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Link para inquéritoO regresso como emigração: o caso dos jovens adultos portugueses

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Uma vida dedicada ao ensino da língua portuguesa na Austrália
2011-02-08
No dia 13 de Março de 2010, Cidália Rendeiro recebeu em Sydney, a Medalha de Mérito atribuída pelo presidente da República de Portugal. A atribuição pretendeu homenagear uma professora, natural da Lousã e emigrante na Austrália há mais de quatro décadas, que nos últimos 39 anos tem dedicado a vida ao ensino da língua e cultura portuguesas. Pelas salas de aula da professora Cidália, já passaram três gerações de alunos, tanto na escola portuguesa que iniciou em 1972, como nas escolas oficiais australianas onde lecciona como professora bilingue. Mas a medalha homenageia também uma portuguesa que se dedica à comunidade lusa, particularmente a que reside no município de Petersham, onde ajudou a fundar o Museu Etnográfico Português na Austrália…

Cidália Rendeiro tem 67 anos, a maior parte dos quais vividos na Austrália. Natural de Ferpins, concelho da Lousã, no distrito de Coimbra, emigrou para o país em Maio de 1967, para acompanhar o marido. Quatro anos antes, Tony Rendeiro tinha emigrado para o distante país-continente e só regressou a Portugal para casar-se e levar a mulher consigo. Cidália tinha concluído o curso na Escola do Magistério Primário Particular de Aveiro, cidade capital do concelho onde vivia desde os quatro anos.
À semelhança de tantos outros portugueses, também para a professora, a adaptação ao novo país "não foi fácil". "Estava grávida e passei pela barreira da língua, porque sabia muito pouco e a pronúncia era difícil", recordou a O Emigrante/Mundo Português. À incompreensão inicial do inglês juntou-se a solidão e diz que aquilo que mais custou nos primeiros anos, foi "ter vivido quase sem família". "Enquanto a minha filha não começou a escola, estive sempre com ela. Matriculei-me em vários cursos de inglês, mas foi apenas quando ela entrou para a escola primária, que eu comecei a integrar-me na sociedade australiana", recorda a professora.

A escola portuguesa

Foi em 1972, com a ajuda de um padre português, que iniciou a escola de língua portuguesa, no município de Petersham, instalada inicialmente num salão da igreja. Mas Cidália não se ficou por aí. No mesmo bairro funcionava uma escola pública onde estudavam muitos alunos portugueses. "Falaram de mim à direcção da escola que foi ter comigo. A comunidade (portuguesa) queria alguém que pudesse ajudar na integração dos filhos na escola, porque eles tinham dificuldades em aprender inglês, pois a maioria tinha vindo de Portugal". E assim, ingressou na Petersham Public School. 
No salão paroquial, as aulas da escola portuguesa eram dadas depois do horário escolar. Cidália Rendeiro começou com nove alunos, e dois meses depois, já tinha 30. "Os pais sabiam da necessidade dos filhos aprenderem inglês, mas não queriam que esquecessem a língua materna", explica. Ao mesmo tempo, na escola pública, dava apoio a 200 alunos. Mas a dispersão da comunidade e a consequente redução do número de alunos portugueses fez com que a sua função - que dependia de um subsídio - terminasse.
Mas se ao fim mais de uma década de um trabalho de ligação entre a escola, os alunos e os pais, essa porta se fechou, abriu-se logo outra. "Na St Brigid's Catholic School, escola onde estudava a minha filha havia muitos alunos portugueses e em 1985 fui convidada a entrar para o corpo docente, como professora bilingue, auxiliando os alunos na transição do português para o inglês", recorda. Uma função que exerce até hoje. Cidália dá em português, a aula ministrada em inglês pelo docente australiano. No ano lectivo de 2009/2010, tinha 90 alunos, já todos luso-descendentes, mas que "continuam a querer aprender português". 
"Aqui, defende-se que se a criança sabe também a sua língua materna, tem mais possibilidades em relação às outras. Mesmo na escola portuguesa, quando apenas um dos pais das crianças é português, ambos querem que o filho conheça a língua, a cultura, as tradições e a gastronomia portuguesas", revela.

