trabalha maioritariamente com estagiários não remunerados, deparei-me com duas opções: ou mudo de profissão para sempre ou mantenho vivo o meu espírito de jornalista, mas noutras paragens", explicou à Agência Lusa.
Licenciado em Ciência Política em Lisboa, João passou por dois grupos de media portugueses sempre ligado ao jornalismo automóvel, até que por "alegados cortes financeiros" a «Motorpress Lisboa» procedeu a "um despedimento colectivo". Decidiu entrar em contacto com diversos meios de comunicação no estrangeiro e acabou por ter uma resposta positiva do diário português «24horas» de Newark, perto de Nova Iorque.
Apesar das saudades, o regresso "não faz parte dos planos futuros". A percepção do Estado do país é-lhe dada pela informação dos meios de comunicação e pelo que os amigos e familiares descrevem.
Sónia Barros, 22 anos, está há quatro meses nos Estados Unidos, e não pensa no regresso. "Quero voltar, mas não para já. Estou à espera que a situação melhore. Se isto continua assim, não sei como vou fazer", diz a jovem ‘bartender' que vive perto de Nova Iorque. Aos 22 anos e sem encontrar trabalho depois de ter tirado um curso profissional de desenhadora projectista, foi o "potencial" dos Estados Unidos e a procura de uma vida melhor que a motivaram a escolha de Sónia.
Já Paulo Cunha tem um percurso diferente. Nascido nos Estados Unidos, regressou a Valença com quatro anos de idade para 20 anos depois voltar ao país que lhe deu a cidadania. Porque em Newark tem familiares e oportunidades que os estrangeiros não encontram. "O Cartão Verde traz oportunidades que outros não têm. Posso trabalhar em empresas norte-americanas sem problemas", explicou à Lusa
Em Portugal, trabalhava como distribuidor de gás, mas o ordenado era insuficiente. A "vida melhor" que procurava nos Estados Unidos acabou por se revelar "diferente". "Estou cá há três meses e por enquanto não se trata bem do que esperava, mas espero que com o tempo melhor", reconhece Paulo Cunha.
A hipótese do regresso também está afastada "para já", até porque em Portugal o ordenado era insuficiente e Paulo era obrigado a viver com os pais, com uma idade em que quer "ser independente". "Se me correr bem aqui, não volto. Apesar das saudades, não penso regressar em breve. Lá estava a receber pouco e foi por isso que optei voltar para os Estados Unidos", acrescentou.

Oportunidades no Brasil

Levam o diploma e muita vontade de trabalhar. Portugueses recém-formados e mesmo profissionais já experientes estão a deixar o país rumo ao Brasil onde acreditam ter mais oportunidades para arranjar o primeiro emprego ou crescer profissionalmente.
O cônsul-geral de Portugal no Rio de Janeiro confirmou à Lusa o crescente número de portugueses que chegam àquela cidade com a intenção de procurar trabalho ou que já chegam contratados por alguma empresa. De acordo com António Almeida Lima, muitos deles são jovens e realizaram parte dos estudos universitários no Brasil, dentro do programa Erasmus Mundo.
É o caso de João Fernandes, 25 anos, que chegou ao Brasil no final do ano passado, depois de ter morado no país de Agosto de 2008 a Junho de 2009 ao abrigo do programa de intercâmbio entre a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
O estágio, num escritório de advocacia, foi conseguido com a ajuda de amigos brasileiros, que o informaram da vaga. "No início não é fácil arranjar trabalho, por ter de competir com profissionais que conhecem e têm experiência já de alguns anos", explicou advogado recém-formado. Quanto à cultura empresarial e a rotina de trabalho, João Fernandes diz que não há diferenças significativas e que se trabalha muito em ambos os países. Para o jovem advogado, o Brasil deixa a desejar apenas na parte de infra-estruturas.
Assim como ele, cinco amigos optaram pelo mesmo caminho, além de outros que escolheram outros pontos do globo, como Macau, Luanda, Londres e Houston. João Fernandes revelou que a decisão de deixar Portugal foi mais fácil pelo facto de ainda não ter família e filhos.
Mas nem sempre é assim. Outro advogado, José Castro Solla, foi com os três filhos para o Rio de Janeiro no ano passado para apostar na área de direito para o sector petrolífero. Na opinião de Solla, que está satisfeito com a cidade e o trabalho, o carácter mais optimista do brasileiro é "rejuvenescedor". "Aqui você pode estar com uma pessoa mais pobre que ela vai estar com um sorriso na boca e uma ideia muito optimista, você ganha anos de vida aqui", referiu à Lusa.
O advogado confessa que é difícil ser confrontado com a situação em Portugal estando distante mas sublinha que os portugueses já demonstraram a sua capacidade noutros momentos para superar as dificuldades. "Acho que muito se fez nesses últimos anos de democracia em Portugal, o país cresceu muito, muita gente saiu da pobreza, subiu o nível da educação e isso mostra que conseguiremos sair dessa crise", concluiu.    

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