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Uma imagem bem focada
Entrevista com O contributo de Maria Ioannis Baganha para os estudos das migrações

Por João Peixoto, Setembro de 2009.

 

São poucas as pessoas de quem podemos dizer que marcaram gerações, pelas suas qualidades ou os seus ensinamentos. São ainda menos aquelas de quem costumamos realçar quase só os aspectos positivos. E são ainda menos aquelas de quem tudo isto se disse em vida. Tal é sobretudo verdade em meios competitivos, como sucede no meio académico. Maria Ioannis Baganha, que nos deixou há poucos meses, foi uma dessas pessoas. Mesmo quando suscitava opiniões divergentes - o que resultava da sua personalidade forte -, as gerações que com ela trabalharam e aprenderam reconheciam-na bem. Alunos e colegas realçavam, na maioria dos casos, as suas melhores qualidades. Depois do seu desaparecimento, os tributos subiram de tom e chegaram a um nível pouco habitual na academia portuguesa. Muitos vieram do estrangeiro, provenientes de alguns dos mais destacados investigadores mundiais na sua área científica. Mas os últimos elogios não mudaram o tom daquilo que há muito se sabia.

Maria Ioannis Baganha foi a figura de maior destaque nos estudos contemporâneos sobre migrações em Portugal. Foi a académica portuguesa que mais se destacou nesta área científica, nas últimas décadas, a nível nacional e internacional. O seu contributo foi múltiplo. Salientou-se pela interdisciplinaridade: começou por trabalhar em história e concentrou-se, nos últimos anos, na sociologia; para além disso, as suas incursões pela economia e ciência política foram várias e era-lhe reconhecido o domínio dos métodos quantitativos. Demonstrou variedade temática: trabalhou sobre a emigração portuguesa desde o século XIX até hoje, incluindo o estudo das novas tendências da emigração na viragem para o século XXI, e acompanhou a imigração estrangeira para Portugal nas últimas décadas. Distinguiu-se pela versatilidade geográfica: especializou-se, naturalmente, no estudo sobre Portugal, mas contribuiu para o conhecimento das migrações na Europa mediterrânica e no conjunto da União Europeia.

A sua bibliografia é impressionante - pela variedade e qualidade das referências. Entre os livros que escreveu ou organizou, podem destacar-se Portuguese Emigration to the United States, 1820-1930 (New York and London, Garland Publishing Inc., 1990), resultado da sua tese de doutoramento; Immigration in Southern Europe (Oeiras, Celta, 1997), reunindo contributos de vários autores sobre a imigração na Europa mediterrânica; e vários livros editados pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. As suas contribuições para livros colectivos, editados em Portugal e no estrangeiro, contam-se às dezenas. O mesmo sucede com os artigos em revistas científicas, portuguesas e estrangeiras. Entre outros temas, escreveu sobre emigração portuguesa, em várias épocas e contextos; imigração estrangeira em Portugal, no geral e sobre alguns grupos particulares (com relevo para os imigrantes da Europa de Leste); imigrantes e mercado de trabalho na Europa do Sul; imigração irregular e economia informal; regulação política das migrações; integração dos imigrantes e cidadania. Vários destes textos estão entre os mais utilizados e citados de sempre acerca das migrações em Portugal, em vários contextos, épocas e acepções - como sucede com um dos mais abrangentes de todos: "Migrações internacionais de e para Portugal: o que sabemos e para onde vamos?" (com Pedro Góis), publicado no nº 52/53 da Revista Crítica de Ciências Sociais, em 1998/1999.

Foi uma professora e formadora sem igual. Leccionou em várias instituições. Os seus maiores contributos ocorreram na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, onde trabalhava desde 1993. Aí regeu, entre outras, a cadeira de Migrações Internacionais, da Licenciatura em Sociologia; e o seminário em Migrações, Mobilidade e Globalização, do Mestrado em Sociologia - As Sociedades Nacionais Perante os Processos de Globalização. Raros dos seus alunos lhe ficaram indiferentes; a sua energia, entusiamo e conhecimentos explicam que muitos se tenham inspirado nela para continuar a trabalhar em migrações. Orientou muitas teses de mestrado e doutoramento. Muitas delas desbravaram temas mal conhecidos e contribuíram para o conhecimento aprofundado sobre migrações em Portugal. Algumas fazem parte da bibliografia de referência nesta área. Uniu, assim, de forma exemplar, ensino e investigação. Soube ainda reunir, no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, formando o Núcleo de Estudos de Migrações, uma equipa que com ela trabalhou durante muitos anos e lhe permitiu uma produção científica constante de alto nível. José Carlos Marques e Pedro Góis, que foram seus alunos e orientandos, estiveram sempre ao seu lado. Os três formaram uma equipa de tal forma complementar que dificilmente se irá repetir.

