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Estudo sobre a integração dos descendentes de imigrantes portugueses na América – Dulce Maria Scott (3/3)
2010-09-09

IDENTIDADE E MANUTENÇÃO DA CULTURA ÉTNICA

Enquanto as teorias clássicas de assimilação assumiam que a adopção dos valores da cultura dominante e duma entidade exclusivamente americana (ou seja a assimilação psicológica, a última etapa num processo de assimilação de várias etapas sucessivas e irreversíveis)[1] eram um aspecto fundamental no processo inter-geracional de assimilação, sociólogos mais recentes, como Alejandro Portes e Rubén Rumbaut,[2] desenvolveram o conceito de aculturação dissonante e consonante. Num processo de aculturação consonante, envolvendo uma aculturação selectiva, a segunda geração integra-se na cultura dominante, mas não abandona a cultura e língua dos pais, permitindo a estes últimos a capacidade de controlar e influenciar o crescimento dos seus filhos. Numa situação onde os filhos dos imigrantes, ao aprenderem o inglês e o modo de vida americano, abandonam a língua e os valores dos pais, dá-se uma quebra de comunicação dentro do meio familiar levando os pais, particularmente aqueles que se mantêm monolingues, a uma perca de controlo sobre os filhos. De acordo com Portes e Rumbaut, embora a aculturação dissonante não leve necessariamente a uma assimilação descendente, ou seja a um patamar socioeconómico inferior ao dos pais, os filhos dos imigrantes, nessa situação, sem o benefício da orientação parental, encontram-se mais susceptíveis aos perigos e obstáculos que enfrentarão ao integrarem-se na sociedade americana. A assimilação descendente tem sido medida utilizando indicadores como as taxas de abandono escolar, de detenção de jovens, de gravidez de adolescentes, e de desemprego juvenil, entre outros.[3] Conversamente, a assimilação ascendente é mais plausível em situações onde se dá uma aculturação consonante dos pais e dos filhos, podendo os últimos depender da força moral e normativa da comunidade imigrante como defesa contra a cultura aposicional prevalecente nas zonas centrais das cidades americanas.
  Uma análise preliminar dos dados do inquérito, assim como entrevistas pessoais, sugerem que os imigrantes portugueses, em grande parte, têm transmitido aos seus filhos valores familiares e comunitários fortes e que muitos, por exemplo na Califórnia, foram criados dentro do contexto da cultura e de organizações étnicas. Como disse uma jovem entrevistada na área de San José na Califórnia:

Todos os anos, a minha irmã e eu fazíamos uma lista de todas as festas do Espírito Santo na Califórnia, porque essa era a única forma em que nos era permitido sair de casa no fim-de-semana. Nas festas, para além das sopas, podíamos conviver com outros jovens e isso era muito melhor do que ficar em casa.

Os jovens entrevistados na Califórnia também participavam regularmente em eventos sociais ligados a clubes e organizações luso-americanas e nenhum deles expressou negatividade em relação à cultura luso-americana.
  Na Nova Inglaterra, os descendentes de imigrantes do fim do século 19 e inicio do século 20, ainda falam da dor e sofrimento causado pelos preconceitos e discriminação a que eram submetidos por pessoas de outros grupos étnicos, como os irlandeses, os polacos e os canadianos franceses, entre outros, assim como do impacto psicológico que termos como "dirty Portugee" (português sujo) e "black Portugee" (português negro) tiveram na sua vida e na percepção do seu valor e capacidades pessoais. Por exemplo, o Mr. George Ray--um octogenário, cujos pais imigraram no fim do século 19, quando ainda eram crianças, a mãe de Rabo de Peixe e o pai da Ribeira das Tainhas em São Miguel--descreveu como, durante a sua vida, o ser português o fazia sentir timidez, porque pensava que não era capaz de fazer muitas coisas tão bem como as pessoas dos outros grupos étnicos, numa altura em que os portugueses, relegados aos segmentos "abaixo dos mais baixos" da pirâmide ocupacional, eram vistos, por exemplo, como "não sendo suficientemente espertos para trabalharem na fábrica da renda como tecedores (lace weavers)". O Sr. Ray (forma anglicizada de Rei) explicou que tentava demonstrar aos irlandeses e aos polacos que era tão bom como eles, mas que sempre falhava:

Jogava basebol, mas não jogava bem. Praticava o boxe, mas não era bom nele. Tudo o que eu fazia, não fazia bem.

