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Investigador antevê fuga de emigrantes da Venezuela
2010-11-23
País poderá mergulhar num grave conflito interno num futuro próximo

 

"Aquele que era um pais de oportunidades, a Venezuela, óptimo para projectar um futuro e uma vida nova, deixou de o ser", assegura Carlos Teixeira, antevendo que o número emigrantes portugueses e seus descendentes a querer voltar para Portugal, ou partir para outros países, "vai continuar a aumentar nos próximos anos".

Este professor universitário de Geografia e História, que cresceu e formou na Venezuela, para onde foi viver muito jovem com os pais, naturais de Gaula, Santa Cruz, lembra que a maior parte da sua família, primos e tios incluídos, já deixaram a terra de Simón Bolívar. E neste movimento de retorno, estão também a embarcar "os netos e bisnetos" de muitas outras famílias, não só portuguesas, como também espanholas, italianas, entre outras origens. "Até a minha filha já fala em sair", confessa.

"Há muita incerteza a todos os níveis, mas sobretudo a nível profissional para os jovens, pois a Venezuela tem a maior taxa de desemprego da América Latina e o maior índice de precariedade laboral", apesar de o Governo venezuelano "afirmar o contrário".

A comunidade portuguesa, observa, está a ser uma das mais afectadas pelas políticas de Hugo Chávez, dado que muitos dos seus membros são proprietários ou trabalham em supermercados, pequenos 'abastos' (mercearias). Ao participar em todo o processo de produção, distribuição e comercialização de muitos produtos, está sujeita ao controlo de câmbios e de preços. "Crescer num ambiente destes é muito difícil", assegura.

A escolha agora é "envolver-se ou fugir. E há muitos que estão a optar por fugir". Um movimento cujas repercussões já são notadas na Madeira, onde, segundo este docente e investigador, "perto de 10% da população é composta por retornados e filhos de retornados."

 Situação vai agravar-se
A situação económica, política e social da Venezuela não apresenta, num horizonte próximo, "nada que diga que vai melhorar", antevê, dando como exemplo os "juros elevados da dívida externa do país". Ironizando, diz que "aqui (Portugal) estão a fazer um escândalo porque os juros da dívida chegaram aos 7%. Lá, num país petrolífero, chegou a 12,76%!" 

Portugal, acrescenta, "só tem 6% das receitas da Venezuela, que é um país que tem mais do dobro da população e vende todos os dias mais 2,3 milhões barris de petróleo a 70 dólares cada um". Tendo em conta esta situação, considera injustificável que "depois de 11 anos de governação, a qual teve nas suas mãos mais de 900 mil milhões de dólares", a Venezuela tenha uma dívida a este nível " e a inflação mais alta da América e uma das mais altas do mundo, perto dos 30%."

"Os conflitos sociais e políticos vão crescer, lamentavelmente, devido ao aumento do custo de vida e ao crescimento da insegurança e vamos assistir a um maior controlo político e social por parte do poder". Isto já está a acontecer na economia, na comunicação social, e, "obviamente", também na política, explica.
Carlos Teixeira diz que Hugo Chávez vai ser derrotado nas urnas. Mas o pior virá depois desse momento. "Ainda há pouco tempo, o General-em-Chefe Rangel Silva (cargo máximo da hierarquia militar) disse que as Forças Armadas não vão reconhecer outro governo que não o de Chávez e que apenas lhe davam três meses no poder".

Facilmente, se pode perceber o que irá acontecer depois. O confronto nas ruas será inevitável e com consequências negativas e imprevisíveis para todos. "Quando um regime político fecha o espaço para a acção democrática dos sindicatos, das federações de estudantes, dos partidos das associações livres, o povo tem o direito a se revoltar e a procurar todas a formas legais, ilegais, pacíficas, violentas", lembra.

Chávez perdeu apoio político
Para o investigador, o regime político venezuelano "está em trânsito para uma ditadura". Mas Chávez está a perder apoio político e popular. As últimas eleições significaram "a perda da maioria num espaço que junta 80% da população urbana". E a oposição conseguiu "marcar referências em diferentes estados que são representantes da acção democrática", como são os casos dos estados de Miranda, Caracas, Zulia, Carabobo ou Lara. 

O chavismo está a perder aliados políticos e apoio popular. Porque? "Já passaram 11 anos e está a repetir as mesmas promessas que não cumpre".

O único aspecto positivo que se pode atribuir ao chavismo, para Carlos Teixeira, foi o de ter "dado o maior impulso a uma nova constituição que é um sonho", pois considera que o actual texto fundamental da Venezuela "é das mais avançadas em matéria de direitos humanos, de protecção ambiental, de exercício da democracia directa e de participação política e cívica".

"Só que agora a nossa constituição é das mais violadas do mundo e pelo próprio poder", ironiza, lembrando que "se está a confiscar empresas e a acabar com o emprego produtivo" só porque o Presidente quer destruir potenciais adversários numa candidatura à presidência.

É  o que está a acontecer em relação ao grupo Polar, da família Mendoza. "Ele acha que o Lorenzo Mendoza pode vir a ser candidato e então está a tomar as empresas que trabalham e fornecem para o grupo Polar", como foi o caso da empresa Owen Illinois, que produz garrafas.

"O que é que tem a ver o Estado com as garrafas", questiona. "Ah, esta empresa produz 80% das garrafas que são utilizadas pela empresa polar..."

Estudo para avaliar influência madeirense
Carlos Teixeira encontra-se na Madeira a fazer investigação para um trabalho que está a preparar sobre a presença dos madeirenses na Venezuela. Cerca de 80% da comunidade portuguesa residente neste país sul-americano é proveniente da Região, sendo a restante oriunda de várias localidades do Continente. O investigador está a tentar identificar quais os contributos que os madeirenses deixaram na sociedade venezuelana, desde as festas religiosas em honra da Virgem de Fátima, à maneira de consumir dos venezuelanos, a qual diz ter sido influenciada pela presença madeirense, ou não estivessem 75% das padarias do país nas mãos de naturais ou descendentes de cá, lembra.

"Quero tentar perceber o impacto desta emigração, contextualizá-lo, saber como foi a sua chegada, identificar as diferentes vagas", disse, lembrando que grande parte destes contributos estão "na história oral, apesar de alguns se terem preocupado em escrever algumas coisas".

O trabalho será o mais abrangente possível, pelo que irá incluir também dados sobre a participação na economia da Venezuela, qual foi, e é, o seu peso no Produto Interno Bruto, nível de associativismo social, económico, e político.

Neste último capitulo, o investigador vai tentar perceber porque é que a comunidade madeirense é das que "menos participa na política", ao contrário do que se passa com os italianos, espanhóis e até árabes. Embora já tenha assente que os madeirenses "preocuparam-se sempre mais como trabalho do que outros aspectos da vida". Foi assim mesmo durante os períodos de ditadura ou democracia na Venezuela, assegura.

Diário de Notícias da Madeira, aqui.

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