Privilégio de ensinar... e aprender

A sua escola portuguesa foi entretanto transferida para a Wilkins Public School, que cedeu as instalações à professora portuguesa, quando a escola abriu. No passado ano lectivo, os quatro professores tiveram 72 alunos. Sempre aos sábados, entre as 9h e as 13h, as crianças dão vida à escola e à língua portuguesa. "Tentamos ter turmas com alunos de idades próximas, mas nem sempre é possível, o que torna a aula muito trabalhosa e exige mais preparação, às vezes sem material", lamenta Cidália Rendeiro, explicando que há alunos de seis anos ao lado de outros com oito. Mesmo assim sublinha que é uma "privilegiada" em relação aos outros professores, por ter a facilidade de adaptar aos alunos da escola portuguesa, os conteúdos que ensina na St Brigid's.
E faz questão de louvar a "força de vontade" dos seus alunos que passam metade do sábado na escola portuguesa. "Nós professores é que somos privilegiados, porque aprendemos muito com eles e temos que os encorajar cada vez mais", destaca. O estímulo é conseguido com aulas dinâmicas e "divertidas" e actividades extra-escolares, como teatro e exposições de trabalhos para que as manhãs de sábado não se tornem monótonas.  
Num país-continente que está a muitos milhares de quilómetros de Portugal, e onde a comunidade lusa é muito dispersa, o ensino da língua e cultura portuguesa depara-se com dificuldades que a professora Cidália gostaria de ver ultrapassadas. 
"Ainda não houve, nestes quase 40 em eu estou envolvida no ensino, acordos entre os dois países para que o português seja uma das línguas de opção nas escolas australianas", lamenta a professora, que destaca porém como muito positivo, um acordo feito há 12 anos com governo australiano. "Aqui, ao terminarem o 10º anos, os alunos podem escolher frequentar no 11º e 12º ano, aulas português como língua estrangeira. Podem frequentá-las numa das nossas escolas do ensino paralelo. Nós, professores, temos que enviar a avaliação desses alunos para a escola australiana que frequentem", explica. 
Cidália Rendeiro revela que a maior parte dos alunos que optam pelo português como língua estrangeira nesses dois anos escolares, frequentaram uma escola portuguesa desde a primária. "Já tem uma base de português bastante forte. Esse acordo foi uma vitória, porque dizemos aos nossos alunos mais pequenos que põem optar por frequentar aulas de português no 11º e 12ª anos", sublinha.
Outro desejo dos professores portugueses é que seja criada na Austrália, uma estrutura de coordenação do ensino do português, à semelhança do que existe em outros países com grandes comunidades portuguesas. Cidália diz que precisam de uma pessoa que não só coordene o trabalho com os professores, mas também gira uma ligação com as autoridades australianas e defende que o ideal "seria alguém de entre o núcleo de professores existente na Austrália". Um desejo que foi transmitido ao secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, António Braga, em Março do ano passado, durante uma deslocação do governante à Austrália. 

Gerações de alunos

Mas apesar das dificuldades, Cidália Rendeiro não ten dúvidas de que o ensino da língua portuguesa no estrangeiro "é muito gratificante" e diz que não são poucos os casos em que ensinou o pai ou a mãe e agora dá aulas aos filhos.
"É muito bom ir na rua, ser cumprimentada por jovens que não reconheço, porque já cresceram, mas que ao dizerem o nome, recordar-me que foram meus alunos. Para mim, essa é a maior recompensa", destaca, acrescentando que não lhe faltam convites para casamentos e baptizados.
Por isso, não quer pensar no dia da reforma. Sabe que "tudo tem um fim", mas diz que enquanto tiver saúde, continuará a dar aulas. Até porque, revela, não há falta de crianças para as turmas de língua portuguesa. 
"Não há uma vaga de emigração para a Austrália, mas tenho alunos de segunda e terceira geração. Os pais defendem o ensino do português, algo que sempre lhes incuti porque acredito que se perdermos a nossa língua, perdemos a nossa identidade. Sempre lhes disse isso e acho que preservaram essa mensagem e a passaram aos filhos", sublinha.