Com a passagem do tempo e uma maior implantação dos portugueses na Nova Inglaterra, o senhor Ray consegui ultrapassar os efeitos negativos dos preconceitos contra os imigrantes portugueses, assumindo posições de liderança em fábricas onde trabalhou. As pessoas de meia-idade que entrevistei também descreveram episódios da sua infância, quando tinham sido maltratadas por crianças de outros grupos étnicos, mas, em geral afirmaram que o impacto psicológico desses incidentes tinha sido de pouco grave a mínimo. Por seu turno, os mais jovens que entrevistei afirmaram que não tinham defrontado preconceitos ou discriminação contra os luso-americanos durante a sua infância e que o ser português era algo que não afectava a sua vida diária. Como disse o Senador Daniel da Ponte referindo-se à sua infância: "A nossa geração não sentia vergonha de ser português como o sentiram alguns das gerações mais velhas..."
  Tendo em consideração a importância de uma percepção positiva da cultura ancestral para o sucesso académico e integração ascendente na sociedade de acolhimento, é essencial que os luso-americanos promovem entre os jovens uma visão positiva da língua, cultura e história portuguesas, assim como das contribuições que os portugueses têm feito para a sociedade americana.
  Por exemplo, em Fall River, um dos empresários luso-americanos mais bem sucedidos desta área, o senhor Fernando Garcia, que emigrou de São Miguel com os pais quando tinha onze anos de idade, compreende a necessidade dessa promoção e orgulha-se das suas contribuições monetárias, e não só, para várias causas relacionadas com a cultura e língua portuguesas.

Nós, os portugueses é que montamos a economia desta região, com muitos sacrifícios, muito suor, e às vezes com muita falta de respeito estendido a nós, trabalhando nessas fábricas como escravos... e a criança hoje em dia tem de saber e tem de respeitar o que os pais e os avós fizeram... que os bens de que hoje estão a usufruir foram lançados a partir desta base, do suor destas pessoas. É por isso que estamos a fazer um esforço para montar não só o museu português, mas também uma escola, a livraria açoriana, e parte do PCC para mostrar às crianças que não devem ter vergonha de serem portugueses e de falarem português... As crianças têm de saber que o mundo português não é só este mundo que existia aqui com as fábricas, que descobrimos e fizemos muitas coisas...que devem sentir orgulho da história gloriosa da língua portuguesa, de Portugal e da nossa cultura. 

É importante enfatizar que a integração ascendente na sociedade acolhedora requer uma adopção por parte dos recém-chegados e dos seus descendentes do inglês e de aspectos da cultura e modos de vida americanos, que lhes permitem acesso às oportunidades proporcionadas pelas instituições dominantes. Porém, os imigrantes e os seus descendentes podem ingressar numa via de "aculturação selectiva", isto é, podem adoptar aspectos da cultura dominante que lhes permitem funcionar com sucesso dentro dos meios socioeconómicos da sociedade acolhedora, mantendo, no entanto, aspectos da cultura ancestral, assim como uma participação activa na vida social e organizacional das suas comunidades.
  Os resultados do Inquérito online e as entrevistas pessoais demonstram que os luso-americanos, que participaram no estudo, em geral, estão a seguir um padrão de "aculturação selectiva", isto é, que tanto se identificam com a sociedade americana como com Portugal e que a identificação com dois países e duas culturas não é contraditória ou mutuamente exclusiva. Os inquiridos indicaram que se sentiam orgulhosos não só da sua entidade americana mas também da sua entidade portuguesa e mais de 60 por cento dos inquiridos afirmaram que gostavam tanto da cultura americana como da cultura portuguesa.
  Numa entrevista, o senhor Al Pinheiro, presidente da Câmara da cidade de Gilroy, Califórnia afirmou:

Um dos aspectos mais positivos da América é que enquanto nos proporciona oportunidades que nos permitem integrarmo-nos e assimilarmo-nos onde nos encontramos, também nos fornece a liberdade para continuarmos a praticar as nossas tradições e a celebrarmos as nossas raízes.

O percurso do Sr. Pinheiro nos Estados Unidos é ilustrativo deste processo de integração "selectiva" na sociedade americana, com uma manutenção da entidade étnica: Emigrou, com a sua mãe da Terceira quando tinha 12 anos de idade, trabalhou e estudou, atingido o prestigiado cargo de Presidente da Câmara, mantendo-se no entanto ligado e envolvido nas comunidades luso-americanos e na Terceira, Açores, onde recentemente construiu uma casa.

