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É emigrante? Tem um projecto? A Gulbenkian quer ajudá-lo
2010-11-11
Fundação vai pedir e financiar ideias dos emigrantes para tornar Portugal um "sítio melhor para viver". Hoje é lançado o Atlas das Migrações

A Fundação Calouste Gulbenkian vai pedir aos emigrantes ideias para tornar Portugal um "sítio melhor para viver". O anúncio é feito hoje, durante o colóquio Migrações, Minorias e Diversidade Cultural, em Lisboa. Neste encontro será também apresentado o primeiro Atlas das Migrações, um livro onde se traça o retrato das migrações com origem ou destino em Portugal desde o final do século XIX até aos nossos dias.

Se, nessa altura, a maioria dos portugueses saíam em direcção ao Brasil, hoje a maior comunidade imigrante no país é a brasileira. Actualmente existem 2,3 milhões de portugueses, nascidos em Portugal, a viver no estrangeiro - é o 22.º país com mais emigração, mas a imigração fica-se pelos 4,2 por cento, bem longe dos 40 do Luxemburgo e perto da média europeia, de seis por cento.

A iniciativa FAZ, do verbo fazer, vai pedir aos emigrantes que "pensem em comunidade, que estreitem os laços com os que ficaram", explica Luísa Valle, directora do Programa Gulbenkian de Desenvolvimento Humano. A intenção é lançar um concurso de ideias, em que o melhor projecto de empreendedorismo social seja concretizado em território português. A Gulbenkian financia-o, mas, para já, não avança valores. "Lá se pensam, cá se fazem", resume Luísa Valle, que considera que existe um "potencial espalhado pelo mundo que não tem sido aproveitado". Por isso, é preciso motivar "a diáspora" para ser mais pró-activa e contribuir para tornar Portugal um "sítio melhor para viver".

Luísa Valle espera que esta iniciativa se transforme num movimento da sociedade civil. No início de Janeiro, a Gulbenkian vai lançar o regulamento da iniciativa FAZ. "Importa reforçar e consolidar os laços entre Portugal e os portugueses espalhados pelo mundo, aproveitar a sua experiência e desafiá-los para resolvermos em conjunto as questões que são de todos", diz a fundação em comunicado.

"A História explica muito"

No final do século XIX, o Brasil era o principal destino da emigração portuguesa (entre 1886 e 1950, 1,2 milhões de portugueses chegaram ao Brasil). Hoje, são os brasileiros a maior comunidade imigrante em Portugal (107 mil em 2008), revela o Atlas das Migrações, coordenado pelo sociólogo Rui Pena Pires, uma encomenda da Gulbenkian e da Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República que é hoje apresentado.

O documento faz uma retrospectiva com informação cronológica, geográfica e sociológica. "Os portugueses não saíram por vocação, mas por acidentes da História. A História explica muito", diz Pena Pires, confessando-se "céptico [em relação] às explicações culturalistas" sobre a emigração. A saída não se deve a "uma característica geral comum a todos os portugueses", mas a questões económicas e ao passado colonial, explica.

Desde 1900 que um terço do crescimento demográfico português foi absorvido pela emigração, revela o?Atlas. A consequência directa foi um decréscimo acentuado do crescimento demográfico potencial. O país conseguiu atrasar essa quebra com a chegada de África dos portugueses residentes nas ex-colónias, a partir de 1975, recorda Pena Pires. Mas não só. Houve uma "imigração africana lusófona", entre 1980 e 1990, que se intensificou com o aumento das obras públicas e da construção civil. O investigador aponta que se trata de uma imigração pouco qualificada.

Contudo, "Portugal não poderia hoje viver sem o contributo da imigração", diz ainda o Atlas. Vários sectores de actividade poderiam ficar "semi-paralisados", como a construção civil, os serviços pessoais e domésticos, a restauração, hotelaria e comércio. Mas também o emprego altamente qualificado, como os quadros estrangeiros de empresas multinacionais.

Emigrantes qualificados

No final do século XIX, os portugueses procuravam os países do outro lado do Atlântico, com o Brasil à cabeça, e com uma emigração pouco qualificada. Actualmente há uma nova emigração mais virada para o espaço europeu, resultado da maior circulação promovida pela entrada na União Europeia, e mais qualificada. Além dos países europeus, Angola foi o destino de mais de 74 mil portugueses no início do século XXI.

Um "fenómeno novo" é que há profissões qualificadas que requerem mobilidade, explica Pena Pires. Em 2000, 13 por cento dos portugueses com grau superior (90 mil) emigraram. Na União Europeia, este valor só era superado pela Eslováquia e pela Irlanda. Os "novos emigrantes" são mais qualificados e escolhem o destino porque são informados, uma situação bem diferente da do emigrante dos séculos XIX e XX, que ia sobretudo atrás de um trabalho ou de familiares. Em comum, a esperança de "viver melhor", conclui Rui Pena Pires.

Público, aqui.

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