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"Só não trabalhava quem não queria"
2009-10-05
Desemprego bateu à porta de Miguel Caires após 26 anos de trabalho no Reino Unido

Ao fim de 26 anos no Reino Unido, Miguel de Caires encontrou o desemprego. Toda a vida trabalhou, mas foi surpreendido por uma crise não anunciada que obriga centenas a recorrerem ao fundo de desemprego.

Nos centros de emprego, afirma aquele madeirense de 54 anos, as filas são maiores do que nunca e os tempos de fartura chegaram ao fim. A comunidade portuguesa não escapa à crise instalada.

Quando decidiu partir para o Reino Unido, Miguel trabalhava no Banco Espírito Santo no Funchal. Foi daí que os seus pais partiram quando decidiram tentar a sorte em Angola e foi aí que o português concluiu que precisava de procurar novos rumos. "Não pelo trabalho, porque era bom, mas porque estava cansado", explica ao JN.

Londres foi o destino inicial, "tinha cá família e decidi vir conhecer a cidade". Acabou por partir para a Ilha de Jersey onde, durante 14 anos, trabalhou em hotéis antes de um divórcio o levar de novo à capital inglesa. "Trabalho nunca foi problema. Havia emprego para todos menos para os preguiçosos", defende.

Em Londres, trabalhou em dois restaurantes no seio da comunidade portuguesa, um dos quais acabou por fechar portas. Mas os dois trabalhos estáveis mantiveram-no no emprego durante mais de dez anos até que, no início de 2009, a sua vida levaria uma reviravolta.

"Nunca pensei, nunca imaginei ver esta cidade assim. Há dois anos só não trabalhava quem não queria, havia mais oferta de trabalho do que procura e vivia-se bem, recebíamos à semana e havia muito mais dinheiro nos bolsos das pessoas", explica o português que passou já mais de seis meses a fazer fila para recolher o subsídio de desemprego.

Na comunidade o clima de instabilidade é visível. Negócios portugueses precisam de clientela mas, os mesmos elementos que no passado enchiam os cafés e os restaurantes num esforço para matar as saudades de casa, hoje sabem que o dinheiro não chega para luxos como um café e um pastel de nata ao final do dia.

Miguel assegura que ali ninguém adivinhava o que vinha pela frente. "Isto foi tudo uma surpresa, havia indicações mas só para quem está mais informado sobre os sistemas económicos", acrescenta.

Ainda assim, de Portugal chegam mais emigrantes, que fogem de uma crise para encontrarem outra. Juntam-se às longas filas nas agência de trabalho e, sem opções e sem direito a ajudas do Estado, muitas vezes acabam por ser forçados ao mercado paralelo.

"Procurar emprego é muito difícil. Os centros de emprego estão cheios e há poucos trabalhos disponíveis. Há também muito mais gente a sujeitar-se a trabalhos paralelos em que não descontam. Eu nunca o fiz, mas existe muito trabalho assim em Inglaterra, principalmente em Londres".

A perspectiva de começar um trabalho novo renova a esperança do português mas alerta que, em tempos de crise, a cultura das "cunhas" é ainda mais visível. "Se a pessoa não tem conhecimentos não se desenrasca. Os currículos acabam por passar para segundo plano e os conhecimentos pessoais são mais importantes, particularmente quando há muita gente a concorrer".

Jornal de Notícias, aqui.

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