Coordenou e participou em muitos projectos de investigação, nacionais e internacionais. Entre os de maior relevo contam-se, por exemplo, "The Political Economy of Migration in an Integrating Europe (PEMINT)", que coordenou entre 2001-2004, e "Migrant Insertion in the Informal Economy: Deviant Behaviour and the Impact on Receiving Societies (MIGRINF)" (1995-1998), ambos financiados pela Comissão Europeia; "Migrants' Transnational Practices in Western Europe" (2005-2007) e "When the Ends Touch Each Other - The Eastern European Immigrants in Portugal" (2003-2006), financiados pela FCT. Participou em diversas redes de investigação. Nos últimos anos adquiriu um protagonismo crescente em muitas delas. A sua posição no IMISCOE, rede de excelência internacional na investigação sobre migrações, é disso prova: desde 2004 era Presidente do Conselho de Directores e Membro do Conselho Editorial. Colaborou e era membro do Conselho Editorial de diversas revistas científicas, de novo tanto nacionais como internacionais.

Do ponto de vista do estudo da emigração - assunto que interessa ao Observatório da Emigração -, os seus contributos foram múltiplos. O seu primeiro enfoque foi histórico. O tema da sua tese de doutoramento foi o das correntes transatlânticas dirigidas aos EUA entre o século XIX e o início do século XX. Com o tempo, alargou o horizonte temporal. Um dos seus melhores textos é sobre as correntes emigratórias portuguesas durante o século XX e o seu impacto sobre a economia ("As correntes emigratórias portuguesas no século XX e o seu impacto na economia nacional", Análise Social, Vol. XXIX, Nº 128). Também se interessou pela emigração para o Brasil, pelas remessas de emigrantes, pelas políticas de emigração do Estado Novo e pelos fluxos que se manifestaram nos últimos anos do século XX, em particular desde meados dos anos 1980 - alguns deles relacionados com a adesão de Portugal ao espaço europeu. Nos últimos anos, foi responsável pelo reavivar do interesse pelo tema da emigração, quando os outros investigadores tratavam sobretudo da imigração. Outras das suas contribuições são sobre o entrelaçar das dinâmicas migratórias: tal como demonstrou, os fluxos de entrada e saída não vivem isolados, mas, antes, partilham o mesmo espaço e algumas causalidades. Lamentavelmente, não viu financiado, por duas vezes, um projecto de investigação em que  se empenhou acerca das novas modalidades da emigração portuguesa recente. Um dos argumentos usado pelo júri para reprovar o projecto, que ela vivamente criticou, foi o de que a emigração não era já um assunto relevante na sociedade portuguesa.

Falta referir as suas qualidades pessoais. Embora as considerações do autor deste texto sejam suspeitas - pois conheceu-lhe apenas os melhores atributos -, elas podem ser confirmadas por repetidos testemunhos que, nos últimos meses, têm surgido. Maria Ioannis Baganha era uma pessoa de uma enorme inteligência, de uma grande frontalidade, mas, acima de tudo, de uma elevada humanidade. Foi solidária e amiga, ajudou quando pôde ajudar, deu independentemente do que recebia. Quem conviveu mais de perto com ela conheceu a sua maneira de ser. Era profissional quando devia, crítica e mordaz quando se justificava, mas humana em todas as circunstâncias.

Conheci-a num Congresso Português de Sociologia, em 1992. Apresentámos comunicações na mesma sessão sobre temas semelhantes - a reanimação da emigração portuguesa, quando sobretudo se falava da sua extinção. Foi a pessoa na sala que me colocou as questões mais incómodas. Como percebi mais tarde, essa frontalidade e abertura para a discussão não significaram antagonismo, mas, pelo contrário, vontade de colaboração. Como uma vez me disse, só discutia abertamente com pessoas com quem queria continuar a trabalhar. Esse acontecimento esteve na origem de uma colaboração de muitos anos e de uma grande amizade pessoal. Ao longo do tempo, beneficiei da sua experiência, conheci a sua energia e aproveitei a sua atitude sempre positiva.

Um dos textos que dela li e de que mais gostei intitula-se "Uma imagem desfocada: a emigração portuguesa e as fontes sobre a emigração". Foi publicado em 1991 na Análise Social (Vol. XXVI, Nº 112-113) e observa o ressurgimento dos fluxos de emigração, apesar da sua aparente implausibilidade e de fontes estatísticas com muitas limitações. Tal como nesse texto, o seu contributo foi sempre no sentido de focar, clarificar e dar rigor àquilo que antes era mal conhecido. Ajudou-nos a compreender os fluxos migratórios da nossa época, tanto em Portugal como no contexto internacional. Era concisa, clara e pertinente naquilo que escrevia. Tudo depois dela passava a estar melhor explicado. Vai ser díficil continuar a trabalhar os temas das migrações sem a Maria. Vamos compreender pior e trabalhar com menos gosto. O nosso trabalho sem ela ficará mais triste e mais desfocado.

 

Como citar   Peixoto, João (2009), Uma imagem bem focada - O contributo de Maria Ioannis Baganha para os estudos das migrações, Lisboa, Observatório da Emigração, Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), CIES-IUL e DGACCP. http://www.observatorioemigracao.pt/np4/779.html

 

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