Dedicação à comunidade

Mas a condecoração que recebeu em Março de 2010, não homenageou apenas as quatro décadas de dedicação ao ensino da língua portuguesa. Cidália Rendeiro conseguiu sempre encontrar tempo disponível para apoiar a comunidade. Tanto na Paróquia de Santa Brígida, em Marrickville, onde participa na organização de actividades, como no Rancho Folclórico Aldeias de Portugal, onde já foi pesquisadora de trajes, danças e músicas e até bordadeira.
Mas fala com algum um orgulho do Museu Etnográfico Português na Austrália, que ajudou a fundar há mais de 13 anos. "Queríamos que fosse um marco para as próximas gerações, a prova da força da emigração portuguesa na Austrália. E queríamos dar a conhecer à sociedade australiana, a nossa cultura e as nossas tradições", explica Cidália acrescentando que a comunidade portuguesa foi "muito generosa" na resposta ao apelo lançado então, para a recolha do espólio. 
"Escrevemos ainda a todas as câmaras em Portugal, nem todas responderam, mas o resultado foi muito positivo", recorda referindo alguns dos objectos recebidos, entre os quais um aguadeiro, enviado pela Câmara de Lisboa, um espigueiro recebido da autarquia de Beja e ainda trajes do Minho, da Madeira e do Alentejo e uma réplica de um barco moliceiro. 
O espólio do Museu engloba cerca de 1200 objectos, entre os quais uma algibeira, um chapéu, lenço e rodilha que Cidália doou e pertenceram à sua sogra, varina na Murtosa. De membros da comunidade, receberam os expositores e um banco português doou os computadores.
Pelo Museu Etnográfico já passaram milhares de visitantes que além do espólio acolhe ainda mostras de pintura e escultura. E apesar dos gastos com a manutenção serem altos, Cidália destaca que sempre que é preciso, "a comunidade ajuda".
Uma comunidade que, acrescenta, mudou bastante desde o ano em que chegou ao país. Recorda que naquela altura, os portugueses "eram poucos e quase não se encontravam". "Um dia ia na rua com o meu marido e ouvi duas pessoas a falarem português. Deixei-o e fui abraçá-los", recorda, contente por agora os portugueses serem "muitos".
"Aqui em Petersham andamos na rua e ouvimos falar português, e temos dois clubes onde há actividades todos os fins-de-semana. É uma vida mais alegre, vivemos mais a cultura portuguesa", explica. E nem faltam os produtos portugueses, como o bacalhau, para ajudar a matar as saudades, que são muitas num país que, afirma, só tem um defeito: estar muito longe de Portugal.
Cidália Rendeiro diz que se "vive-se bem" e que as pessoas "compreendem-se", num município onde os portugueses serão já a terceira comunidade estrangeira. E só tem elogios para os australianos, que afirma terem uma boa relação com os portugueses. "Adoram a nossa gastronomia e gostam de conversar connosco, dizem que somos alegres e que damos vida à terra deles", revela com orgulho.
O mesmo orgulho que tem na família, na filha Rosa Maria, que ainda hoje fala português em casa com o marido luso-descendente. E nos netos adolescentes, James e Sarah, que percebem perfeitamente a língua dos avós. 
As saudades da terra natal vão sendo colmatadas com as viagens a Portugal, sempre que lhe é possível. Porque apesar de ter saído há mais de 40 anos, sente-se bem no seu país natal, onde ainda tem "bons amigos". "Serei portuguesa até ao dia em que desaparecer deste mundo e só deixarei de ir a Portugal, quando não tiver mais forças. Quando vir que não tenho forças para dar aulas, também não terei para ir a Portugal", vaticina.
Ana Grácio Pinto
apinto@mundoportugues.org

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