Na costa leste, o Presidente da Câmara de Fall River, o senhor William Flanagan, que se descreve como sendo metade irlandês, um quarto inglês e um quarto português, e se encontra casado com uma mulher luso-americana, que com um ano de idade emigrou de São Jorge para os Estados Unidos, não só tem orgulho da sua ascendência portuguesa, como também pensa que não há contradição entre a manutenção da cultura portuguesa e a integração da população de ascendência lusa na sociedade americana.

Sinto muito orgulho em ter sangue português. A minha avó imigrou para Fall River de São Miguel, na década de 1920, quando era jovem, e trabalhou nas fábricas e criou uma família por aqui.

A América é um "melting pot" (um cadinho multicultural)... Podemo-nos integrar na sociedade Americana, enquanto aprendemos e exploramos culturas diferentes e simultaneamente mantemos a nossa própria cultura e identidade.

A posição destes dois Presidentes da Câmara, nas costas oeste e leste, é corroborada pelos estudos recentes, citados acima, que indicam que uma entidade e práticas culturais étnicas não impedem uma integração económica, social e política na sociedade americana. Pelo contrário, comunidades com um capital social e organizacional denso podem melhor promover os seus interesses na sociedade acolhedora e, ao tal fazerem, vão atingindo um nível de integração maior.
  Em conclusão, embora os imigrantes portugueses e os seus descendentes, devido ao nível baixo de capital individual de uma população destinada ao mercado de trabalho manual dos Estados Unidos, ainda se encontrem num patamar educacional um pouco inferior às médias nacionais, muitos imigrantes portugueses têm lançado os seus descendentes numa trajectória de ascensão socioeconómica e integração ascendentes na América. Esta integração socioeconómica tem sido acompanhada por um processo de aculturação selectiva, através do qual muitos das gerações nascidas na América, e daqueles que chegaram durante a infância, mantêm, em simultâneo, uma entidade americana e uma entidade étnica. Neste artigo também argumentei que a concentração geográfica e a reprodução e manutenção da cultura étnica, que frequentemente têm sido assumidos como indicadores de falta de integração dos luso-americanos na sociedade americana, de facto, não impedem um processo de integração ascendente, e que, pelo contrário, ao proporcionarem benefícios económicos e psicológicos à população imigrante, podem contribuir positivamente para a integração do grupo étnico na sociedade de acolhimento. Finalmente, devo de sublinhar que as conclusões derivadas da minha pesquisa necessitam de ser exploradas e testadas por estudos adicionais e baseados em amostras representativas do universo populacional luso-americano.

[1] Para um resumo da teoria clássica de assimilação e as suas várias etapas, ver Marger, M. (2000), Race and Ethnic Relations: American and Global Perspectives, 5th ed.. Belmont, CA, Wadsworth.
[2] Portes, A., e R. Rumbaut, (2006:267) Immigrant America: A Portrait, 3rd ed..Berkely, CA, University of Califórnia Press.
[3] Para uma revisão do conceito de assimilação segmentada (ascendente e descendente), ver Zhou, M. (1997), "Segmented Assimilation: Issues, Controversies, and Recent Research on the New Second Generation," International Migration Review, 31(4), pp. 0975-1008.
4. A tradução do termo "melting pot" para "um cadinho multicultural" foi-me sugerida pelo Dr. Fernando Paulo Baptista, um dos filólogos mais proeminentes de Portugal e autor de vários livros e artigos, sendo a sua obra mais recente intitulada, Nesta Nossa Doce Língua de Camões e de Aquilino, Câmara Municipal de Sernancelhe, 2010.



Dulce Maria Scott, Ph.D

(Anderson University & Institute for Portuguese and Lusophone World Studies, Colégio Universitário de Rhode Island)

September 9, 2010




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Dulce Maria Scott doutorou-se em Sociologia pela Brown University, Providence-Rhode Island. Presentemente é professora na Universidade de Anderson, Indiana-USA, e  investigadora no Institute for Portuguese and Lusophone World Studies, Colégio Universitário de Rhode Island. Tem-se dedicado a pesquisas na área da imigração, raça e etnicidade nos Estados Unidos, tendo publicado e apresentado vários artigos sobre esta temática nos Estados Unidos e em Portugal. 
Dulce Maria Scott foi recentemente nomeda para "Board of Directors",  Indiana Academy of the Social Sciences, e é membro do Conselho Editorial da Revista da Academia.
Dulce Maria Scott é  natural de São Miguel, Açores e emigrou para os Estados Unidos aos 18 anos de idade.

 

por: Irene Maria F. Blayer

RTP Açores, Comunidades, aqui.

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